Cerveja artesanal Korisca teve quebra de 20% em 2020 mas vai continuar a inovar

Como surgiu a ideia de criar uma cerveja artesanal nos Açores?
O meu marido foi marinheiro, fez bastantes comissões nos Açores e sempre gostou muito da Região. Criamos inicialmente uma empresa de peças usadas para automóveis, sempre gostamos de realizar novos investimentos e tentamos perceber, junto do nosso contabilista, qual seria a área em que podíamos investir nos Açores. Após várias consultas, ele indicou-nos uma pessoa amiga que fazia cerveja artesanal em casa e que isso poderia eventualmente ser uma boa aposta. Conhecemos a pessoa, provamos as cervejas e gostamos. Fizemos uma prospecção de mercado e optamos por avançar. Essa pessoa esteve a trabalhar connosco durante algum tempo mas, também devido à sua idade, optou por sair. Foi de comum acordo. Isto começou basicamente pela vontade de investir nos Açores, que é uma zona de que gostamos muito e aonde vimos todos os anos.

Esta é uma área muito diferente daquela a que estavam habituados…
Completamente diferente. Novos conhecimentos e novas formas de ver as coisas. É verdade que éramos apreciadores de cerveja, mas não tínhamos noção de como é que as mesmas seriam fabricadas. Isto era uma área totalmente diferente da nossa e aqui temos de começar desde o início. Desde comprar a matéria-prima, os equipamentos adequados e proceder à sua fabricação. Claro que para isso tivemos de ter várias formações para conseguirmos chegar, pelo menos, a um nível razoável de conhecimento

Que matérias-primas utilizam para o fabrico da cerveja?
Temos a cevada e vários maltes. Depois o trigo e também os lúpulos que vão dar o aroma e o amargo a cada tipo de cerveja. Optamos por fazer as Ale, que têm uma fermentação a uma temperatura mais elevada, mas sempre com o conhecimento e sempre com formação dada por alguém já com bases e que nos ajudasse a progredir. A nossa matéria-prima vem toda da Bélgica.

Sentem dificuldades em fazer chegar essa matéria-prima à Região?
Apenas em termos de tempo, porque temos de fretar o transporte da mercadoria primeiro para o continente. Não se pode enviar directamente da Bélgica para os Açores. O timing é sempre maior do que se tivéssemos a matéria-prima cá. Da Bélgica para Lisboa, desde a encomenda à preparação da mesma e entrega no continente, entre 15 dias a 3 semanas. Depois disso são mais 8 dias até chegar a São Miguel.

Qual o investimento feito para arrancar com este projecto?
Todo o nosso equipamento foi comprado em Inglaterra e a pessoa que nos vendeu o material, veio fazer toda a montagem da fábrica. Na altura, o investimento, só dos equipamentos, foi à volta de 50 ou 60 mil euros. Mas a fábrica não se baseia só no equipamento. Tem também todas as instalações eléctricas que tiveram de ser alteradas. Para termos filtração de água tivemos de colocar filtros especiais para realizar todo o processo nas devidas condições.

Quantas pessoas trabalham actualmente na empresa?
Na fabricação temos um único funcionário e temos um outro colaborador que ajuda também nesse processo. Depois estou eu e o meu marido.

Fale-nos um pouco da escolha do nome Korisca. De onde surgiu a ideia?
Fizemos uma pesquisa dos nomes que eventualmente se poderiam adequar à cerveja, mas queríamos alguma coisa que tivesse a ver com os Açores. Como também não tínhamos qualquer experiência na fabricação de cerveja, optamos pelo nome Korisca. Pelo que sabemos, corisca é um termo tipicamente açoriano, que quer dizer atrevida, malandra. Achamos que era um atrevimento da nossa parte iniciar este processo, criar uma fábrica quando não tínhamos qualquer conhecimento.

Qual é presentemente a vossa capacidade de produção? Que tipo de cerveja têm?
Neste momento temos oito cervejas. Com a que fabricamos para a Associação Agrícola são nove. Temos fermentadores de 1,200 litros que dão para uma produção de 3.100 a 3.200 garrafas diárias. Só conseguimos fazer uma produção destas por dia.

Presumo que nesta época de pandemia estejam a produzir menos…
Bastante menos. Este ano fizemos uma fabricação em Janeiro porque tínhamos uma das cervejas com o stock a terminar e então optamos por fazer a fabricação de um estilo de cerveja que é a APA. Em todas as outras temos neste momento produto disponível e com validade.

As vossas vendas caíram durante a pandemia?
As vendas caíram bastante, até porque a restauração esteve encerrada e com algumas restrições, não só na ilha como também no continente. Vendemos a cerveja aos particulares que a pretendam, mas a venda em bruto será sempre para a restauração ou para pontos de revenda. Muitos turistas optavam também pela nossa cerveja e compravam-na na nossa fábrica. Tudo isso fez com que se registasse uma quebra nas vendas. Neste momento já se nota uma alteração, tanto em São Miguel como no continente, e já que temos recebido mais encomendas mas ainda não chegamos ao nível que queremos. Tivemos uma quebra no ano passado de cerca de 20%.

Um dos vossos principais clientes é a Associação Agrícola de São Miguel?
É o principal, no sentido de produzirmos uma cerveja específica para eles. Para a Associação Agrícola de São Miguel só vendemos a cerveja deles, ou seja, a cerveja que nos foi encomendada. É uma receita específica para eles, com rótulos deles, mas todo o processo é feito por nós.

Como surgiu esta parceria?
Surgiu praticamente no inicio. Apresentamos-lhes uma receita e eles gostaram. Foi aceite e optamos por fazer esta cerveja só para eles e tem-se mantido. Já fizemos algumas melhorias, nomeadamente ao nível da filtração para que a cerveja não vá com tanto resíduo. A cerveja artesanal cria sempre mais resíduo no fundo devido ao fermento e, para evitar isso, tivemos formações e a cerveja já está mais límpida. Esperamos continuar com esta parceria. A cerveja foi bem aceite e os clientes da Associação aderiram bem.

Quais são os vossos principais mercados?
Neste momento podemos dizer que 90% dos nossos clientes são do mercado açoriano. Este ano, apesar da pandemia, já adquirimos novos clientes no continente, para onde temos estado a vender bem.

Qual a reacção dos vossos clientes no continente quando lhes é dito que a cerveja é dos Açores?
A reacção tem sido bastante agradável, as pessoas têm gostado e acham graça ao nome. É um nome que cativa, que causa curiosidade e também alguma expectativa.

Quais são as características que distinguem a vossa cerveja das outras artesanais?
Apesar de sermos muito novos nesta área conseguimos equipararmo-nos com cervejas que já têm algum tempo no ramo. Nós optamos por escolher os melhores produtos, independentemente do custo e claro que isso se reflecte um pouco no valor da cerveja, mas pretendemos sempre que o produto seja de qualidade. As nossas cervejas custam entre 2,40 e 2,50 euros.

No futuro estão a pensar criar novas cervejas? Querem chegar a novos mercados?
Temos sempre vontade de inovar e iremos tentar produzir um novo estilo de cerveja. Mas vamos esperar que esta situação pandémica passe. Futuramente temos de melhorar as condições da fábrica e também criar novos estilos de cerveja. Quanto aos mercados, não estamos só a pensar nas ilhas e continente, mas também noutros países. Já vendemos para a Suíça e estamos a tentar entrar noutros mercados dentro da Europa.
                                                  

Luís Lobão

 

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima