Entrevista com Luís Gordinho

Estrelinha de Santa Maria e priolo são espécies mais ameaçadas de um total de nove que têm estatuto preocupante

Correio dos Açores - Em que consiste o Atlas das Aves Nidificantes, que vai agora para a terceira edição? Como funciona o levantamento do número destas aves que constam no Atlas?
Luís Gordinho (Coordenador nacional do III Atlas das Aves Nidificantes em Portugal da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves- SPEA) - Um atlas pode ser um livro de ilustrações elucidativas de determinada área do conhecimento ou um livro de mapas geográficos. Os atlas de anatomia são um exemplo do primeiro tipo, e os atlas de aves um exemplo do segundo.
Este Atlas é um levantamento completo da distribuição geográfica e abundância das aves reprodutoras em todo o território nacional. As distribuições serão mapeadas em quadrículas de 10x10 km e as abundâncias serão estimadas para as espécies mais comuns e para as que forem alvo de censos dirigidos (caso dos milhafres nas ilhas).
Ao contrário do Censo dos Milhafres, que visa uma única espécie, o Atlas lida com cerca de 240 espécies. Por esse motivo usa dados não sistemáticos recolhidos por qualquer observador de aves (depois de convenientemente triados), e dados sistemáticos recolhidos por observadores mais experientes.
Os dados não sistemáticos, que são uma quantidade enorme (da ordem dos 90% do total), são recolhidos quase exclusivamente por voluntários. Por isso é legítimo afirmar que, tal como o Censo dos Milhafres, o Atlas tem uma forte componente de ciência cidadã.
Adicionalmente, os levantamentos sistemáticos do Atlas, em parte, também funcionam como o do Censo dos Milhafres, na medida em que 40% são realizados por voluntários. Outras parte importante dos levantamentos é assegurada pelos três parceiros do Atlas, 25% pelo ICNF (áreas protegidas do continente), 17% pela Universidade de Évora e 10% pela SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. Os restantes 10% são levados a cabo por prestadores de serviços de um projecto POSEUR, destinado a actualizar a Lista Vermelha das Aves de Portugal.

Como funcionam os registos? São anuais? São apenas de aves em reprodução?
Os registos não sistemáticos podem ser de qualquer espécie de ave e em qualquer número, local ou altura. Têm é que ser inseridos no portal ou na app do PortugalAves/eBird. Além disso, para serem verdadeiramente úteis para o atlas, devem incluir também o código de nidificação. Este código não é mais do que uma medida da evidência de reprodução obtida em cada observação. Os códigos estão predefinidos no portal, bastando escolher uma opção. As opções incluem macho a cantar, ave a construir ninho, adulto a alimentar juvenil, etc.
Os registos sistemáticos obedecem a um protocolo mais rígido. São realizados entre 15 de Março e 15 de Julho. Implicam realizar percursos de 30 minutos em pelo menos seis das 25 tétradas (quadrículas de 2x2 km) de uma quadrícula de 10x10 km. Ao longo desses percursos, devem ser identificadas e contadas todas as aves vistas ou ouvidas e atribuído um código de nidificação por espécie.
Os registos a utilizar estão a ser realizados anualmente desde 2015. 2021 será o sétimo e último anos deste Atlas.
Em princípio, apenas as espécies com pelo menos um registo de nidificação confirmada em Portugal continental ou nas ilhas terão mapas no Atlas. Como disse antes, devem ser cerca de 240 espécies. No entanto, quando se faz a amostragem no campo, recolhem-se dados de espécies que não se reproduzem em Portugal. No início da época de amostragem sistemática, ainda se apanham invernantes e aves em migração pré nupcial. No final da época, já se encontram aves em dispersão pós nupcial.
Nos registos não sistemáticos, efectuados ao longo de todo o ano, a proporção de não reprodutores ainda é maior. No entanto, é importante não descartar registos logo à partida, porque há espécies que nidificam no Inverno, caso de alguns mochos e corujas.
A selecção dos dados a utilizar para cada espécie é feita no final, durante o tratamento da informação.
Além do coordenador nacional, o Atlas conta com uma Comissão Científica composta por oito elementos, e com uma rede de Responsáveis Regionais pelas 18 regiões em que o território nacional foi dividido. A responsável pela região dos Açores é Alba Villarroya, técnica da SPEA. Todos os que pretendam participar no Atlas Nacional nesse arquipélago, deverão começar por entrar em contacto com ela (através do email alba.villarroya@spea.pt).
A que espécies remete este Atlas?
Como disse, este atlas incluirá cerca de 240 espécies. Todas as que nidificam em Portugal continental e ilhas. Talvez seja interessante acrescentar que, dessas, 11 nidificam exclusivamente nos Açores e 12 exclusivamente na Madeira. Como há alguma sobreposição entre arquipélagos (5 espécies). São 18 as espécies que nidificam exclusivamente nas ilhas e não nidificam no continente.

Estes dados irão contribuir também para a actualização da Lista Vermelha das Aves de Portugal. Que importância tem este documento?
O Livro Vermelho classifica as espécies em função da sua probabilidade de extinção, num dado período de tempo. O Cadastro Nacional dos Valores Naturais Classificados, em vias de aprovação, incluirá as espécies consideradas ameaçadas na Lista Vermelha, dando a este documento força de Lei.
As aves foram incluídas em duas edições do Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal (1990 e 2005). A actualização que está agora a ser preparada tratará as aves em separado, e assumirá a forma mais simples e prática de uma Lista Vermelha, em lugar do tradicional Livro Vermelho.
Para se reavaliar o estatuto de ameaça de cada espécie é indispensável ter dados recentes de distribuição e abundância de todas as espécies reprodutoras (e também das invernantes e migradoras de passagem regulares). É aí que entram os dados do Atlas.

Nos Açores, quais as aves que integram esta lista vermelha?
A Lista Vermelha que estamos a preparar ainda não está pronta, pelo que me vou socorrer do anterior Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal (de 2005) para responder à sua questão. Olhando para os resultados globais por grupo taxonómico desse volume, verifica-se que, nos Açores, nove espécies têm estatuto de ameaça superior a Pouco Preocupante. No entanto, para outras 13 espécies, considerou-se que havia Informação Insuficiente. Isto de um total de 33 espécies que foram avaliadas nos Açores.
As nove espécies que têm estatuto de ameaça superior a Pouco Preocupante nos Açores são: Criticamente em Perigo (CR): Estrelinha de Santa Maria e Priôlo (dois pássaros florestais); Em Perigo (EN): Alma-negra, Estapagado e Painho de Monteiro (três aves marinhas); Vulnerável (VU): Frulho, Angelito, Garajau-rosado e Garajau-comum (duas espécies marinhas e duas espécies costeiras).

Em que medida é que estas actividades permitem tomar posições perante a possibilidade de as aves estarem em perigo na Região? O priolo conseguiu ver melhorado o seu habitat devido a medidas tomadas com base nestes censos/contagens?
Apesar da escala pouco detalhada a que é feita a amostragem para o Atlas Nacional (quadrículas de 10x10 km), este trabalho poderá dar indícios de expansão ou contracção das áreas de distribuição de certas espécies nos Açores. Além disso, no caso das espécies mais comuns (como o tentilhão ou o canário-da-terra), também poderá revelar alterações na distribuição da abundância relativa.
As espécies que mostrem tendências negativas mais nítidas, deverão depois ser objecto de estudos dirigidos, por exemplo de um atlas mais detalhado, como se fez no caso do priolo (quadrícula 1x1km). A partir de 2008, data de realização do I Atlas do Priolo, a estimativa populacional do priolo é feita através de uma rede de 307 pontos pré-definidos em toda a área de distribuição potencial da espécie. Nos Atlas do Priolo, realizados a cada quatro anos, a quase totalidade dos pontos são monitorizados no mesmo dia por cerca de 50 voluntários. Nos restantes anos, 158 pontos prioritários são monitorizados por técnicos da SPEA.
O Atlas Nacional também compila e usa resultados de censos dirigidos. No caso das aves marinhas e costeiras insulares, os censos dirigidos são a melhor forma de monitorizar a sua distribuição e abundância. Essa monitorização é fundamental para rever periodicamente os seus estatutos de ameaça.

O priolo pode ser considerado um caso de sucesso?
O priolo é uma ave endémica dos Açores, actualmente classificada com o estatuto global de Vulnerável na Lista Vermelha da IUCN. A espécie já esteve classificada como “Criticamente Ameaçada” na referida lista mas que tem sido alvo de projectos dirigidos à sua recuperação e à recuperação do seu habitat desde há mais de 15 anos. Por esse motivo, pode ser considerado um caso de sucesso.
A população de priolo decresceu significativamente na segunda metade do século XX com uma estimativa entre 60-200 casais em 1996. Por este motivo, foram desenvolvidos vários projectos para a recuperação do priolo e o seu habitat; os três últimos (2003-2019) coordenados pela SPEA. Os resultados do censo de priolo 2008-2018 permitiram verificar um incremento do efectivo relativamente à década anterior, e que este se tem mantido estável em torno dos 1000 indivíduos.

Que cuidados devem ser tomados perante outras aves que estejam mais ameaçadas?
As espécies de aves mais ameaçadas nos Açores são aves marinhas e costeiras e pássaros florestais.
No caso das aves marinhas e costeiras, é muito importante manter as suas colónias livres de predadores, como ratos e gatos assilvestrados, mas também de perturbação humana. A predação por gaivotas também poderá ser relevante nalguns casos e justificar medidas concretas. Nas suas áreas de alimentação, é fundamental que a pesca seja sustentável, nomeadamente que não haja sobrepesca nem recurso a artes que inflijam mortalidade directa.
Quanto aos passeriformes florestais, caso do priolo, é crítico manter as áreas de floresta laurissilva que subsistem e recuperar outras. Tratando-se de aves insectívoras ou que se alimentam de culturas, também é importante moderar a aplicação de fitofármacos, nomeadamente herbicidas e pesticidas.

 

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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