Começamos a morrer no exato instante em que começamos a viver. E hoje estamos mais mortos do que estávamos ontem. Atualmente, mais do que em qualquer outro período histórico, vivemos a morte como uma experiência marginal, em que ela ocorre normalmente oculta dentro dos vivos. Ensaiar a morte como objetivo de trazer reflexões sobre a vida, diante de um processo de doença, vivenciando sentimentos intensos e conflitos despertados pela possibilidade da morte, faz-nos refletir sobre o processo de vida e de toda a sua envolvência, embora a morte e o morrer sejam fenômenos inevitáveis e inerentes à condição humana, refletir sobre a finitude humana é algo desafiador.
Na sociedade actual, encarar a possibilidade da nossa própria morte e das pessoas que amamos é um sentimento revestido de uma dor insuportável. A dor, quando perdemos alguém, deverá ser superada rapidamente, de forma asséptica como um procedimento cirúrgico, sem barulho e sem perturbar os amigos. No caso do adoecimento, ou mesmo da vivência da hospitalização, observamos que esta situação nos aproxima de reflexões internas mais intensas e que, em muitos momentos, as pessoas mudam todo um modo de viver.
A morte, que tanto assusta o ser humano que, muitas vezes a prorroga até o último extremo, torna-se inevitável. Segundo o curso normal dos acontecimentos todos passaremos por ela. Talvez o que mais espante o homem não seja a própria morte, mas o que está por detrás dela, de tudo aquilo que poderá existir ou não. Mesmo aqueles que se dizem incrédulos passarão pela morte e é diante dela que muitos adquirem a força para agirem, com serenidade, aceitando o termo a tudo e a todos. Na vida, regida pela morte, é difícil manter a ansiedade do homem, porque o prolongamento da longevidade biológica não pode satisfazer aquele desejo de uma vida interior, invencivelmente radicada no coração.
Há algo admirável neste trânsito da vida para a morte, que, faz com que diversos povos respeitem e perpetuem os membros da família já falecidos, para que a vida seja valorizada e prestadas garantias que, no futuro, possamos alcançar a imortalidade. Garantia esta, que apenas poderá ser prestada perante o nosso contributo e prestação aquando da nossa condição de vivo.
Os maus serão recordados pela negativa e em breve esquecidos, mas os bons, os nobres, os diferentes, os criadores, os artistas e todos os que amaram imperecivelmente jamais serão esquecidos. É esta a diferença entre a morte e a vida - amar. Amar a tudo e a todos, sem limite e sem condição.
Afinal, uma vez que nos são retirados os nossos mais expressivos vínculos, as nossas raízes também perdem força e profundidade. Com a idade avançada passamos a não ter mais o mesmo olhar sobre as pessoas e sobre as coisas, porque, pelo dinamismo do mundo, tudo muda rápido demais e num dado momento perdemos a ligação e deixamos de acompanhar o ritmo, aí, perdemo-nos nas emoções e sentimentalismos, valorizando apenas o ser, enquanto figura humana. Todo esse processo poderá ser triste, deprimente e quase sempre o é, devido às nossas fraquezas enquanto seres humanos. Mas enquanto houver amor dentro de cada um, enquanto o modo de estar, for simplesmente amar e colocar amor em todas as nossas tarefas, em todas as nossas ações, iremos aprender a desapegar-nos e a prepararmo-nos para a transição, tão necessária à continuidade da própria vida.
Entre a morte e a vida há o amor, e este é o único elemento que merece todas as lutas, debates e lágrimas.
Manuel Carreiro