28 de fevereiro de 2021

Opinião - Ponto crítico

É melhor prevenir do que remediar…


Especialmente nestes dias em que ainda nos persegue, como se cumprisse um objetivo predeterminado, um vírus assassino que não sabemos como nasceu, que não o vemos nem pressentimos quem o hospeda e nos transmite a doença letal. Só reconhecemos que somos a vítima escolhida quando o invisível e silencioso agente mortífero que ataca a humanidade em vagas sucessivas e em espécies variadas já corrompe o nosso corpo, paralisa a economia e nos perturba o espírito em sobressaltos de medo aterrador.
Há cerca dum ano que o Mundo combate esta nova ameaça mais destruidora do que três guerras – as duas mundiais e a do Vietname –como acaba de proclamar o presidente dos Estados Unidos numa homenagem às mais de 500.000 vítimas mortais americanas do novo corona vírus.
É também a mais anti social de todas as pandemias conhecidas. Na Europa, o primeiro surto surgiu em Codogno, na Itália e determinou que poucos dias depois tivesse sido decretado o primeiro confinamento rigoroso. Antes da vacina, o método de combate mais eficaz mas também o mais contestado compreende o afastamento físico e o confinamento. Domingo passado, inaugurando um memorial, aquela pequena comunidade italiana homenageou as vítimas, as famílias, os profissionais e a própria comunidade que demostrara possuir uma capacidade de resistência exemplar. Homenagear as vítimas é igualmente aumentar a consciência coletiva do perigo.
Em Portugal, a vacina já esta a ser aplicada, porém a um ritmo próprio dum país periférico, possuidor duma pequena economia, de escassos recursos e da esperteza saloia de contornar a lei e as prioridades. Este todo: testar, rastrear, confinar, vacinar, planear com rigor e transparência a retoma da atividade económica pública e privada, social, escolar, sanitária e a alocação do fundo de apoio comunitário deve constituir o efetivo programa de governo.
A transição de ano não correu bem. Tanto o governo como a população, descurando, baixaram as defesas e pularam a cerca sanitária crendo que o pior havia passado.
No contexto das facilidades concebidas e concedidas durante o mês de dezembro para os festejos do Natal e Ano Novo a propagação da pandemia em Portugal ganhou uma expressão assustadora e logo chegámos ao pior da Europa; evidenciou a insuficiência do sistema nacional de saúde em recursos físicos e humanos cujo testemunho mais evidente foi dado pela enorme e humilhante  fila de ambulâncias no hospital de Santa Maria com doentes no seu interior padecendo horas a fio  por um simples diagnóstico. Prenunciou o esgotamento da capacidade hospitalar para receber e tratar doentes. Temeu-se o caos.
Portugal, então, em estado de necessidade pediu ajuda aos seus parceiros europeus e, não sem uma nota de ridículo, foram enviados de avião  para os hospitais da Região Autónoma da Madeira meia dúzia de pacientes continentais como se esta medida significasse um contributo substantivo para a resolução dum gravíssimo problema ou o início de uma cooperação nacional relevante para o tratamento de tamanha enfermidade que medrava descontroladamente.
Hoje mesmo, em face da melhoria da estatística dos novos infetados, da queda dos decessos, do alívio dos hospitais pressinto um novo mito à portuguesa: o planeamento do desconfinamento que o Presidente da República eufemiza no projeto de decreto presidencial sobre a prorrogação do estado de emergência.
Sim, senhor Presidente, a necessária confiança entre a sociedade civil e o governo não se reforça facilitando e ignorando a experiência recente no risco de a repetir, mas assumindo e garantindo que ,apesar de indesejável, a continuação das medidas é condição sine qua non da recuperação. Não fora o regabofe, os abusos de dezembro e poderíamos estar hoje a aprovar o verdadeiro e integrado plano da retoma da normalidade alterada.
Taiwan entre “12 de abril e 22 de dezembro do ano findo não registou qualquer caso; as suas estatísticas são únicas no Mundo: 24 milhões de habitantes, 843 casos e 7 óbitos”. O imediato e exauriente uso generalizado das máscaras, tal como Macau, o uso da tecnologia – vigilância eletrónica –o rastreamento dos contatos que não lesa a democracia, as medidas de quarentena, o uso útil da internet,  baseados na experiência das epidemias de 2003 (SARS-COV-1) e 2015 (MERS-COV) compõem a chave do sucesso. E termino como comecei: melhor é a prevenção do que a cura.


Álvaro Dâmaso

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Categorias: Opinião

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