Agora que passam três meses da tomada de posse do governo regional açoriano, composto por três forças políticas e suportado por cinco partidos, é o momento de trazer à liça algumas considerações sobre este novo executivo. Singelo e pioneiro na forma, mas também no conteúdo, foi um fator de debate – e continua a ser – e uma originalidade na democracia nacional, no regime autonómico e que tanta tinta fez correr nos meios de informação, entre comentadores e analistas. Por um lado, por agregar inúmeras forças políticas, assumindo o cerne da desconfiança o Chega, que segundo os seus opostos mais radicais abriria o caminho ao regresso do fascismo. Por outro lado, porque arredava os socialistas do poder, que detêm o maior grupo parlamentar, num remake do que António Costa fez em 2015.
A curiosidade com o processo e o desenlace que permitiram a José Manuel Bolieiro ser indigitado presidente do executivo regional, trazia consigo a preocupação com a hipotética possibilidade de tal experiência poder vir a acontecer na República. Até esse receio parece ter sido esfumado pelas sondagens, que atribuem parcos resultados aos sociais-democratas, mesmo com o assinalável crescimento de outras forças do mesmo espetro político ou, como se convencionou tratar, do espaço não-socialista. E com o decorrer do tempo e o programa de governo aprovado, a normalização da ação de um governo com o apoio maioritário dos parlamentares, deixou de ser notícia corrente. Para além de algumas tentativas goradas de ganhos políticos laterais à região, e com um processo positivo de luta contra a pandemia, o executivo regional parece navegar em águas calmas, até com elogios públicos de partidos que não suportam o governo. Nada parece indicar que esta congregação partidária de governo venha a ser um epifenómeno. A não ser, eventualmente, para os próprios socialistas.
Correndo um sério risco de sofrer perdas eleitorais se forçassem a queda do executivo através de política de terra queimada, os socialistas ainda se tentam organizar internamente. Demoraram a reagir ao desaire, que não esperariam, e com eleições para a escolha do líder, congresso e estruturas de ilha marcadas para os próximos meses, não é do conhecimento público se o atual líder se recandidata ou se, fazendo-o, terá quem se lhe oponha. O mês de outubro foi, para além das eleições, frutífero em notícias que indicavam Francisco César ou João Ponte como putativos contendores numa disputa à liderança. O último não foi candidato a deputado, estando a autarquia que dirigiu antes de ser governante bem entregue. O primeiro, foi o diretor de campanha socialista no ato eleitoral que colocou na oposição Vasco Cordeiro, tendo este assumido a liderança parlamentar que coube àquele na legislatura anterior.
Na discussão interna partidária, os sociais-democratas parecem estar mais adiantados. O debate que oporá dois secretários naquela que também é conhecida como a Terra dos Bravos é, não só salutar, como prova da vitalidade da estrutura, da organização e dos seus militantes. Foi assim que Albuquerque manteve o poder na outra região autónoma, quando abrindo a disputa com Jardim, a levou de vencida contra um seu secretário regional. Sem debate interno, sem agregação de forças, sem disputa de pontos de vista, dificilmente Albuquerque conseguiria manter-se no poder, desta feita com o apoio dos centristas. A este respeito, refere Robert Michels que «um dos traços característicos da democracia consiste no facto de cada um dos seus súbditos ter em cada momento um direito inalienável a pretender ocupar qualquer posto que esteja disponível». O natural tratamento feito às feridas abertas nos socialistas pela derrota inesperada parece demorar a surtir efeito. E acrescentar sal não ajudará à cicatrização.
Fernando Marta