Confesso que não sei por que anda por aí tanta celeuma por causa do não cumprimento, por parte da República, à palavra dada ao governo de Vasco Cordeiro no que respeita à quota-parte açoriana na tal “bazuca” financeira que a Europa irá mandar.
Desde sempre me habituei a ver os Açores serem tratados pela Mãe-Pátria como filhos de um deus menor, ou seja, tratados como portugueses de segunda, à semelhança do que acontecia no tempo da Estado Novo com as colónias de África.
Não seria agora que a política do governo central em relação a nós iria mudar. Desde logo porque se trata de dinheiro; depois porque há sempre uns mal-entendidos.
Mas, uma coisa que não entendo é aquela “tirada” de Vasco Cordeiro de falar em actualizações de 11% sobre os preços de 2018. Onde raio foi ele “desencantar” aquela percentagem se, somando os índices de inflação, que por aquilo que tenho lido e ouvido julgo deverem rondar os 2 ou 3 por cento ao ano, a totalidade de actualização de valores não chegam, nem de perto nem de longe, aos 11 por cento invocados?!
Por outro lado, e se a minha calculadora não errar, dos 13,9 biliões de euros destinados a Portugal, 5% desse valor, dá 695 milhões que deveriam ser transferidos para a Região Autónoma dos Açores. Não são 649 milhões como afirma a República, ou então, as premissas estão erradas.
No meio desta “guerra de números” aparece um novo valor de 580 milhões que, agora, o governo de Lisboa diz ser o montante a transferir para os Açores.
Esta posição do governo central faz-me lembrar aquelas cenas antigas dos vendilhões de chicharro pelas portas desta cidade que, quando lhe perguntavam o preço, ele dizia:- 2 escudos e meio a dúzia; aí a compradora, já de prato na mão (normalmente eram senhoras a fazer estes negócios) dizia: eh senhor isso é muito dinheiro, o senhor não dá por 1 escudo a dúzia? Ele respondia: -eh senhora isto não foi roubado! Ao que ela insistia, e por escudo e meio? Olhe que quero 3 dúzias! Por fim o vendilhão dizia:- eh senhora eu não vou ganhar nada, mas dê cá o prato.
Este insólito caso, é mais uma demonstração do modo como Portugal nos trata, ou seja, não somos iguais quando se trata de repartir; por outro lado já somos iguais quando se trata de contribuir.
O cartaz usado no 6 de Junho de 1975 que dizia, SOMOS UM POVO QUE QUER SER RESPEITADO, volta a ser actual porque, a redução para 580 milhões de euros de contribuição europeia para o nosso Plano de Recuperação e Resiliência não corresponde a nada do acordado entre os governos.
Por aquilo que tenho observado nos O.C.S. este imbróglio está longe de ficar resolvido. Apesar das posições já tomadas, não estou vendo, tanto da parte do governo da Região como da parte da Assembleia Regional, a força suficiente para ultrapassar esta situação de desvantagem, até porque o próprio ministro do planeamento se dá ao luxo de, na Assembleia da República, mentir ao deputado dos Açores quando questionado nesta matéria.
Para concluir, devo dizer que os açorianos (salvo raras excepções) parece gostarem de ser maltratados por Lisboa. Se assim não fosse, já longe iria a submissão a este jugo. A comprová-lo, e para citar um outro exemplo recente, posso referir que as verbas destinadas às obras de recuperação aos estragos provocados pelo furacão Lorenzo também ainda estão por receber.
Aquando da tempestade, os ministros centrais apressaram-se a vir constatar os estragos e prometeram “mundos e fundos” na altura.
Porém, tudo não passou de conversa fiada. É o costume. Bate-me… que eu gosto!
Evidentemente que eu não me incluo nesse grupo. Sou daqueles que dizem:- quem quer ter ilhas que as pague!
Por mais que Portugal recompense os Açores, nunca chegará à valorização que damos ao todo nacional.
Sem os Açores e Madeira, Portugal voltaria a ser uma província de Espanha.
Por aqui me fico.
P.S. Texto escrito pela antiga grafia.
28 de Fevereiro de 2021
Carlos Rezendes Cabral