“Assassino da Lagoa” inspirou a escrita do segundo livro de João Anselmo

No dia 17 de Outubro do ano de 1988, a vila da Lagoa, em particular o lugar da Atalhada, acordaria em sobressalto com a notícia do assassinato, a tiro, de Óscar Ferreira, um condutor de autocarros da empresa “Varela e Companhia, Lda.” com 61 anos de idade, respeitado pela comunidade em que se inseria.
O crime ocorreu na Avenida Litoral, ainda antes do sol nascer, quando o motorista se preparava para iniciar mais um dia de trabalho, vindo depois a ser descoberto por um familiar. Dos seus pertences desapareceram um total de 70 mil escudos, uma pasta e também uma lanterna eléctrica, levando a Polícia Judiciária a desconfiar de imediato que a motivação do crime estava relacionada com o dinheiro que a vítima transportava.
Nos jornais, em particular no Correio dos Açores do dia 18 de Outubro daquele ano, questionava-se a chegada do “Far West” (Velho Oeste) à pequena e pacata vila, tendo em conta o inesperado do crime e a violência com que tinha ocorrido, levando inclusive a suspeitar-se que poderia existir mais do que um envolvido nos crimes.
Menos de um mês depois, a 13 de Novembro de 1988, a pequena vila fazia de novo manchete nos jornais regionais que assumiram na altura que “São Miguel tem assassinos à solta”, reflectindo a preocupação por mais um crime que havia ocorrido, a 11 de Novembro daquele mesmo ano, e que ceifara a vida a Mariano Costa, surpreendido no seu local de trabalho.
No jornal Correio dos Açores poder-se-ia, naquele Domingo, ler-se: “A menos de um mês dois assassinatos ocorreram na vila da Lagoa, o último dos quais teve lugar Sexta-feira, na freguesia do Rosário. Segundo testemunhas oculares, passavam 20 minutos das dezanove horas quando um indivíduo de meia preta na cara, onde se viam os olhos, entrou no talho de Mariano Costa. O talhante encontrava-se na companhia da esposa e de um neto de doze anos de idade”.
Conforme se apurou na altura, o homem armado terá feito questão de confirmar que a sua presença se tratava de um assalto, mas “perante a resistência do proprietário” do talho, Mariano Costa acabara por ser agredido e alvejado “com um tiro de caçadeira na zona do pescoço”, tirando-lhe a vida antes de este completar 61 anos de idade.
Para além de tirar a vida a um segundo homem – embora na altura a Polícia Judiciária não tivesse provas que permitissem relacionar os dois homicídios de imediato – o assassino terá também roubado 60 mil escudos ao talhante, colocando-se em seguida em fuga. Na comunicação social, apelava-se para que as pessoas partilhassem o máximo de informações relevantes com a polícia, mas a verdade é que, na vila, as repercussões destes crimes vinham a aumentar, tendo em conta que se desenvolveram “inúmeros boatos” que complicavam também as investigações policiais, falando-se inclusive da existência de uma lista com nomes de empresários locais que poderiam ser as próximas vítimas deste assassino.

“Clima de tensão” inspira escrita 
de “O embuçado” por João Anselmo

Foi para dar conta deste “clima de grande tensão na Lagoa”, como descreve o Correio dos Açores na sua edição do dia 19 de Novembro de 1988, e enquanto lagoense, que João Anselmo – médico endocrinologista – escreveu o seu segundo livro, intitulado “O embuçado”. 
No entanto, a pandemia veio a impossibilitar a organização de um lançamento/apresentação nos moldes convencionais, não desistindo porém de difundir o seu trabalho e, em simultâneo, estimular a leitura entre a população.
Quanto à escolha do tema deste livro, João Anselmo adianta que este “tem unicamente a ver com o facto de ser um acontecimento marcante na vida de uma comunidade relativamente pequena”, procurando “simplesmente perceber” e dar a conhecer a forma como as pessoas da vila “teriam diversas visões sobre o mesmo acontecimento, desde o trabalhador rural até ao pároco ou ao presidente da câmara”, adianta.
Na altura em que ocorreram os crimes, João Anselmo era um lagoense a viver em Lisboa, mas nem a distância geográfica o impediu de acompanhar todos os desenvolvimentos e contornos de uma história que muita ansiedade lhe provocava tendo em conta a proximidade de toda a família com o local dos acontecimentos. 
“Na altura não estava propriamente em São Miguel, estava em Lisboa mas vivi todos os acontecimentos ainda com mais ansiedade, porque toda a minha família vivia na Lagoa e estava interessado em saber o que se passava. Além disso, este acontecimento foi notícia a nível nacional, e víamos na televisão nacional as notícias da Lagoa e como as pessoas estavam a reagir a tudo, o que me causava mais ansiedade porque estava fora”, relembra o escritor.
30 anos depois do assassinato de Óscar Ferreira e Mariano Costa, quer através de conversas formais com habitantes do concelho da Lagoa, quer através dos conhecimentos e do “modus vivendi” de uma vila que sempre lhe foi familiar, João Anselmo começou então a compilar a informação que viria a dar lugar ao “embuçado”, juntando também fontes jornalísticas e a interpretação dos jornais e das notícias que iam sendo publicadas.
Em certa parte, conforme adianta o autor do livro – tendo em conta que uma das personagens é precisamente inspirada no seu pai –, esta sua segunda obra “acaba também por ser uma homenagem” ao seu progenitor, tendo em conta que para além de lhe ser uma pessoa muito especial, é também alguém “que sofreu directamente com os acontecimentos”.
“Foi uma das pessoas mais envolvidas nos acontecimentos pelos mais diversos motivos, não sofreu com isto, mas os danos psicológicos e os danos na sua actividade profissional e vida familiar foram grandes, porque havia determinados nomes na vila que circulavam, e o nome dele circulava muito porque estava mais exposto no seu trabalho e actividade, embora ele fosse um homem muito corajoso”, realça. 
No entanto, conforme passou o tempo, percebeu-se que muitos dos boatos “circulavam apenas na imaginação das pessoas”, e que muito do que se falava era “pura fantasia”.
Porém, os registos encontrados nos jornais daquela altura dão conta de “um clima de terror na vila, sobretudo à noite, com inúmeras famílias a precaverem-se em termos de vigilância e na segurança das moradias”, havendo ainda registo de “vários comerciantes” que se estavam a “armar até aos dentes” ou inclusive a preparar o necessário “para tirar licença de porte de arma”, motivando até uma reunião extraordinária da comissão de comerciantes local.
No início de 1989, estavam recolhidas as provas suficientes para incriminar o suspeito, que foi então detido pela Polícia Judiciária, conforme dá conta o Correio dos Açores do dia 13 de Janeiro daquele ano.
“A Polícia Judiciária deteve um residente na vila da Lagoa “suspeito” de ser o autor dos homicídios ocorridos naquela vila no último trimestre do ano passado, anunciou ontem fonte da PJ. Trata-se de um jovem de 23 anos de idade, funcionário público, casado, com dois filhos menores e, segundo nos foi dito, “é normalíssimo e tem a responder um processo em tribunal”, lia-se no jornal, sendo esta uma notícia que permitia que a população respirasse, finalmente, de alívio, depois de cometidos dois crimes “com uma caçadeira de dois canos, calibre 16”, enquanto usava “um capuz de cor preta com abertura para os olhos”, objectos estes que foram encontrados na sua posse, bem como a pasta que pertencia a Óscar Ferreira e a sua lanterna eléctrica.
O arguido confessou a autoria dos dois crimes e foi presente a tribunal, e apesar da curiosidade dos populares em conhecer a identidade do então “suposto assassino”, a verdade é que o seu perfil não correspondia ao esperado, já que de acordo com os vizinhos, o homicida condenado era “uma pessoa de temperamento calmo, educado, ia à missa e não era de tabernas”.
Na época em que ocorreram os crimes, o homicida trabalhava como ajudante de carpinteiro na Secretaria Regional da Habitação e Obras Públicas mas “gastava mais do que auferia no exercício da sua profissão”, havendo inclusive garantias de que “ele contraíra dívidas a vários credores e, segundo a Judiciária, terá confessado que o móbil dos crimes foi obter dinheiro para os gastos da família”.
Contudo, mesmo sendo uma pessoa conhecida pela sua calma, escreve o Correio dos Açores em Janeiro de 1989, “durante os cinco minutos que tivemos ocasião de observar o presumível «assassino da Lagoa» depois de presente ao juiz no Tribunal de Ponta Delgada, este ao referir não existirem provas de culpabilidade, manifestou, no entanto, agressividade no diálogo mantido com agentes da Polícia Judiciária. Olhando de revés para os agentes de segurança que se encontravam no local, ele «replicava» às acusações dos interlocutores.
Não obstante, não teve qualquer reacção face ao comentário de um agente da Polícia Judiciária: «Como tiveste coragem de deixares órfãos…” e movimentava as «mãos algemadas com frequência manifestando nervosismo”.

30 anos de mudança…

Da parte de João Anselmo, embora tenha acabado por revisitar estes acontecimentos, o objectivo do livro era também o de mostrar como ao fim de 30 anos “as pessoas evoluíram muito e já não querem falar sobre isso porque já não lhes diz nada embora os factos continuem a ser reais. (…) Nestes 30 anos que passaram as pessoas mudaram muitos dos seus comportamentos e vivências, são outras pessoas. Foi também isso que quis retratar. Vivo na Lagoa há 60 anos e fui evoluindo ao longo dos anos com os acontecimentos e vou vendo as coisas de maneira diferente”, conclui o médico e escritor lagoense que publicou os seus escritos pela primeira vez no jornal aos 13 anos de idade, adiantando que “publicar um livro é deixar alguma coisa que tem impacto e que se vai transmitir à população”.

Joana Medeiros
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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