Já lá vai o carnaval e entramos no período quaresmal, oportunidade de recolhimento e época intensamente vivida com as romarias quaresmais e as inúmeras celebrações penitenciais, que têm uma expressão relevante nas nossas ilhas, desde os tempos em que os Franciscanos vieram até a estes Açores dar assistência religiosa aos povos que para aqui vieram habitar.
Num período normal, sem pandemia, era tempo dos vários ranchos de romeiros iniciarem a sua caminhada no primeiro sábado da quaresma. O ano passado, os primeiros ranchos saíram à rua, mas logo recolheram, sem que nós mais se pudéssemos ouvir os “Avé-Maria” pelas estradas da nossa ilha ou o procurador das almas invocar as suas preces melodiosas. Este ano, os romeiros farão a sua caminhada ao encontro do Senhor e dos seus caminhos de forma espiritual.
Por outro lado, no primeiro domingo, era a vez da veneranda imagem do Senhor Santo Cristo dos Terceiros sair pelas ruas da Ribeira Grande, numa imponente procissão, muito concorrida e acompanhada por uma moldura humana impressionante que acorria à cidade nortenha. Foi a única procissão que se fez na nossa ilha no ano de 2020, Desta vez, apenas uma solene eucaristia assinalou o evento penitencial.
Nesta quaresma, as circunstâncias privam-nos das habituais celebrações presenciais, mas temos a possibilidade de o fazermos privadamente e obedecendo às imposições das cercas sanitárias que tornam maior a nossa ilha e nos impede de ir ali tão perto, porque temos de estar confinados às nossas casas.
Este é um período muito especial para os cristãos de todo o mundo, apesar de cada um ter um modo diferente para exercer a sua espiritualidade, contudo, todos concordam que o mais importante é fazer com que este tempo tenha realmente algum sentido na vida. No entanto, ainda há regiões no Planeta em que é muito difícil um cristão professar a sua fé.
Nesta quaresma há a possibilidade de seguir pela televisão e pela internet as celebrações previstas em templos completamente vazios e sem povo. Mas tudo pode e deve ser reforçado com a comunhão em família, lembrando também os que a nada têm e rezando pelos que estão na primeira linha do combate à pandemia.
Este é tempo de aprofundarmos a memória da paixão de Cristo e tomarmos consciência do valor do sofrimento e da cruz no processo de conquista da vida, para culminar na explosão de alegria no sábado da Páscoa, em que se cantam aleluias e se ouvem os sinos repicar ao som do estalejar dos foguetes, bem ao jeito do povo crente destas ilhas.
Ficará para a história, que nestes anos de pandemia, a Igreja celebra a eucaristia em casa, nem sequer com a família alargada, mas em pequeníssimos núcleos familiares confinados às quatro paredes das suas moradias. Talvez seja a primeira vez em toda a história do cristianismo em que os padres e os bispos, a começar pelo Papa, celebram a Missa em solidão e pedem a todos os outros que fiquem em casa.
Talvez este seja um sinal dos tempos, em que somos chamados a refletir com amargura que podemos perder de um dia para o outro o que sempre achámos que era dado por adquirido e possamos sentir o verdadeiro valor daquilo que tantas vezes temos em abundância e não aproveitamos.
Por isso, é importante que este período quaresmal seja marcado por um tempo de partilha, em que podemos participar em campanhas de fraternidade, praticando assim a caridade. Na nossa Diocese de Angra, este ano, a coleta da renúncia quaresmal dos fiéis destina-se a ajudar os infetados pelo Covid 19, cujo produto constituirá a forma exterior e visível de se materializar uma verdadeira caridade.
O Bispo de Angra interpela os cristãos açorianos para que ao longo de um itinerário de quarenta dias, à imagem da presença de Jesus de Nazaré no deserto e dos quarenta anos de permanência do Povo Hebreu no deserto, através da ascese, da oração, da renúncia e da partilha, possamos ser convidados a aproximarmo-nos mais de Deus e dos irmãos sobretudo dos que mais sofrem.
Saibamos entrar neste tempo quaresmal interpelados pela Palavra de Deus que nos ajudará a caminhar na libertação pessoal para nos abrirmos à vida de Deus que se quer manifestar em nós.
António Pedro Costa