Tal como a personagem de Molière, que fazia prosa sem o saber, também nós todos, Açorianos, estamos vivendo em pleno a nossa Autonomia Constitucional, com a maior naturalidade deste Mundo e quase sem disso nos apercebermos.
Mérito do Governo da nossa Região Autónoma, que, sem alardes nem dramatismos de qualquer espécie, tem vindo a definir tranquilamente as regras de comportamento referentes ao combate à pandemia e as medidas apropriadas para lhe fazermos frente colectivamente, unidos fortemente no comum objectivo de lhe pormos termo.
E o certo é que o esquema tem resultado! Decide-se o que é preciso fazer nos Açores, tendo em conta o evoluir da situação sanitária, no uso das competências de governo próprio regional, sem grandes interrogações sobre o que se passa no território continental da República e que é presumivelmente o que por lá se impõe. Tampouco se tem estado a pedir que decidam diferentemente para nós ou, o que ainda seria pior, que nos dêem licença para tomarmos as nossas próprias decisões, que certamente recusariam em nome da sacrossanta “continuidade territorial” e/ou do venerando “Estado Unitário”...
Assim, parece que nos estamos aproximando de normalizar a vida do dia a dia nas nossas Ilhas. O uso de máscaras continua recomendado, mas espero que em breve seja possível acabar com esse disparatado cumprimento das cotoveladas. As escolas estão abertas e há aulas presenciais, inclusivamente na nossa Universidade.
Pode-se continuar a frequentar as livrarias, que estão patentes ao público, e comprar livros à vontade. Tem havido adeptos em espectáculos desportivos, o rally de São Miguel vai mesmo para a estrada na altura prevista e está anunciada a retoma dos concertos musicais ao vivo, o primeiro dos quais deveria ter como estrelas artistas locais, mas pelo que consta não vai ter, o que julgo lamentável.
Este ano os romeiros não saíram para a sua volta penitencial à Ilha de São Miguel, conforme tradição multi-secular, e todos estamos sentindo a falta deles. Tampouco estão programadas as procissões da Quaresma e já corre que vamos ter de passar outra vez sem as Festas do Senhor Santo Cristo. Mas, contrariando a infeliz declaração de um alto responsável nacional, que talvez não soubesse bem o que estava dizendo, nos Açores vai haver Páscoa, celebrada com as cautelas que se têm vindo a respeitar nas igrejas, com geral aprazimento.
O nosso desconfinamento vai chegando às actividades económicas e começa a ver-se alguns turistas pelas ruas da cidade, tirando fotografias ou descansando nos bancos dos jardins, por sinal bem atraentes, com as primeiras flores, nomeadamente amores-perfeitos em revoada, a anunciar a já próxima Primavera. No passado fim de semana vi na bacia da Doca alguns barcos de turismo, dos que se dedicam à visitação às baleias, preparando-se para acostar de regresso do seu percurso, a benefício do tempo e da temperatura do ar, verdadeiramente primaveris.
Se a situação sanitária continuar a evoluir favoravelmente, fruto das medidas duras aplicadas quando se revelaram precisas, talvez na Páscoa já o Turismo atinja valores interessantes, o que seria muito bom para as empresas, para os trabalhadores e para a nossa economia em geral. Fundamental é que não se afrouxem as medidas de segurança e controle dos visitantes, naturalmente acolhidos de braços abertos, desde que não nos venham infectar com o detestável vírus.
É pena que o processo de vacinação esteja a correr tão lentamente, mas nisso todo o nosso País está sofrendo com o modo como as autoridades da União Europeia decidiram abordar o assunto. Em todo o caso, não parece aceitável andarmos a receber as vacinas por conta gotas, quando faria todo o sentido que se procedesse com prioridade a uma imunização de grupo em todo o Arquipélago, tal com se decidiu fazer, e bem, na ilha do Corvo.
Também não é aceitável que o Governo da República ande a brincar ao faz de conta com as verbas destinadas ás Regiões Autónomas, seja no tocante à repartição dos financiamentos europeus para a recuperação dos terríveis efeitos económicos da pandemia, seja no prometido apoio à reparação dos estragos dos temporais. Prometer uma coisa e fazer outra fica muito feio em termos gerais e no caso concreto deve implicar responsabilidade política. Os membros do Governo da República envolvidos na tentativa de logro aos Governos Regionais merecem ser vivamente censurados. E da parte dos responsáveis insulares tem de haver um protesto firme e eficaz, envolvendo Maioria e Oposição, porque estão em causa princípios indeclináveis de respeito pela nossa Autonomia Constitucional.
(Por convicção pessoal,
o Autor não respeita o assim
chamado Acordo Ortográfico.)
João Bosco Mota Amaral