Face a Face...! com Renato Moura

“Abandonei a política quando à minha volta vi (…) ânsia de concentração de poder absoluto”

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Meus pais levaram-me a nascer na Horta, temendo os riscos de saúde, nessa época, nas Flores, para onde voltei dias depois. Vim baptizado com o nome de José Renato Medina Moura. Já lá vão mais de 71 anos.

Fale-nos do seu percurso de vida?
Fiz a escola primária em Santa Cruz das Flores, o então primeiro e segundo ciclo, no Externato da Imaculada Conceição, inaugurado um ano antes. Permitiu-se ali a muitos o acesso à instrução; antes, só os filhos de pais abastados saíam para estudar. Fiz o 3.º ciclo na Horta, na alínea E, para licenciatura em Direito, com a opção clara de exercer advocacia. Tinha dispensa de exame de ingresso na universidade, condições para acesso a bolsa de estudo, boa vontade de meus pais para se endividarem. Adiei por um ano. Entretanto, fui admitido como aspirante na Repartição de Finanças. Gostei do trabalho e de lidar com o direito fiscal daqueles inúmeros códigos e a carreira continuou. Trabalhei em Santa Maria, depois chefiei a Repartição de Finanças de Santa Cruz das Flores. Mais tarde, ascendi por concurso e optei pela Fiscalização Tributária. Trabalhei nas Flores, no Faial e no Pico. Aos 26 anos fui eleito nas Flores, pelo PPD, deputado regional. Não se era deputado a tempo inteiro e continuava-se o exercício da profissão. Foram 16 anos, o último ano e meio como deputado independente. Fui Presidente e relator de várias comissões parlamentares, 1.º Vice-presidente do Grupo Parlamentar. Fui representante da Região na Comissão Luso-Francesa. Terminado o mandato de deputado, honro-me de ter voltado ao exercício da profissão. Eleito pelo PSD, fui Presidente da Assembleia Municipal de Santa Cruz das Flores e pelo CDS fui um mandato membro da Assembleia Municipal da Horta.
Anos mais tarde. aceitei o convite do Alvarino Pinheiro para me filiar no CDS/PP e enfrentei o desafio de colaborar no desenvolvimento do Partido. Fui Vice-presidente do CDS-Açores, Presidente da Comissão Directiva Regional, adjunto do Grupo Parlamentar na Assembleia Legislativa Regional.
Fui membro do grupo que reeditou o Jornal As Flores e seu Director mais de 32 anos. Colaborei regularmente com opinião semanal, durante muitos anos, no jornal Açoriano Oriental e no jornal A União, até à sua derradeira edição. Esporadicamente em outros jornais.
Fui membro e presidi a diferentes órgãos sociais em instituições particulares de solidariedade social, em colectividades desportivas, recreativas e culturais.

Quais as suas responsabilidades?
Sou membro do Conselho Pastoral da Ouvidoria das Flores e há mais de sete anos membro do Conselho Pastoral Diocesano.
Há mais de cinco anos partilho reflexões semanais sobre temas sociais, políticos e religiosos no site Igreja Açores, na defesa de princípios e valores. Há tempo vêm sendo replicadas no jornal O Dever, da ilha do Pico.  

Como descreve a família de hoje?
A família é um elemento essencial da vida e da comunidade.

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
As famílias continuam a existir e, embora constituídas de forma menos tradicional, talvez tenham ainda muito em comum com o passado.

A relação entre pais e filhos é um foco de tensões. Que abordagens devem ser feitas?
Creio que a tensão entre pais e filhos sempre existiu. Contida pela maior parte dos filhos e demasiado ostentada por muitos pais. No presente, a relação é mais aberta e quando bem-intencionada e sincera, se não elimina, pelo menos reduz a tensão. Os pontos de vista dos filhos e a sua leitura da sociedade e dos comportamentos são, naturalmente, diferentes, da tradição dos pais. De meu pai aprendi que os conselhos paternais se dão, especialmente quando pedidos, mas nunca se exige nem sequer se espera aceitação; ficam à inteira liberdade e responsabilidade dos filhos. Creio ser ainda um bom princípio.

Como e quando se deve interferir nas amizades do adolescente?
Interferir creio que não resulta e pode complicar mais. O importante é formar com base em princípios e valores. O caminho é ajudar, serena e cuidadosamente, para eles perceberem onde está o mal.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
Acontece todos os dias. Estão ao nosso serviço cada vez mais instrumentos tecnológicos e mecanismos sociais. Alguns não são positivos. Estamos a ficar mais dependentes deles e vamos sendo formatados sem dar muito por isso. É preocupante estarmos a ficar menos humanos.

Que importância têm os amigos?
Vital e imensa. Mas só os considero amigos se são capazes de dizer-me aquilo que pensam e não aquilo que imaginam eu gostar de ouvir. Tal como faço com eles. O pior é desaparecerem. Agora percebo minha mãe, que viveu até os 87 anos, mas nos últimos se queixava de já não ter amigas.

Que actividades lúdicas gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Já não dá para correr, mas gosto de andar. Passo tempo a escrever. Gosto de conviver e conversar com pessoas que tenham espírito de observação sobre os fenómenos sociais e políticos. Gostava de jogar um King, mas já não há com quem!

Que sonhos alimentou em criança?
Sempre fui talvez demasiado contido. Sabia que meus pais não tinham dinheiro para eu alimentar sonhos irrealizáveis. Nem sequer a bicicleta chegou!

O que mais o incomoda nos outros?
Que as pessoas a quem foram confiadas responsabilidades públicas e sociais não se empenhem com absoluto afinco no cumprimento dos deveres.

Que características mais admira no sexo oposto?
A sensibilidade; aquele sentido que lhes permite perceber aquilo que passa desapercebido aos homens. A alegria. A beleza de carácter que, se associada à beleza física, é ouro sobre azul.
Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Gosto. Mas nem sempre tive tempo para ler quanto gostaria, para não comprometer compromissos e causas tidas como inadiáveis. Só um é difícil. “O verdadeiro poder é servir”, um livro fundamental para entender o Cardeal Jorge Bergoglio e Papa Francisco. “Nenhum Caminho será Longo”, de José Tolentino de Mendonça, lido devagar e sublinhado. “Uma neutralidade atenta”, de Berta Tavares, uma investigação documentada sobre a diplomacia norte-americana e as movimentações independentistas nos Açores em 1975.

Como se relaciona com  as redes sociais?
Fujo da inundação para não me afogar! Não procuro informação nessas redes. Mas é impossível ficar completamente protegido, pois muito daquilo que nelas corre nos chega por uma ou outra via. Estou convicto que esse manancial, muito dele especulativo ou falso, influencia e prejudica muita gente.  

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
São avanços civilizacionais que depois se tornam imprescindíveis. Mas sou um pequeno consumidor. Outrora, nunca fui levado pela publicidade do “não vá, telefone”. Ainda hoje, se é possível, prefiro sempre ir, em vez de usar o telemóvel. A utilidade da internet é inegável, mas ficar sobre ela a todas as horas é uma alienação. Especialmente durante a pandemia, as notícias, boatos e mentiras divulgadas pela internet e redes sociais, como se fossem estudos científicos, produziram efeitos maléficos, principalmente nas pessoas sem capacidade para distinguir o trigo do joio.   

Costuma ler jornais?
Leio. Os de papel não se vendem por aqui e vêm tarde pelos CTT. Porém, ler jornais na internet não é a mesma coisa.

Que noticia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Que fora descoberta a cura para a Alzheimer e outras demências.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Sim. Hoje arrependo-me de não ter tornado em direito o gozo de férias nas várias actividades e viajado mais. De avião, numa das poucas visitas oficiais em que participei, gostei de ir à URSS. Viagens terrestres, as efectuadas através do nosso país, com incursões na vizinha Espanha, conhecendo património edificado e paisagístico, repousando, saboreando a gastronomia local. Por mar, foram os cruzeiros no Mediterrâneo e aos países nórdicos.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Mais carne do que peixe. Em cada terra gosto de experimentar as especialidades locais. Por cá, gosto muito de polvo à açoriana; de linguiça caseira com ovo, inhames e batata-doce frita. Em S. Miguel o bife à Alcídes é imperdível.

Qual a máxima que o inspira?
Gostaria de deixar o mundo um pouco melhor do que o recebi. Já antes de ser escuteiro pensava assim.

Em que Época gostaria de ter vivido?
Exactamente nesta. Foi muito útil ser criança numa época difícil, em que minha mãe era doméstica e meu pai um pequeníssimo agricultor com pouca terra e apenas duas vaquinhas, depois carteiro nos CTT. Aprendi a não recusar qualquer comida, a ter roupa resultante de aproveitamento de tecido de outras. Nunca tive triciclo e os melhores brinquedos vieram na saca da América. Estudar no Faial com despesas justificadas e uma verba muito pequenina para os extras, conforme a disponibilidade familiar. Aprendi para a vida a viver com o que se tem.

O que pensa da política e dos políticos açorianos de hoje?  
Sempre considerei a política como uma actividade nobre e indispensável ao desenvolvimento e progresso. E sempre assim a procurei exercer aos diversos níveis. Aos políticos exige-se disponibilidade para ouvir e interpretar os legítimos desejos dos eleitores, inventariar as carências gerais, mas principalmente as do respectivo círculo. Há que ter discernimento para imaginar as soluções e coragem para lutar pela resolução dos problemas. Cumprir todos os deveres e explorar os poderes conferidos pela lei; e exigir que os demais também os cumpram e exerçam, sem receio de acompanhar, fiscalizar e, sempre que necessário, denunciar.
Passei a deputado independente na sequência de uma luta persistente e longa pelo cumprimento de muitos compromissos exigidos por mim e assumidos e publicados em Jornal Oficial pelo Governo Regional, mas que se arrastavam sem concretização. Na intervenção que então proferi e consta do Diário da Assembleia Legislativa Regional de 29 de Maio de 1991, não só mencionei esses incumprimentos, mas denunciei que o Grupo Parlamentar do PSD estava afectado – e por ser maioritário na própria Assembleia Legislativa Regional – pela inversão do princípio constitucional e estatutário da responsabilidade do Governo perante a Assembleia. Sendo o Presidente do Governo o Presidente do PSD, usava desta qualidade para submeter a Assembleia à vontade do Governo. Até ao fim da legislatura, o Governo já não pôde contar com maioria garantida sem condições, mas não permiti que se perdesse a estabilidade governativa. O PSD não aproveitou para reflectir e corrigir. Retomou a arrogância na legislatura seguinte e caiu para a oposição durante 24 anos.
O pior é que a subordinação da Assembleia perante o Governo veio a verificar-se novamente depois, ainda que com outros protagonistas, desta feita o Partido Socialista. Erros idênticos de condução política e arrogância levaram o PS a perder as últimas eleições, ainda que sem o PSD as ganhar.
Levei muitos anos a defender o papel e a acção dos deputados. Cada vez é mais difícil contrariar as críticas. Na verdade, os primeiros anos de autonomia foram exemplares. Antes do Governo enfrentar mensalmente a oposição em Plenário, o primeiro confronto dos governantes era perante o Grupo Parlamentar do PPD/PSD, onde nem todos afinavam pelo mesmo diapasão e muitos tinham a coragem de contradizer, propor alternativas e até evitar erros. Creio que essa praxe caiu há muitos anos.

Há políticos a mais nos Açores?
O CDS, em tempos, propôs uma solução para tornar a Assembleia mais barata e com mais deputados. Passava por reduzir o número de deputados permanentemente afectos ao trabalho parlamentar, cabendo a esses o trabalho de Comissões. Os demais deputados vinham apenas aos Plenários, trazendo o sentir das populações, recolhido no dia-a-dia, no exercício das suas profissões, no seu círculo, e regressavam. Isso permitiria haver mais deputados com qualificações diversas.
Creio que há políticos a mais, mas o maior problema não é só esse. É que sendo muitos, fazem menos do que se esperaria. Há, porém, quem trabalhe muito e bem e esses até ganham pouco. O pior é os outros que comprovadamente estragam a imagem. E o resultado é os eleitores a exigirem a redução do número de deputados. Por incrível que pareça, é o povo a exigir menos representantes seus, mas habitualmente não se insurge contra o tamanho do Governo e de toda a máquina da Administração Regional, que cresce desmesuradamente, sem aumento de eficiência!
Estar na política é servir e não servir-se. Abandonei a política quando à minha volta vi desumanidade, prepotência, arrogância, promoção pessoal, ânsia de concentração de poder absoluto.

Que análise faz à situação política regional?
Preocupado. Sou do tempo em que se defendia e acreditava no desenvolvimento harmónico das ilhas. Hoje o que vejo, apesar da conversa das ilhas de coesão e outras balelas, é a desertificação das Flores e de outras ilhas. E no actual Programa de Governo, como já partilhei para reflexão pública, só li cinco vezes a palavra desertificação!

Enquanto cidadão, acredita no actual Governo dos Açores resultante da aliança entre PSD/CDSPP/PPM com acordos parlamentares com o Iniciativa Liberal e o Chega? É um Governo para durar? E o PSD/A terá de “engolir” alguns elefantes?
É certo que estamos num regime parlamentar puro e no Parlamento se formam as maiorias de deputados. Outra coisa, e isso só eles saberão, é como passaram de um duro embate entre si, para uma convergência dita fácil e rápida. E aparentemente com alguém a jogar em dois tabuleiros!
É uma coordenação difícil, sem dúvida. Não só na Assembleia como no Governo. Passei por uma experiência de mero apoio parlamentar ao Governo PS e nem isso era fácil.
Muitos pensam que o barro que os une é, para uns, o poder e, para outros, os lugares de deputados. Um dos riscos sérios no Governo está no desequilíbrio de poderes, no uso e abuso de força de algum entre os parceiros e ou na subtracção de coordenação do Presidente do Governo.
Engolir elefantes? Há militantes do PSD que estão com eles atravessados na garganta. As estruturas do PSD talvez ainda estejam deslumbradas com o regresso ao poder (só a parte do poder, diga-se!), mas quando a euforia assentar, creio que não perceberão como se distribuíram os poderes dentro do Governo.

Como é viver um ano de pandemia com eleições pelo meio? Comunga da opinião de que não deveria ter havido eleições? Porquê?
Não sou dessa opinião. As campanhas eleitorais são cada vez menos pessoais e para mandar uns papéis coloridos com letra miúda para casa das pessoas, qualquer altura serve. O tempo em que os candidatos se expunham em verdadeiras sessões de esclarecimento, contacto directo com disponibilidade para esclarecer, ou os recandidatos ouvirem críticas, infelizmente já foi.

Qual a sua opinião sobre o ensino à distância a que se recorre por causa da pandemia da Covid-19, face à falta do nível educacional de muitos pais e da falta de meios?
Muito penalizadora. Dir-se-á que é melhor que nada. Mesmo o ensino presencial, com o volume dos trabalhos para casa, já penalizava muito os filhos de pais com menor nível educacional; as maiores vítimas são agora estes mesmos.

Haverá menos turismo para os Açores sem o Grupo SATA?  
Verdadeiramente ainda não percebi qual o futuro da SATA. Sempre tive a convicção que a situação se agravou facilitando a vinda de turistas para tentar salvar o turismo. Abriu-se um buraco para tentar tapar outro e nem sequer o turismo derramou para toda a Região.

Qual a sua opinião sobre a decisão do Governo de permitir a qualquer açoriano, seja qual for a ilha de residência, de poder voar para a ilha das Flores a 60 euros a passagem?
Parece-me uma medida positiva no sentido de, neste custo, tratar de forma igual todos os açorianos. Como nem todas as ilhas podem ter ligações directas com o continente, falta estabelecer horários que permitam a todos os açorianos a igualdade de chegarem ao continente no dia em que partem da sua ilha.

Passou a haver mais pobres nos Açores que as estatísticas não mostram?...
Gostaria de ver um levantamento actualizado, sério e credível, sobre emprego e desemprego, actividades ocupacionais, beneficiários de rendimento social de inserção. Também sobre o nível e localização da verdadeira pobreza, que infelizmente não é apenas de dinheiro, mas de meios e recursos para a inverter: ensinando a pescar, em vez de dar o peixe.

O processo de reconstrução do porto das Lajes das Flores destruído pelo Lorenzo podia ser mais célere? Quer explicar?
A localização do porto das Lajes das Flores foi um erro político grave. Não se podem fazer portos nos Açores onde não há baía. Há teimosias pelas quais ficam a pagar gerações. Foram sucessivas destruições durante a construção. Durante o Lorenzo e de lá para cá, é fazer e ver destruir. Só Deus sabe por quantos anos, infelizmente.

Que perspectiva tem da Igreja nos Açores, nos dias de hoje? E o que pode ser feito para haver mais Igreja na Região?
Já todos percebemos que a Igreja nos Açores assiste a um fenómeno preocupante de afastamento dos fiéis da prática religiosa. Temos uma ideia de alguns problemas que estarão na origem dessa crise, resultado duma análise trabalhada e obtida sobretudo dentro das estruturas da Igreja. Para que a Caminhada Sinodal promovida pela Diocese possa ter sucesso, parece-me indispensável, como disse no local próprio, também um levantamento de base científica feito na rua, principalmente junto daqueles que estão afastados. Os resultados podem doer; mas só o diagnóstico perfeito das doenças permite um tratamento eficaz.

Tem algo mais que considere importante abordar no âmbito desta entrevista?
Louvar a rubrica do Correio dos Açores. E agradecer.                                          

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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