Queijaria Furnense vai vender ‘Mimi Alfa2’ para pessoas intolerantes ao leite

Na Queijaria Furnense, espaço já bem conhecido para quem visita a freguesia  das Furnas, no Concelho da Povoação, Carlos Rego e Paula Rego, pai e filha, mostram o espaço onde muito em breve começará a ser comercializado este leite. A ideia surgiu, quase por acaso, há poucos anos durante uma visita à sua exploração.
“Começaram a aparecer algumas pessoas a perguntar se não tínhamos leite sem lactose. Isso passava-me um bocado ao lado. Nem sabia bem o que era preciso fazer. Mais tarde apareceu-me uma turista argentina, começamos a conversar sobre a genética de toiros que usávamos na exploração. Usávamos a K Caseína BB, que dá mais rentabilidade de queijo. É um tipo de proteína que se transmite geneticamente. Ela perguntou se não usávamos a Beta Caseína A2A2. A maior parte dos toiros que utilizávamos com K Caseína BB é Beta Caseína A2A2. Comecei a conversar com a senhora que começou a ‘desbobinar’ e se mostrou uma enciclopédia de sabedoria. Fiquei curioso”, admite.    
Relativamente à Beta Caseína existem três tipos genéticos destes animais: os A1A1, os A1A2 e os A2A2. Só no caso destes últimos é que a proteína não é tão agressiva para o estômago dos humanos.
Com a população a demonstrar cada vez mais intolerância ao leite, Carlos Rego tentou apurar qual a percentagem de vacas na sua exploração possuidoras desta tipologia genética e percebeu, depois da realização de testes a 50 animais, que aproximadamente metade deles era A2A2. Após essa descoberta, seguia-se a fase da experimentação em pessoas intolerantes ao leite.
“Já temos quase 150 pessoas testadas. Algumas começaram a vir por intermédio de outras. Todas as pessoas intolerantes ao leite, independentemente de serem intolerantes à proteína ou à lactose, 100% delas bebem-no e não fez mal a nenhuma delas”, garante.
Com o nome ‘Mimi Alfa2”, este leite é “uma homenagem à Mimi, a mascote da casa que temos colocado em todos os nosso rótulos. O Alfa entra pela questão de ser um leite de madrugada”, explica Paula Rego.
Também o facto da recolha do leite ter lugar nas primeiras horas do dia é algo destacado. Como tem estas vacas em pastagem, isso permite que estejam “mais de 80% da noite deitadas. Ora isso faz com que estejam relaxadas e que se transmita para o leite a melatonina (…) Foi feito um estudo que conseguiu comprovar que o leite da ordenha da manhã tem 7 vezes mais essa enzima do que a ordenha da tarde pelo facto de as vacas estarem relaxadas durante a noite. Vamos aproveitar isso e vamos fazer com leite da manhã que é muito mais relaxante”, salienta Carlos Rego.
Este agricultor considera também que a produção deste tipo de leite vem trazer mais qualidade à fileira.  
“Isso também é uma maneira de não arranjar mais pacotes de leite UHT. Acho que esse é o problema de nós todos. Não é uma mais-valia em nada e acho que temos uma galinha de ovos de ouro que não estamos a usar. Temos o melhor leite do mundo e depois temos também quase o mais barato do mundo. Penso que a culpa é de nós todos. A indústria tem culpa porque não inova, tirando uma ou outra que o tenta fazer. Quem trabalha com leite UHT está a lutar com países que tem custos de produção que são metade dos nossos. Só conseguimos competir através da qualidade. Temos qualidade e fazemos UHT que depois entra no mercado como um leite banal”, lamenta.
Questionado sobre a quantidade deste tipo de leite que irá produzir, Carlos Rego afirma não conseguir avançar qualquer valor, explicando que “estamos a falar de leite do dia. Este leite em 5 ou 6 dias tem de ser consumido. É quase um leite de proximidade do consumidor e a pessoa tem de o vir pelo menos uma vez por semana. Por enquanto só vamos vender aqui”. Carlos Rego adianta que futuramente o objectivo passa por introduzir este tipo genético em toda a sua exploração, num processo que o próprio admite ser moroso, “estamos no mínimo a falar em 15 anos”.
O processo de recolha do leite tem de ser feita de forma criteriosa, porque qualquer ‘mistura’ que exista entre o leite dos vários tipos genéticos, estraga o produto final.
“Estas vacas têm de entrar sempre em linhas limpas e esterilizadas. As vacas estão todas marcadas na exploração. São as primeiras a entrar na ordenha, só depois vêm as outras. Já temos um tanque preparado aqui na queijaria para receber apenas esse leite. Quando começamos a fazer a pasteurização é também o primeiro a entrar no sistema”, salienta.
Faltando apenas algumas questões de pormenor para que se inicie a comercialização, Carlos Rego explica que esse processo irá arrancar dentro de pouco tempo e que este leite ‘especial’ “estará no interior de um frigorifico, passando numa manga isolada para uma torneira. As pessoas desinfectam as mãos enchem o seu vasilhame e não tem contacto com o resto de leite que está no interior da fábrica. Vamos repondo o leite à medida que o formos vendendo, para evitar desperdícios (…) A pessoa depois pode ficar com essa garrafa e levar para casa e esterilizar. Quando paga metemos a etiqueta com o lote, com a parte nutricional e com a validade. Isto independentemente de a garrafa ser nossa ou não. Nunca vi nada semelhante”.
Admitindo que nunca tinha imaginado que “existia tanta gente intolerante”, Carlos Rego avança que esta é uma aposta para seguir e consolidar nos próximos tempos.
“É uma aposta nossa para o futuro e penso que deveria também ser uma aposta da Região”, conclui.

Luís Lobão

 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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