Na Ribeira Grande

Organizações Diogo exportam 800 peles de vaca por mês e tiveram as maiores quebras em Janeiro

Peço que comece por contar um pouco da história desta empresa…
Esta empresa foi fundada pelos meus pais, que começaram neste ramo há mais de 50 anos. Iniciaram com um talho pequeno, que ainda mantemos, na Matriz. Entretanto, o meu pai, que já faleceu, foi também adquirindo lavoura que era a paixão dele. Há 28 anos fundamos esta empresa, as Organizações Diogo, onde ele fez uma sociedade com os filhos. Estão cá 5 filhos a trabalhar. Actualmente temos 2 estabelecimentos: o Talho Central e o Talho da Matriz.

Quando começou a vir para o talho?
Já estou neste ramo há 32 anos. Lembro-me de andar aqui em pequena. Antigamente isto era um talho e agora temos a parte de baixo que é a indústria. Fornecemos as grandes superfícies, as Casa Cheia, as mercearias, escolas e restaurantes. Fomos sempre evoluindo mas agora estamos estagnados com esta pandemia.

Actualmente, quantas pessoas trabalham na empresa?
Temos 40 trabalhadores.

E quais são as vossas áreas de negócio?
O comércio, a indústria de carnes e temos, fora das Organizações Diogo, a lavoura. Temos uma lavoura grande que fornece a nossa indústria mas claro que, com aquilo que consumimos, temos de ir comprar matéria-prima, as carcaças no mercado em São Miguel. Não conseguimos abater entre 40 a 50 cabeças por semana. Se fizesse isso na minha lavoura em dois ou três meses ficava sem nada.

A sua lavoura representa que percentagem da carne vendida?
Para aquilo que vendo, 3 ou 4% por mês.

Quais são os vossos clientes?
São vários. Fornecemos as grandes superfícies (hipermercados) e tudo o que são Casas Cheia, mercearias, supermercados, hotéis, restaurantes, lares, creches ou lares.
 
Falando da pandemia, como tem corrido o negócio neste período?
Na primeira fase da pandemia, em Março, notei que a nível de mercearia, aumentei o fornecimento de congelados, que são o nosso forte, (hambúrgueres, almôndegas, carne moída), porque houve aquela grande afluência aos estabelecimentos. Claro que também me ressenti, porque forneço quase todas as escolas da ilha de São Miguel. É verdade que os miúdos não comiam na escola, mas comiam em casa e isso deu um certo equilíbrio. Chegados agora a Novembro, quando Rabo de Peixe é fechado e quando fecham o circulo da Ribeira Grande e os seus restaurantes, foi pior. Penso que as pessoas ficaram um pouco receosas e já não fazem aquelas compras malucas como em Março. Vão só aos estabelecimentos comprar o que é preciso. Noto que, por exemplo, em Março, tinha o balcão sempre cheio. Em Novembro senti uma quebra e em Janeiro, com o concelho fechado e com a obrigatoriedade de fechar às 15 horas ao Domingo, notei claramente isso. Mas também notei que não é apenas neste estabelecimento é em todos. Percebo isso pelas peles de animais que compro.

Sente que desde a cerca sanitária decretada a Rabo de Peixe o negócio baixou?
Sim. Não foi só aqui, foi geral no centro da Ribeira Grande. Mesmo as grandes superfícies, como os hipermercados, levam muito menos caixas de produtos congelados do que antes. As pessoas estão a retrair-se. Acho que estão com medo.

Consegue quantificar as quebras que sofreu?
No ano passado as quebras foram de 10%.
Relativamente aos apoios governamentais, sente que são suficientes?
Acho que os apoios são suficientes para a crise que estamos a atravessar. Estive sempre a trabalhar e mantive todo o pessoal. Penso que irei receber um apoio por ter mantido os empregados todos. Temos de pensar que existiram firmas que fecharam e que se calhar não vão voltar a abrir. Facturei menos um pouco, paciência! Mas consegui manter o pessoal todo, pagar segurança social, ordenados ou seguros. E os outros? Há quem esteja com mais necessidade e temos ter isso em conta. Trabalho com restaurantes há muitos anos que mais valia estarem fechados porque não dá para pagar as despesas. Acho que não podemos exigir de mais do nosso Governo porque, mais tarde, vamos ter de pagar todos.

Outra área de negócio que têm está relacionada com as peles. Antes de mais, como surgiu?
Já estamos neste negócio das peles há uns 40 anos. Desde que vim para aqui trabalhar que o meu pai já comprava peles. As peles têm tudo a ver com a moda ou seja, há 4 anos atrás as peles estavam com preços bons. Eu recebi por cada quilo de pele de vaca 1 euros e 60 cêntimos e no presente estou a receber 30 cêntimos. Como houve grandes subidas há uns anos atrás é claro que as pessoas começaram a procurar outras matérias sintéticas para fazer com que o calçado seja mais em conta, por isso, o preço da pele da vaca baixou mais de 100%. Para ter uma ideia, um contentor de peles de vaca, vitelões e novilhos, valia mais de 40 mil euros, agora mando um contentor de 17 mil euros. Há uma grande diferença. Como o consumo também aumentou, existem muito mais peles e isso levou a um abaixamento no preço de compra das peles. Já cheguei a pagar couros de vaca a 1 euro/1,20 euros e agora estou a pagar 10 cêntimos. Paga-se mais pela pele de vitelo e de novilho, principalmente por peles que tem um carcaça de 400 quilos.

De quanto em quanto tempo exporta as peles? Que quantidades?
Envio as peles para Torres Novas, Alcanena. É a zona dos couros. Enviamos mais ou menos um contentor por mês, sendo que cada contentor vai com cerca de 800 peles. Já houve aqui uma fábrica mas abriu falência.

Na sua opinião, há potencial para abrir aqui uma fábrica?
Não. Nós somos tão pequenos.

Faço esta pergunta, tendo em conta a quantidade de vacas que temos nos Açores…
Mas já comparou com a quantidade de peles que existem lá fora? Os matadouros que existem? Temos cá um matadouro. Não é um negócio que tenha muito potencial.

O que está pensado para o futuro das Organizações Diogo?
Eu não posso expandir muito. Já estou a produzir a mais para o espaço que tenho. O que gostaríamos, ao nível de alterações de talhos, e o ano passado estive para ir lá fora comprar máquinas e expositores novos para fazer uma remodelação que precisamos. O meu pai, apesar de ser uma pessoa sem estudos, via as coisas ao longe. Sempre investimos muito nos talhos e na lavoura. Queríamos fazer uma indústria e vamos ver como as coisas irão ficar. Tenho um pouco de receio, porque hoje em dia há menos gente a comer carne, principalmente a faixa etária mais jovem, que cada vez consome menos carne. Obviamente que queremos evoluir, mas vamos esperar que passe esta pandemia.              
                                                     

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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