Cristina Fraga, Presidente do Conselho de Administração do HDES

“É necessário trazer o Hospital do Divino Espírito Santo para o século XXI”

Correio dos Açores - Micaelense, filha de uma família de Rabo de Peixe, Cristina Fraga, o que a levou a deixar o conforto de ser apenas médica para assumir a função de Presidente do Conselho de Administração do Hospital do Divino Espírito Santo?
Cristina Fraga (Presidente do Conselho de Administração do Hospital do Divino Espírito Santo(HDES)) - Em boa parte, a culpa é dos meus genes... de minha mãe, Fraga. Herdei o enorme gosto em abraçar desafios, e este amor centenário, que atravessou gerações, à nossa Região. Depois, junta-se a isto a escolha, precoce, de querer estudar Medicina, uma vontade imensa de salvar vidas. Seria possível dizer “não” a esta missão, a este gigante desafio de ter a possibilidade de, com o mesmo empenho e dedicação que tenho demonstrado na vida profissional, levar mais saúde a mais pessoas? Foi com alguma surpresa, mas com honra e orgulho que aceitei assumir esta função. É um privilégio servir a causa pública, um Serviço Regional de Saúde (SRS) pelo qual tenho lutado, e ao qual me tenho dedicado ao longo de mais de 20 anos de carreira.  
Na verdade, não considero que tenha saído da minha zona de conforto, até porque lidar com a responsabilidade da vida humana, só por si, não é propriamente confortável. Um erro em Medicina pode ter como desfecho a perda da vida humana.   
 
Foi difícil convencê-la? Impôs condições?
Se me está a perguntar, se foi difícil optar entre ter a possibilidade de melhorar a prestação de cuidados a 1.000 utentes ou poder melhorar a prestação de cuidados a 140.000 utentes, terei de responder, sem qualquer hesitação, que foi das decisões mais fáceis de tomar.  
Quando temos a possibilidade de ter uma equipa com os mesmos objectivos, que «veste a camisola» da instituição há mais de 20 anos, espírito coeso e elevadas capacidades técnicas, no fundo uma equipa capaz de reerguer o HDES, melhorar a acessibilidade aos doentes, elevar a qualidade da actividade assistencial e trazer inovação ao HDES, então, com estas condições presentes, não é necessário impor o que quer que seja.   

Como vê esta nova fase da saúde nos Açores?
O sector da Saúde está em crescimento; existem novos parceiros, que trazem com eles os seus pontos fortes, e os seus pontos fracos. Este é um tempo de maior rigor, disciplina e planeamento, por parte do Hospital do Divino Espírito Santo, mas também é um tempo que permite a oportunidade de novas parcerias.
A actual situação pandémica trouxe a evidência de que uma Região Autónoma Ultraperiférica da Europa, quando opta por medidas tecnicamente correctas, em saúde, pode apresentar resultados muito melhores do que muitos países europeus. Até mesmo, do que a República. Ora, isto é, tem de ser, motivo de orgulho para nós, açorianos.  
 E é este o caminho que queremos fazer: um caminho açoriano, em que aquilo que fazemos, fazemos melhor. Um caminho com resultados, indicadores clínicos, que sejam motivo de regozijo. Não podemos estar na cauda dos indicadores de Saúde, significado de que a “saúde está doente”, quando facilmente se demonstra que sabemos fazer bem, quando os técnicos sugerem o caminho e os decisores (que é quem está legitimado para escolher o caminho) o tomam.   
 
E como vê este combate à Covid-19? Que análise faz ao trabalho desenvolvido, ao que se está a desenvolver e que perspectiva tem para o futuro? Receia novas vagas?  
Fazer diferente do resto do país acarreta riscos. Muitos. Em Portugal, infelizmente, a inovação, historicamente, é mal vista. Todos conhecemos a história do Velho do Restelo. Ela diz tudo, sobre a forma como em Portugal a inovação é encarada.  
No que ao Hospital do Divino Espírito Santo diz respeito, quando tomamos posse encaramos como prioridade ter uma estrutura que nos ajudasse a fazer uma análise epidemiológica do que acontece na nossa área de actuação, para percebermos o que vai acontecendo, projectarmos tendências, e anteciparmos soluções. Temos a sorte de ter a colaborar connosco peritos na matéria. Essa estrutura tem tido uma actividade imensa, na avaliação de riscos, tendo sido o nosso suporte técnico na análise de situações críticas, que amiúde acontecem num Hospital como o nosso.  
Faz no dia 4 de Março um mês que iniciamos funções. Essa estrutura está já a começar a trabalhar na elaboração de propostas para o retomar de tudo o que se perdeu em 2020. Que foi muito. 2020 foi um ano difícil para todos. Na Saúde muita coisa foi suspensa, foi adiada. Novas modalidades de atendimento, antes pontuais e excepcionais, surgiram como regra. Há muito a fazer, pois é uma certeza absoluta o facto de, ora em diante, termos de lidar com este novo vírus, e com todas as suas variantes, que surgiram e que surgirão. O mundo “pós” (ainda que não saibamos quando será esse pós) Covid-19 é um mundo diferente do mundo que tivemos até Janeiro de 2020.  
 
Qual a sua visão acerca da Instituição Hospital do Divino Espírito Santo (HDES),  e respectiva gestão?
 É necessário trazer o Hospital do Divino Espírito Santo para o século XXI.
O HDES quer promover uma cultura de proximidade aos utentes residentes nas outras ilhas, principalmente os doentes com mobilidade reduzida, e os idosos, incentivando os especialistas a deslocarem-se às unidades de Saúde de Ilha. Mantendo a qualidade prestada nos cuidados de saúde, incrementando a melhoria do conforto para o doente e reduzindo custos desnecessários.  
Criar um serviço centralizado call center, com administrativos que dominam várias áreas de produção no hospital desde consultas, exames, cirurgias, internamento, hospital dia e urgências, para que se possam prestar esclarecimentos aos doentes, via telefónica ou e-mail, é uma das medidas que queremos ver implementada; neste momento é quase impossível passar as chamadas para as assistentes técnicas, dispersas pelo HDES, por estas estarem constantemente ocupadas no atendimento presencial aos utentes do próprio dia. Muitos dos doentes deslocam-se, de propósito, ao Hospital do Divino Espírito Santo apenas para esclarecimentos, pedidos de informação.  
Já se sabe, também, que as ferramentas informáticas, a inovação tecnológica, podem dar um enorme contributo, como sejam métodos simples e eficazes de check-in (dar presença«), à semelhança do que já acontece em diversos outros serviços públicos, evitando a chamada por altifalante. Actualmente, os doentes aguardam a sua chamada num local de muito ruído, e apresentam, muitas vezes, enorme dificuldade em ouvir o seu nome. Uma aplicação informática, com acesso via telemóvel, onde os doentes possam dar sua presença no HDES, atribuindo alertas para consultas ou exames, com indicações do gabinete médico, potencia a tecnologia disponível, em beneficio do utente, a sua privacidade evitando muitas vezes uma circulação desnecessária dos doentes dentro do hospital. Circulação esta que a actual pandemia demonstrou ser perigosa.   
 
O HDES tem algum plano estratégico para reduzir a lista de espera cirúrgica de Cirurgia de Ambulatório?
 Efectivamente, a redução da lista de espera cirúrgica de Cirurgia de Ambulatório é uma das prioridades deste Conselho de Administração. Indo de encontro às necessidades dos utentes e do desejo de muitas especialidades cirúrgicas. Em primeiro lugar, a Cirurgia de Ambulatório permite a admissão de doentes com alta no mesmo dia da cirurgia. Este aspecto evita a necessidade de internamento em enfermarias. Por outro lado, a dimensão do recobro actual para cirurgia de ambulatório não permite ter mais que quatro doentes simultaneamente neste recobro. Desta forma, pretendemos implementar um projecto de ampliação do recobro de Cirurgia de Ambulatório, que permitirá, segundo os cálculos realizados, efectuar mais 16 a 18 cirurgias de ambulatório por dia. Para já, a especialidade com maior lista de espera é a Oftalmologia, e é uma das que mais beneficiará com este projecto. Queremos potenciar, ao máximo, os programas desenvolvidos pela tutela no combate à lista de espera, incentivando os profissionais de saúde na sua adesão, dando as condições necessárias a nível de infra-estruturas e recursos humanos.
 
 Como pretende compatibilizar, a vários níveis, a gestão do Hospital do Divino Espírito Santo com o Hospital Internacional dos Açores?
Ambos têm objectivos, comuns, como seja prestar cuidados de saúde. Podemos ter  traçado caminhos diferentes, pela própria natureza das duas instituições.  
Como Presidente do Conselho de Administração é meu dever zelar pelos interesses dos contribuintes, os financiadores indirectos do Serviço Regional de Saúde, mas que são também os que usufruem do mesmo SRS. O cidadão, no serviço público, paga a prestação dos cuidados de saúde antes de usufruir deles. Paga-os com cada cêntimo dos impostos que o Estado cobra. Creio que isto nem sempre está presente na cabeça de todos. Mas, é um pressuposto fundamental para entendermos o Serviço Regional de Saúde. E para interiorizarmos que é com toda a humildade que devemos ouvir o cidadão, contribuinte, sempre que o mesmo se dirige aos responsáveis desta instituição. Com queixas, muitas vezes, com elogios, com propostas. O cidadão merece, tem o direito de ser ouvido. Não pode ser tratado com desdém e sobranceria. Nunca.   
 
Quais os desígnios para a enfermagem no HDES?
A enfermagem no Hospital do Divino Espírito Santo tem-se destacado, desde sempre, pela enorme dedicação e competência que estes profissionais têm investido na prossecução das suas atribuições, mesmo nos momentos mais difíceis. Não obstante esse percurso, o escrutínio e os desafios do presente exigem dos enfermeiros uma crescente competência técnica, científica, relacional, comunicacional e emocional, uma maior diferenciação e especialização técnica, um empenho e sacrifício sem precedentes, e uma reflexão e enquadramento deontológico permanente, razão porque são impelidos a reflectir sobre os desígnios, presentes e futuros, da profissão na instituição. O compromisso que pretendemos assegurar é o de uma enfermagem marcada pelo rigor e competência técnico-científica, bem alicerçada na formação e desenvolvimento pessoal e profissional dos seus técnicos, tendo sempre presente as suas responsabilidades profissionais, éticas e deontológicas. Pretendemos uma enfermagem melhor dotada, reconhecida e com melhores condições para o seu exercício profissional, o que permitirá chegar a mais utentes, prestar melhores cuidados de enfermagem, obter maiores ganhos em saúde, optimizar recursos, melhorar a comunicação e articulação entre as equipas multidisciplinares, e aumentar a eficiência dos serviços disponibilizados pela instituição.  
 Estes são os nossos desígnios, presentes e futuros, para a enfermagem do HDES. Este é o nosso compromisso para com os utentes desta instituição.  
 
Tem algo mais a acrescentar que considere importante no âmbito desta entrevista?
 O Hospital do Divino Espírito Santo tem de acompanhar os tempos. Repito: tem de cumprir o seu desígnio, sendo inovador.  
Tem de aproveitar o seu potencial, como local de formação de futuros enfermeiros e médicos, técnicos superiores, e assistentes operacionais e técnicos.  
Tem de transformar em conhecimento toda a imensa informação em saúde que aqui é produzida.  
Tem de participar na protecção do ambiente, criando, por exemplo, condições para implementar um procedimento interno de reciclagem... nem imagina a quantidade de plástico e papel que produzimos diariamente!  
O HDES tem de ser uma instituição de excelência de prestação de cuidados de saúde, mas também de apostar em ser uma Unidade Promotora de Saúde. Tem de aproveitar cada contacto, cada momento em que o cidadão está no HDES, para reforçar práticas que contribuam para ganhos em saúde, futuros, pela via da Promoção da Saúde.  
O Hospital do Divino Espírito Santo tem de se articular, da forma mais funcional possível, com os cuidados de saúde primários, para que tal constitua uma vantagem para ambos.   
Tudo isto é um desafio grande, gigante, para esta equipa. Estamos certos que estes 3 anos, que constituem o mandato desta equipa, serão apenas o início de um novo tempo do HDES, que se caracterizará pelo aprofundar da sua relação com o cidadão, com cada vez melhor entendimento mútuo. Por isso lutaremos.  

                                                

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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