Sara Cymbron diz que aprendeu muito a estudar na pandemia

Jovem violonista começou na banda filarmónica e hoje estuda na Alemanha

Correio dos Açores: Antes de seguir a formação em violino, tinha em mente alguma outra profissão?
Sara Cymbron: Sim, mas sempre inserido no mundo das Artes. Lembro-me que até aos 15/16 anos interessava-me imenso por arquitectura e decoração de interiores. Mas depois de fazer um estágio de orquestra em Lisboa, adorei todo aquele ambiente e mudei completamente o rumo.

Porque se apaixonou pelo violino?
O violino tem uma enorme variedade de cores e timbres e é um instrumento extremamente desafiante. Todos os dias descobrimos ou procuramos algo diferente ao estudá-lo, o que faz com que nunca seja aborrecido.

Foi estudar para Leipzig, Alemanha. A formação oferecida cá não era suficiente?
Acho que a formação em Portugal é suficiente, mas a verdade é que estudar fora dá-nos outras perspectivas. Aprendemos outros métodos, outras maneiras de tocar e isso não nos é dado apenas pelos professores, mas também pelos nossos colegas que vêm de toda a parte do mundo e que têm outra visão musical.
Acho que também sair do nosso país, do nosso conforto, faz-nos crescer não só a nível profissional como também a nível pessoal

O ambiente é muito competitivo?
 É competitivo, mas de forma saudável. Sinto que apesar do nível altíssimo, há sempre entreajuda entre colegas. Acho que isso se deve ao facto do mercado de trabalho na Alemanha ser enorme e de por isso sentirmos que cada um de nós vai conseguir um lugar.
Sinto muito mais competição em Portugal, quando vou tocar ou fazer provas. Neste momento, com o mercado de trabalho escasso e a qualidade musical tão alta, a competição torna-se cada vez maior.

Como é a agenda de trabalho, quando prepara um espectáculo?
Tento sempre ter uma rotina de estudo. Tenho um calendário de estudo diário e antes de começar a estudar escrevo o que quero trabalhar e por quanto tempo. Isso ajuda-me a concentrar e a que o meu estudo seja mais eficaz.

Quando não tem espectáculos, como divide o tempo?
Mesmo não tendo espectáculos, concertos (como é o caso deste tempo agora durante a pandemia), tento sempre manter uma rotina de estudo. Guardo sempre tempo do meu dia também para fazer desporto e para ter algum hóbi.

Que tipo de repertório lhe dá mais satisfação fazer?
Acho que isso foi mudando ao longo da minha formação e tenho a certeza que ainda vai mudar muito ao longo da minha vida.
Neste momento, o que me dá mais satisfação é tocar em Música de Câmara, preferencialmente em trio (piano, violino, violoncelo). Acho que é a junção perfeita de solo com o tocar em conjunto.

Quais são os seus compositores preferidos?
Acho que também vai mudando de tempos em tempos. Mas Brahms e Debussy sempre foram os meus compositores de eleição.

Quais os aspectos mais desafiantes da tua profissão?
Para mim, um dos maiores desafios em ser músico é o de conseguir conciliar a minha vida pessoal com a minha vida profissional. Acho que há momentos da nossa carreira/caminho profissional que temos de abdicar muitas coisas da nossa vida familiar/pessoal porque temos de estudar diariamente horas e horas, ou porque temos de viajar em concertos, ou porque não temos fins-de-semana livres, ou porque apostamos numa formação no estrangeiro (como é o meu caso)...

Que grandes mitos o público ainda tem acerca da música clássica?
Um dos grandes mitos é que os músicos clássicos só ouvem música clássica quando estão em casa ou no seu tempo livre. Eu pessoalmente gosto e preciso de ouvir outros estilos de música para relaxar.

O que faz antes de entrar em cena?
Antes de entrar em palco gosto sempre de ter um momento para tocar um pouco e aquecer. Ultimamente tenho feito exercícios de respiração para me sentir mais calma.

Que conselhos daria a uma jovem que queira seguir esta carreira?
Ter foco e ser resiliente. Durante toda a formação ouvimos imensos ‘Nãos’. Mesmo assim, é preciso levantar a cabeça no dia a seguir e voltar focar e estudar até conseguir.

Foi fácil essa decisão de ir para a Alemanha?
A decisão foi fácil porque já tinha como objectivo na minha cabeça desde muito cedo. O processo e a preparação é que não é fácil. Todo o investimento e preparação que é necessária é longa e nem sempre fácil.

Fale-nos das expectativas que tinha antes de chegar, e o que encontrou na realidade.
Sabia que era um país com uma cultura musical e nível musical altíssimo, mas acho que na verdade superou essa expectativa. Respirava-se música em qualquer esquina de Leipzig.

Como define a vida na Alemanha numa frase?
Fria e cinzenta mas cheia de música e variedade cultural.

Leipzig é uma cidade boa para viver?
Acho que é uma óptima cidade para viver e principalmente para estudar. Não é uma grande metrópole como Berlim, mas é mesmo assim super dinâmica e cheia de vida. Isso faz também com que seja uma cidade segura e acolhedora.

Fale-nos como foi a integração.
 Devo ser sincera, não foi fácil. A nível musical sinto que estava e estou onde sempre quis estar, mas a nível pessoal foi bastante difícil. A adaptação à língua e à nova cultura demorou e na verdade é um processo que ainda está a decorrer. O tempo cinzento e frio também não ajudou. Lembro-me que o primeiro Inverno foi realmente difícil. Anoitece as 15h30/16h e durante o dia quase não vemos o sol.

Como caracteriza o povo alemão?
É um povo um pouco frio e difícil de conectar ao início, mas assim que se cria uma amizade, então será para a vida toda e estarão sempre dispostos a ajudar.

Que especialidades gastronómicas temos mesmo de provar?
Eu pessoalmente gosto de um dos pratos mais típicos, o schnitzel, que é um panado enorme, servido normalmente com batata frita e molho de cogumelos. Mas claro, visitando a Alemanha, acho que qualquer pessoa tem de experimentar a wurst, a famosa salsicha alemã, que se vende em qualquer esquina nas ruas.

Como é a vida social em Leipzig?
Apesar de não ser uma grande metrópole, a vida é Leipzig é bastante movimentada. Nos meses quentes, a vida social de Leipzig acontece muito outdoor. É uma cidade cheia de parques e lagos onde as pessoas se juntam em grupos enormes, a fazer um churrasco, jogar as cartas, andar de bicicleta, cantar ou simplesmente apanhar um pouco de sol. No resto do ano, Leipzig tem ruas enormes só com bares, esplanadas e restaurantes de imensa variedade cultural.

É fácil para um português viver na Alemanha?
Acho que a Alemanha é um país superreceptivo a estrangeiros. A cultura alemã é extremamente diferente da portuguesa, criando às vezes alguns choques. Mas se eles vêm que estamos a fazer o esforço para nos adaptar e aprender os seus costumes, são os primeiros a ajudar e nos integrar.

Escolha um museu e uma galeria de arte em Leipzig para visitar.
Para os amantes de música, aconselho a visitar igreja Thomaskirche, onde o famoso compositor Johann Sebastian Bach trabalhou durante muitos anos e onde está sepultado. Adorei também visitar o Museum der bildendenKünste, que é um museu de arte desde a idade Média à Modernidade.

Existe algo específico como souvenir dessa cidade?
Tudo o que seja relacionado com Bach e música clássica.

O que mais a atrai em Leipzig?
O que mais me atraiu e continua a atrair em Leipzig é sem dúvida a cultura musical, principalmente da música clássica. Tal como Bach, muitos outros compositores importantes viveram, tocaram ou foram professores em Leipzig. Isso marcou bastante a cidade e a vida cultural das pessoas que nela vivem. Há orquestras com um nível altíssimo, salas de concerto sempre cheias, música na rua todos os dias, festivais de grande renome e até ruas com nomes de compositores. A música é essencial e está sempre presente no dia-a-dia de Leipzig. E claro, para mim, como músico clássico profissional, é um sonho ter tido a oportunidade de viver numa cidade assim, em que as pessoas me respeitam e dão reconhecimento.

Tem saudades dos Açores?
Açores para mim significa casa, família. E claro, sinto imensas saudades de estar com a minha família e de ter a possibilidade de os ver mais do que 2 vezes ao ano.
Qual o papel das bandas filarmónicas nos Açores?
Talvez por ter começado a minha educação musical numa banda filarmónica, e por a minha família continuar responsável e ter sido a fundadora de uma, acho mesmo que estas têm um papel fundamental na cultura musical de uma região. Principalmente nos Açores, em que não há assim tantos concertos ou tantas oportunidades de os fazer, as bandas têm a função de levar a música ao povo, de chegar a toda a gente. E para as pessoas que as frequentam, têm não só um papel musical como também social. É o local onde amigos, colegas, família se juntam e em que todos tem o mesmo objectivo, divertirem-se a fazer música.

Que projectos a esperam em 2021?
Depois deste ano de pandemia, sem concertos, finalmente começam a surgir alguns projectos, gravações e espectáculos. Estou agora a formar um trio com mais dois colegas e espero ter a oportunidade de organizar já uns concertos no Verão, quem sabe também nas ilhas.

Como vive esta pandemia?
Nós músicos, artistas trabalhamos muito com base num objectivo. E como, devido a esta pandemia, todos os concertos e espectáculos foram cancelados, perdemos a nossa motivação. Tive e ainda tenho fases menos boas, em que perco o foco e a vontade de estudar. Outras que já me sentia mais motivada e trabalhei em peças novas. Agora ando a tentar ver esta pandemia de uma forma mais positiva. Antes de todos os cancelamentos andava sempre de um lado para outro, com imensos concertos e com muito programa novo para preparar. Agora tenho mais tempo para mim, para estudar com calma, sem o stress do dia-a-dia e tentar aprender coisas novas, também não relacionadas com a música.
        
      

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