Face a Face...! com Pedro de Mendoza y Arruda Oliveira Rodrigues

“Aos Açores (...) faltam hoje estadistas”

Correio dos Açores  – Descreva os dados que o identificam perante os leitores!
Pedro de Mendoza y Arruda Oliveira Rodrigues. Nascido no ano “inteiro e limpo” de 1974, o que me dá a jovem soma de 46 anos, os mesmos da nossa, também jovem, democracia. Natural de Lisboa, São Domingos de Benfica, para ser mais preciso, embora de pais açoreanos, o que fez de mim, sempre, ao longo da minha vida, um estrangeiro com dupla nacionalidade: açoriano em Lisboa e português, ainda hoje, nos Açores. Resido em São Miguel desde 1998, por escolha pessoal, e onde espero, ao longe e quando for caso disso, vir a terminar os meus dias.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Estudos primários feitos a dois tempos entre o Queen Elisabeth School, em Alvalade, e a Escola do Bairro de São João, quando veio a crise nos anos 80, mas, onde tive o privilégio de ter como professora da terceira e quarta classe a Dra. Maria José Saraiva, irmã dos professores José Hermano Saraiva e António José Saraiva, que um dia admoestou a minha mãe com o vaticínio de que eu não tiraria um curso, porém, algo me deve ter ensinado, porque acabei por o tirar, e logo uma licenciatura em História, nem mais. Pelo meio, uma passagem sem registos de maior pelo Liceu D. Pedro V, um curso de desenho na Sociedade Nacional de Belas Artes e uma tentativa, dolorosamente frustrada, do Curso de Cinema do Conservatório. Em termos profissionais, a minha vida esteve sempre ligada ao Turismo, por tradição familiar, tanto na esfera privada, na gestão da Plantação de Ananases Dr. Augusto Arruda e de outras empresas do ramo, como na esfera pública, na Delegação de Turismo de São Miguel e, depois, na Coordenação de Promoção da ATA. Paralelamente, fui sócio-fundador da MUU – Produções Culturais, uma enorme e inconsciente aventura feita com mais três amigos, numa época em que ser empresário e empresário da cultura era uma dupla loucura. Tenho, também, um profundo orgulho em ter sido co-fundador e Presidente da USBA – União de Surfistas e Bodyboarders dos Açores, uma associação que ajudou a lançar os alicerces daquilo que os desportos de ondas são hoje na Região. Sou militante do Partido Socialista e fui deputado municipal em Ponta Delgada, entre 2005 e 2009. Comentador político em vários programas na RTP-Açores, na rádio Açores-TSF e mantenho, ininterruptamente desde há quatro anos, a coluna “Café Royal”, às Quintas-feiras, na última página do Açoriano Oriental.

Quais as suas responsabilidades?
Para além de ser pai de duas irrequietas raparigas e companheiro de uma mulher extraordinária, creio que essas são as minhas principais responsabilidades, sou sócio-gestor de duas empresas, que vivem as mesmas dificuldades que todas as outras, no comatoso e moribundo sector do Turismo que, apesar dos governos, regional, nacional e europeus já lhe terem decretado a eutanásia, continua, ligado às máquinas, inconsciente e teimosamente a lutar todos os dias pela sua sobrevivência.

Como descreve a família de hoje?
A família, para mim, é um elo entre o passado e o futuro, é aquilo que temos de mais constante e que está sempre presente no nosso quotidiano. A família são os bisavós, os avós e o legado que nos deixaram através dos pais e são os filhos e o legado que lhes deixaremos a eles um dia. Um legado que é feito não de bens materiais, mas de ensinamentos, princípios e ideais, de sentimentos pelos quais vale a pena lutar e perseverar.

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
Como divorciado, sou levado muitas vezes a pensar que a “família tradicional” nunca existiu verdadeiramente. É uma invenção do Estado Novo feita para aprisionar os espíritos. A ideia retrógrada de um pai ausente, em trabalho, para ganhar o sustento, e uma mãe dona de casa, enquanto as crianças levavam reguadas na escola e brincavam na rua, embora mais ou menos romântica, é profundamente errada. A família é muito mais do que apenas isso. Mas, o que me parece realmente importante são os compromissos que assumimos uns com os outros, o carinho, o amor, a solidariedade que partilhamos com aqueles que queremos no nosso coração no dia-a-dia, sejam eles familiares de sangue, parentes próximos ou distantes, seja uma muito mais vasta e emaranhada rede de amigos, a quem tratamos como família alargada, e que sempre existiu e sempre existirá e é o que dá sentido à vida.

A relação entre pais e filhos é um foco de tensões. Em sua opinião, que abordagens devem ser feitas?
Prefiro olhar para as relações, sejam elas quais forem, como um jogo de equilíbrios. Uma permanente navegação diplomática entre forças que ora se aproximam, ora se afastam, mas que, no fundo, precisam umas das outras para se susterem, como a energia dos átomos. No resto, o importante é o respeito e a capacidade permanente de nos colocarmos no lugar do outro, seja enquanto filhos, seja enquanto pais, seja enquanto cidadãos responsáveis numa sociedade aberta.

Como e quando se deve interferir nas amizades do adolescente?
Enquanto pai ainda não cheguei a essa fase, mas da minha experiência de adolescente o mais importante, nas amizades e não só, é capacitar os jovens com princípios firmes, com uma noção clara do bem e do mal, o que é correcto e o que é incorrecto, e deixá-los fazer as melhores escolhas com base nesses valores. Até porque, por vezes, e eu sei-o bem pelos muitos que cometi, os erros são a melhor forma de aprender. “Cometam erros, mas não os mesmos”, ensinou-me a minha avó Leonor, com quem muito aprendi.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
A História da Humanidade é feita de avanços e recuos, ou de avanços espirais se optarmos pela visão mais hegeliana. Gosto de acreditar que, apesar de tudo, estamos a evoluir para uma sociedade mais livre, mais fraterna, mais solidária. No fundo, mais Humana. Embora, por vezes, como agora, com esta malfadada pandemia e o reavivar de tantos pequenos autoritarismos e desigualdades, seja preciso um esforço hercúleo para continuar a acreditar no progresso da humanidade. Estamos claramente numa encruzilhada, onde podemos avançar para um de dois caminhos: uma distopia autoritária e orwelliana; ou um mundo solidário e fraterno de nações empenhadas no progresso colectivo. Quero participar activamente na construção desta última.

Que importância têm os amigos na sua vida?
A amizade é uma forma de amor e o amor é tudo na minha vida. Tenho poucos amigos, mas sei que dos que tenho poderei sempre contar com eles, da mesma forma que eles poderão contar, também, sempre comigo.

Que actividades lúdicas gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Surfar, ler, pensar, escrever, que, apesar de poder ser um processo imensamente doloroso, é uma fonte permanente de prazer.

Que sonhos alimentou em criança?
Ser arqueólogo no Egipto em busca do túmulo de Cleópatra. Mais tarde quis ser cineasta. Hoje, a criança que guardo em mim sonha em rodear-se do iluminado contentamento do prazer das coisas belas da vida e do amor.

O que mais o incomoda nos outros?
A falta de princípios.

Que características mais admira no sexo oposto?
A sua permanente capacidade para o enternecimento.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Leio compulsivamente e tenho imensa dificuldade em reduzir décadas de leitura a um livro apenas. Mas, se tivesse que me retirar para uma ilha deserta levaria comigo os Sonetos de Antero; o Watchmen do Alan Moore/Dave Gibbons; a Correspondência de Fradique Mendes do Eça e os seis volumes do Dune do Frank Herbert, e tinha ainda que juntar uns quantos discos e filmes.

Como se relaciona com as redes sociais?
Umas vezes com gozo, outras com náusea. Uns dias com vício, outros com distanciamento. Não endeuso as redes sociais, mas também não as diabolizo. As coisas são aquilo que as pessoas fazem delas.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
Julgo que não. As tecnologias são maravilhosos instrumentos quando são usados com inteligência. O telemóvel é uma muito útil ferramenta de trabalho, tal como a Internet que é uma porta extraordinária, quando bem utilizada, para o conhecimento.

Costuma ler jornais?
Leio jornais todos os dias e todos os dias rogo pragas a estes malditos confinamentos que me roubaram o prazer de os ler em papel, de manhã os regionais na Tabacaria e ao fim do dia os nacionais no Royal.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
“NASA confirma: não estamos sozinhos no Universo!”

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Gosto muito. Viajar é uma forma de aprendizagem e de conhecimento e é fundamental para podermos abraçar o mundo em toda a sua multiplicidade, complexidade e grandeza. Tive a sorte de poder fazer uma viagem longa pelo México, em 1998, foram seis meses, de mochila às costas e pranchas debaixo do braço, da mais genuína e solitária liberdade.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Tirando queijos e os restantes derivados lácteos (bem sei que é heresia dizê-lo nos Açores) aos quais sou totalmente alérgico, julgo ser um bom garfo e, modestamente, um bom cozinheiro. Gosto de um pouco de tudo, mas gosto particularmente de cozinha asiática. Um bom Ramen é o céu na terra. Mas seria imensamente feliz apenas com um meio quilo de percebes, do sudoeste alentejano, fervidos em água do mar, ou com uma generosa e reconfortante tijela de couves aferventadas.

Qual a máxima que o/a inspira?
“Não herdamos a terra dos nossos antepassados, recebemo-la de empréstimo dos nossos filhos.” Provérbio americano.

Em que Época gostaria de ter vivido?
Sem sombra de dúvida ao lado de Antero, nesse romântico século XIX português. Pelas batalhas que tenho escolhido, e perdido, acho que daria um bom “vencido da vida”.

O que pensa da política e dos políticos?
Há os poucos com que simpatizo, os menos ainda que admiro. Há muitos que me entristecem e uns quantos que faço por ignorar. A política deveria ser uma das mais nobres artes, mas transformada numa carreira, gerida em pequenos ciclos de quatro anos, torna-se numa farsa pouco interessante. Aos Açores, como aliás ao Mundo, faltam hoje estadistas, políticos com um desígnio e um ideal para o futuro. Há demasiada politiquice, dos cargos e dos pequenos interesses, e pouco serviço público e trabalho pelo bem-comum. Falta, essencialmente, um político com um projecto para os Açores, e que esteja disponível para o explicar, ilha a ilha, freguesia a freguesia e, muitas vezes, elucidando as pessoas porque é que não podem ter determinadas coisas à soleira da porta, um porto, um aeroporto internacional, um centro de saúde e um médico especialista, mesmo que para isso tenha que perder eleições. Faltam políticos que saibam defender a unidade dos Açores em todas as suas distâncias e diferenças, que lutem pela solidariedade e complementaridade entre as nove ilhas, em vez de constantemente enveredarem pelo bairrismo inútil do imperiozinho de cada ilha. E, principalmente, políticos que abram os Açores ao Mundo, em lugar de acharem que os Açores são, erradamente, o centro do Mundo.

Há políticos a mais nos Açores?  
Julgo que o principal problema não está na quantidade de políticos, mas talvez na qualidade, ou falta dela, dos mesmos.

Enquanto cidadão, acredita no actual Governo dos Açores resultante da aliança entre PSD/CDSPP/PPM com acordos parlamentares com o Iniciativa Liberal e o Chega? É um Governo para durar? E o PSD/A terá de “engolir” alguns elefantes?
Não acredito. Respeito, mas não acredito numa coligação negativa cuja única argamassa de sustentação é o ódio ao PS, por mais que o PS possa ter feito para, em certo sentido, ser merecedor desse ódio. Não creio que estes protagonistas, salvo por uma voraz sede de poder, se possam alguma vez entender, e esse é talvez o maior “elefante” que os três, Bolieiro, Estevão e Lima, tiveram que “engolir”, que foi engolirem-se a si próprios depois de tudo o que disseram uns dos outros. Mas enfim, é um daqueles exemplos claros do que é a política feita sem princípios, apenas pelos cargos e os interesses.

O que o levou a lançar o livro ‘Tudo o Que Não se Pode Dizer’?
Este livro é um gesto de cidadania. É um grito pela liberdade mais pura de pensamento e de expressão, num tempo em que nos querem forçar a um unanimismo fascizante. É a minha forma de chamar a atenção das pessoas de que a Vida não é um qualquer objecto sanitário e higienizável, que as pessoas não são ratos de laboratório, despojáveis e confináveis. De apelar a uma visão mais humana do ser humano, passe a redundância, num tempo em que parece que as estatísticas, os gráficos e os modelos matemáticos comandam a totalidade das nossas vidas.

Como é viver um ano de pandemia com eleições pelo meio? Comunga da opinião de que não deveria ter havido eleições? Porquê?
Pelo contrário, acho que deveria ter havido novas eleições, que dessem ao povo a oportunidade de clarificar aquilo que realmente pretendia e não este negócio de gabinetes feito por políticos pouco escrupulosos que, como pitonisas de algibeira, julgam saber interpretar a vontade das urnas. Aliás, o absurdo argumento da estabilidade governativa e do orçamento foi limpidamente desmontado pelos quase 6 meses que vamos levar de Governo sem orçamento aprovado e a governar em duodécimos. Mas, esse é um veredicto que a História fará do Sr. Presidente da República e do seu embaixador nas ilhas.

Qual a sua opinião sobre o ensino à distância a que se recorre por causa da pandemia da Covid-19, face à falta do nível educacional de muitos pais e da falta de meios?
Com todo o respeito pelos que perderam a vida ou que perderam entes queridos nesta pandemia, na minha opinião os maiores prejudicados de toda esta loucura são precisamente os mais jovens. O esbulho que lhes é feito do direito à educação e à sociabilização terá consequências brutais no seu desenvolvimento e futuro. A classe política deve-lhes um imenso pedido de desculpa.

Passou a haver mais pobres nos Açores que as estatísticas não mostram?...  
Naturalmente que sim, a pobreza dos que ficaram sem emprego, dos que foram postos em lay-off, dos que perderam rendimentos, de todos aqueles empresários a quem o Estado expropriou o direito a ganhar a vida. A quem o Estado empurrou para o cadafalso das dívidas e das moratórias bancárias, mas a quem obriga a ter os impostos e as contribuições em dia. A pobreza de todos aqueles a quem, como é o meu caso, no Turismo, foram pura e simplesmente proibidos de trabalhar. Que sentido pode fazer uma indústria da hospitalidade num mundo sem viagens e sem sorrisos? Essa forma como o Estado, ou os Estados, condenaram vastos sectores e camadas da sociedade, da cultura ao comércio, passando pelo Turismo, ao limbo da inexistência, é uma forma vil e cruel de pobreza.

Qual a citação do livro que mais gostou de escrever? Porquê?
É-me difícil particularizar um excerto ou citação, mas fico particularmente satisfeito em verificar a actualidade de Proudhon, e do seu apelo para que, como cidadãos livres e responsáveis, nos levantemos contra as múltiplas opressões daqueles que nos governam. “Os grandes só são grandes porque nós estamos de joelhos. Levantemo-nos!” é a citação exacta do grande filósofo francês de oitocentos que foi uma das grandes influências de Antero.

Descreva três situações nos Açores de que não se pode falar e porquê?
Desde logo da Coligação, porque supostamente os socialistas fizeram pior. Dos erros do PS, porque aparentemente o PS é que ganhou as eleições, embora esteja agora na oposição. Do Corvo, porque Paulo Estevão tomará como um ataque. Da família César, porque os seus acólitos tomarão como uma obsessão. Da corrupção, que toda a gente vê, mas finge que não existe… são tantos…

É um homem do Turismo. O que faz um Delegado de Turismo de São Miguel?  
As Delegações de Turismo são um resquício anacrónico do tempo da “outra senhora”. Foi a forma mais fácil de manter uma tripolaridade que os “pais da nossa autonomia” não tiveram a coragem de reinventar e que, até hoje, nenhum político açoriano tomou como desígnio modificar. Numa região com um verdadeiro sentido arquipelágico, que se entendesse como um todo, uns Açores únicos, e não apenas nove identidades diferentes, não seria necessária esta redundante dispersão de entidades por três pequeninas capitais. Muito menos com as facilidades que existem hoje em termos de comunicações e deslocações. Devo confessar, aliás, que quando terminei as minhas funções como Delegado de Turismo, deixei um documento escrito recomendando a sua extinção, por manifesta inutilidade.

Pode considerar-se a Cultura o parente pobre da Autonomia? Temos um povo que não conhece a sua cultura e não a sabe vivenciar? De quem é a culpa?
Se há um problema no povo a culpa é do povo. Mas, julgo que o principal dilema é essa ideia de “cultura açoriana”. Temo que esse conceito seja uma criação académica e não seja real e concreta. Em tudo aquilo que é do interesse do povo essa “cultura” está viva e pujante, veja-se as festividades, a religiosidade, as tradições, a gastronomia. Agora, uma História e Cultura Açoriana só não é mais pujante porque as elites locais, se é que elas existem, estão mais preocupadas com a sua rua e a sua ilha, do que com o futuro inteiro do arquipélago dos Açores, e este Governo de coligação é um exemplo paradigmático disso, na forma como imediatamente colocou os interesses de algumas ilhas à frente de outras e até dos interesses do arquipélago como um todo.

Pelo conhecimento que tem, a cultura do ananás está condenada nos Açores?  
Enquanto houver estufas e estufeiros a cultura sobreviverá. Outra questão é a sua sustentabilidade comercial que, com o fim pouco claro da última cooperativa de produtores, ficou seriamente ameaçado. Pela nossa parte, na Plantação de Ananases Dr. Augusto Arruda, continuaremos a trabalhar sempre para proteger e promover uma cultura que é parte fundamental da identidade e da história da ilha de São Miguel e dos Açores.

Tem algo mais que considere interessante e importante abordar?
A mensagem mais importante que gostaria de deixar é a de não permitirmos que o medo domine as nossas vidas. Combater os autoritarismos e as desigualdades. Lutar pelas liberdades individuais, e a liberdade de pensamento e de expressão são algumas delas, que são o principal pilar de sustentação do Estado de Direito Democrático, e por uma sociedade mais justa e solidária, agora, hoje e sempre!                                               

 

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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