Entrevista com o professor, escritor e poeta Eduíno Jesus

“Ao sair das ilhas não as deixei para trás...”

 Correio dos Açores - Nascido nos Arrifes, em terras agrícolas, descreva os seus tempos de escola. Como ia? Como era a sua mala e a sua roupa? Ainda do tempo da ardósia? Que brincadeiras tinha com os colegas? Como era enquanto aluno nos primeiros anos? Como foi a sua evolução como criança?
Eduíno Jesus (professor, escritor, poeta) - Nasci, de facto, “em terras agrícolas dos Arrifes”, como diz, mas, por volta dos meus dois anos de idade, a minha família mudou-se para Ponta Delgada e levou-me consigo. E foi já aqui que aprendi as primeiras letras.
Ia para a escola a pé, claro, e sozinho: primeiro, como era da praxe daquele tempo,  de bibe azul-e-branco aos quadradinhos e depois de bata branca (a partir da 3ª classe, acho eu), com a mala de cartão a tira-colo, carregada de livros, cadernos, uma pedra, que o professor chamava “ardósia”, lápis e apara-lápis, borracha, caneta de aparo, sei lá!, e raras vezes a bola de trapos para o recreio.
A minha escola era no Campo de S. Francisco  e eu morava na Rua da Vila Nova de Baixo, quase ao canto em cima. O caminho para a escola começava ao dobrar da esquina à direita quem sobe, depois ia-se pela Rua Formosa  fora  até ao Coliseu, descia-se a Avenida Roberto Ivens e chegava-se ao Campo de S. Francisco, de onde a escola, que era ali, tirava o nome. Tinha em frente, do outro lado da rua, aquele metrosídero enorme que ainda lá está, à volta do qual jogávamos à bola, ou às apanhadas, ou ao 31, etc.,  e, nos dias de chuva, nos abrigávamos sob a ramagem que descia quase até ao chão.

Feito o percurso de escola primária, foi para o secundário onde?
Fiz o secundário no Liceu Antero de Quental. Tinha, já na altura, consciência da minha vocação literária, o que me aproximou de outros rapazes com a mesma vocação, entre os quais o Fernando de Lima, o Fernando Aires e o Jacinto Soares de Albergaria, que viriam a distinguir-se entre os mais distintos escritores da geração literária do meado do século XX.  Formámos então uma tertúlia literária que acabou por chamar a atenção de alguns professores e acabámos por ficar amigos e companheiros literários e de ideias por toda a vida.
 Não fui o que se chama um aluno de sucesso, se de sucesso quer dizer mais do que suficiente. Numa ou outra disciplina talvez me tenha distinguido um pouco, sim, mas nada mais do que isso. Costumava estar atento nas aulas, brincava como os outros rapazes nos tempos de recreio no pátio dos rapazes e, à medida que ia avançando  nos estudos e na idade, conversando pelos cantos com os da mesma idade e  interesses que eu, particularmente com os tertulianos a que me referi há pouco.  
Quanto aos fins-de-semana e as férias, ocupava-os consoante os interesses da idade e principalmente os da cultura, que iam crescendo e  se diversificando.
 
Fez o Curso do Magistério Primário em Ponta Delgada e foi professor. Tem a noção de como ser bom e mau aluno e ser bom e mau professor ou nem por isso? Como vê esta dicotomia?
Quanto a uma e outra pergunta eu responderia que “nem por isso”. Os objectos de uma e outra questão são interconsequentes. Tanto um bom como um mau professor pode parecer sê-lo em consequência do que for uma coisa ou outra o respectivo aluno. Mas nem isso são hipóteses  indiscutíveis. Em todo o caso, há casos de bons e maus professores, como de bons e maus alunos que se reconhecem à vista desarmada.

Quando é que se apercebeu de que tinha a escrita no sangue? Lembra-se do seu primeiro texto? Que mais o marcou nos primeiros tempos de escrita?
Eu adorava ouvir minha mãe recitar-nos (a mim e aos meus irmãos, em crianças) romances populares ou contar-nos casos (contos) que ela mesma improvisava, muitos deles estórias de animais cujas figuras, às vezes, nós escolhíamos. Então eu, um dia, já aluno da 4ª classe, resolvi escrever um romance de aventuras. Ainda conservo o original autógrafo. Era uma coisa de uma dúzia de páginas. Não sabia ainda que me ia depois dedicar à escrita. O que mais me marcou nessa altura talvez fosse os romances populares.

Faz um percurso universitário relevante. Como foi a sua integração inicial e como foi evoluindo? O seu primeiro livro poderia ter-se chamado ‘E os Açores ficaram para trás’? A ilha é poesia, mas muita da sua poesia foi escrita fora da ilha…
Quando fui para Coimbra, aos 22 anos, já tinha um percurso literário de meia dúzia de anos nos jornais de Ponta Delgada e tinha estabelecido algumas relações com escritores e poetas portugueses, um ou outro já com nome feito, e mesmo consagrado na História, como o poeta Afonso Duarte, um dos fundadores do grupo saudosista da Renascença Portuguesa. Mas, ao sair das ilhas não as deixei para trás, pois continuei a colaborar nos jornais de Ponta Delgada, mais assiduamente n’ A Ilha,  de  José Barbosa, e na página de “Artes e Letras” do ‘Correio dos Açores, organizada alternadamente pelo Dr. Ruy Galvão de Carvalho e Diogo Ivens. Certo é que, a pouco e pouco, me fui integrando no meio literário de Coimbra e depois também no de Lisboa e do Porto, onde comecei a colaborar intensamente em algumas páginas de “Artes e Letras” dos seus mais importantes jornais, como, no Porto, o Primeiro de Janeiro, na página de Jaime Brasil, e o Comércio o Porto, na página de Costa Barreto, e, em Lisboa, no Diário de Notícias, na página de Natércia Freire.

O livro de poesia que escreveu em 1952 foi ‘Caminho para o Desconhecido’. Qual o simbolismo deste livro?
De certa maneira, queria ter podido escrever em poesia um livro sobre a Poesia como uma aventura no Desconhecido. E isso é o que ainda faço hoje.

Quais foram e que receptividade tiveram os seus primeiros livros junto do público?
Eu tomei-as como animadoras. Foi uma ilusão que ainda mantenho.

Em 1958 edita em Ponta Delgada a comédia ‘5 minutos e o Destino’. Do que fala do destino em 5 minutos?
O tema dessa comédia é a origem do Amor, quer dizer: o Nada que dá origem ao Amor entre um Homem e uma Mulher. O Nada é representado por duas vozes off, uma feminina, outra masculina, actuantes sem qualquer critério sobre personagens que vão aparecendo casualmente em cena, num jardim público. O resultado é sempre incongruente. O Destino é isso, a causa nenhuma que determina as relações amorosas.

Victor Rui Dores escreve sobre si em 2005: “Eduíno de Jesus tem um imenso coração de poeta. Homem da cultura e da finura, minucioso e reflexivo, bem formado e informado, intelectual gentil, generoso e fraterno, autor do pensamento vigilante e da ironia inteligente, ele é poeta perfeccionista, selectivo e esquivo e ensaísta igualmente exigente e de primeiríssima água – dos que se escusam a modas e traficâncias e escrevem sem pressas e sem ânsias editoriais. Deste micaelense, cidadão do mundo, acaba de ser publicado o livro “Os Silos do Silêncio” – reedição selecta e refundida de três colectâneas poéticas editadas há (já) meio século: “Caminho para o Desconhecido” (1952), “O Rei Lua” (1955) e “A Cidade Destruída durante o Eclipse” (1957), a que foi adicionado um amplo conjunto de Inéditos e Dispersos («Poética Fragmentária»), em que se reúnem poemas escritos entre 1948 e 2004 e que foram sendo sucessivamente trabalhados e corrigidos ao longo dos anos”. Revê-se neste texto?
O Victor Rui Dores é um bom amigo, claro.

O seu nome está ligado, indelevelmente, tal como o de Onésimo Teotónio Almeida, à questão da existência ou não de uma literatura açoriana. Que contornos tem a literatura açoriana que tanto defende?
Eu fui atraído para essa questão sendo ainda muito novo e ignorante de o que pode ser a Literatura de um povo definido como nação, ou região, ou tribo ou o que for um determinado Povo. Depois estudei, procurei teorias sobre a matéria, tirei sucessivamente conclusões, elaborei sucessivamente teorias e acabei fixando-me numa — a minha (?) — teoria. Que, obviamente, não vou expor.

Chega a dirigir a Revista de Cultura Açoriana em tempos áureos da cultura arquipelágica. Quem colaborava, que temas abordavam. Que impacto tinha a revista então no mundo cultural açoriano?
Não sei que impacto essa revista teve na cultura açoriana, mas acho que nenhum. Publicaram-se apenas três números. Um quarto volume esteve pronto a entrar no prelo, em que se reuniam grande parte das comunicações apresentadas num Congresso Internacional sobre o Espírito Santo que organizei nesse ano em Lisboa, pela Casa dos Açores. Tinha colaboração de vários filósofos portugueses desse tempo, especialistas no tema, como Agostinho da Silva, por exemplo, e dois padres estrangeiros, um natural do Iraque e outro um ortodoxo da Rússia. Esse número da revista ficou por publicar por falta do subsídio com que contávamos.

Quais são os seus grandes amigos escritores?
Tive grandes amigos, tanto escritores e poetas, como artistas plásticos. Citarei apenas dois ou três: em Coimbra, o poeta Afonso Duarte e, em Lisboa, o romancista e ensaísta Vergílio Ferreira, o poeta e homem de teatro (sobretudo encenador) António Manuel Couto Viana, e o pintor Artur Bual.

De cima dos seus 90 anos, que livro está a escrever ou gostaria de escrever?
Tenho, neste momento, um livro a sair do prelo, na colecção “Nona Poesia”. Mais ou menos pronto a publicar, mas carecendo ainda de uma cuidadosa revisão, talvez um livro de ensaios, sobre A Arte da Poesia e Alguns Poetas.

Dá para enriquecer como escritor? E o Eduíno de Jesus viveu da escrita?  
A alguns escritores dá, certamente. Mas a mim?…
Não, nunca vivi da escrita, embora durante muito tempo tenha ganhado dinheiro colaborando largamente em jornais e revistas literárias e produzindo e organizando, durante cinco anos, dois programas literários quinzenais na televisão, um a seguir ao outro, sem interrupção.
                                           

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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