Rodrigo Vaz - Um açoriano que nasceu em Leiria e está na representação Permanente de Portugal em Bruxelas

Em tempo de pandemia, a superação dos novos desafios impostos à União Europeia são a diplomacia e negociação

Sendo, desde que se lembra, interessado pela política europeia e pela sua ligação aos mais diversos aspectos das relações internacionais, Rodrigo Vaz, um “açoriano” nascido em Leiria, viria em 2017 a fazer da Bélgica a sua casa, quando foi escolhido para integrar um estágio na Assembleia das Regiões Europeias e quando passou pelo Colégio da Europa, experiências estas que lhe permitem hoje integrar a Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia (UE), no âmbito da Presidência Portuguesa do Conselho da UE.
Apesar de ter nascido em Portugal continental, os laços da família materna à ilha de São Miguel trá-lo-iam para os Açores ainda em tenra idade, motivo pelo qual se considera, acima de tudo, açoriano, tendo vivido entre Vila Franca do Campo e Ponta Delgada, onde estudou na Escola Secundária Antero de Quental, até se mudar para Lisboa aos 18 anos de idade para continuar os estudos no ensino superior.
Depois de deixar a ilha de forma mais permanente, para iniciar uma licenciatura em Relações Internacionais numa universidade na capital portuguesa, seguiu-se a aventura de uma vida em Londres, cidade que escolheu para fazer o seu primeiro mestrado em Política Africana, na Faculdade de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres (SOAS), que incluiu “um período de investigação do leste África, entre Quénia, Somália e Tanzânia”.
Após esta experiência na Universidade de Londres, em 2017 Rodrigo Vaz partiria para a cidade de Bruxelas, capital da Bélgica, onde viria a fazer um estágio na Assembleia das Regiões Europeias, oportunidade esta que lhe permitiria, “enquanto açoriano, entender melhor as dinâmicas da política da UE em relação às regiões, algo que marca as nossas vidas de forma indelével”, salienta.
Mais tarde, em Setembro desse mesmo ano, ingressaria no Colégio da Europa, beneficiando da Bolsa Medeiros Ferreira atribuída pelo Governo Regional dos Açores, onde teve a oportunidade de brilhar através da sua segunda tese de mestrado, debruçando-se de novo sobre o tema da Política Internacional e Diplomacia, sempre fascinado com as relações estabelecidas entre a União Europeia e África.
Com este trabalho, o jovem açoriano viria a ser destacado como “a melhor dissertação sobre as relações UE-África”, o que lhe garantiria uma experiência no Centro Europeu de Gerenciamento de Políticas de Desenvolvimento, conhecido pela sigla ECDPM e por ser “um think tank de referência que se dedica precisamente a esse tema”, diz ainda.
Em relação à experiência de estudar no Colégio da Europa em concreto, afirma que este foi “um privilégio e uma experiência que pode apenas recomendar”, tendo em conta que para além do destaque acima mencionado, permitiu-lhe também ter acesso “a uma educação de referência sobre assuntos europeus e amigos para a vida – dois aspectos que fazem qualquer experiência valer a pena”. Por esse motivo, espera que a Bolsa Medeiros Ferreira continue a existir e a permitir que “jovens açorianos com interesse por estas áreas prossigam os seus estudos numa instituição como o Colégio da Europa”.

Um trabalho que requer “atenção ao 
detalhe, coordenação e diplomacia”

De momento, o seu trabalho na Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia permite-lhe acompanhar “com particular detalhe, as políticas de transportes”, salientando que o seu principal desafio diário passa por “desenhar propostas que mereçam o apoio dos 27 Estados membros”, uma “tarefa que requer atenção ao detalhe, coordenação e, claro, um certo grau de diplomacia e capacidade de negociação”, algo que considera ser um estímulo muito interessante.
Com a chegada da pandemia ao território europeu, surgem também novos desafios para os Estados membros da UE e, na opinião de Rodrigo Vaz, a primeira lição a retirar da pandemia passa precisamente pela “necessidade de coordenação” premente, referindo que “todos reconhecem que, em determinadas alturas, os Estados-membros podiam ter agido de forma mais articulada”.
A título de exemplo, salienta a imposição de restrições à mobilidade dentro da União Europeia: “Com o nobre impulso de proteger as suas populações, pôs-se em prática uma série de medidas – o exigir de testes diferentes, de declarações diferentes, ou simplesmente a proibição de voos entre vários países – em desarticulação com os restantes Estados-membros, o que pouco contribuiu para travar o alastrar da pandemia. No entanto, diria que essa lição foi por todos assimilada. Caminhamos, hoje, na direcção certa e há esforços redobrados para que as medidas tomadas a nível nacional – e impulsionados a nível da União – evitem os erros do passado”, diz.
A título pessoal, refere que a pandemia afectou-o da mesma forma que afectou grande parte da população, participando desde há um ano em importantes reuniões através de videoconferência, formato que “pode não permitir avançar tão rapidamente nas negociações como por vezes gostaríamos”.
No entanto, olhando para o lado positivo do teletrabalho e desta nova rotina, Rodrigo Vaz considera que “é notável que as soluções tecnológicas de que dispomos nos permitam continuar o nosso trabalho, algo que há 10 anos seria impossível” e condicionaria de muita maneira o trabalho desempenhado pela União Europeia de uma forma geral.
Questionado se pretende continuar a trabalhar ao serviço de Portugal e da comunidade europeia, Rodrigo Vaz refere que “servir o seu país é – e será sempre – uma honra e privilégio”, tal como servir a União Europeia, “uma comunidade de países em que acredito verdadeiramente e que constitui a melhor solução para a nossa paz e prosperidade mútua”, salientando que está, para já, “focado no exigente desafio profissional” que tem pela frente e que “o preenche”. Contudo, mais tarde, não coloca de parte a hipótese de voltar à academia.
No que diz respeito à sua adaptação ao chamado coração da Europa, o açoriano considera que esta foi “relativamente simples”, já que nos anos anteriores à sua mudança tinha já tido a oportunidade de viver em vários sítios diferentes, nomeadamente Londres, Nairobi e Barcelona. Em acréscimo, conta que tinha em Bruxelas vários amigos que ajudaram na sua integração, e que graças a eles já se sentia “em casa” ao fim de apenas algumas semanas.

Regresso mais definitivo aos Açores 
não está fora das opções

Quanto a um regresso mais definitivo aos Açores, é algo que não coloca de parte por completo, desde que a oportunidade certa se proporcione, embora não esteja nos seus “planos imediatos”. Porém, pelo menos por enquanto, considera que é natural que “o perfil económico dos Açores” facilite a emigração de açorianos para outras partes do globo, tendência esta que, acredita, esteja a diminuir.
“Diria que essa tendência tem vindo a diminuir nos últimos anos, em grande parte, porque o próprio perfil dos Açores também tem vindo a conhecer alterações. Os Açores mantêm-se como uma região com enorme potencial. Espero que o futuro traga o cumprimento desse potencial. A periferia é uma marca indelével, e a geografia é inalterável. Mas sinto, de cada vez que regresso, que a Região está cada vez mais “ligada” ao exterior”, explica.
Entretanto, por mais realizado e integrado que esteja em Bruxelas, refere que é nos Açores que encontra o verdadeiro sentido da palavra “casa”, onde procura regressar pelo menos uma ou duas vezes por ano. Contudo, devido à pandemia, viu-se obrigado a passar o último Natal fora de casa pela primeira vez, algo que espera que seja “uma vez sem exemplo”, para que tenha oportunidade de “continuar a actualizar” as suas memórias em relação a São Miguel, de onde guarda as melhores memórias da sua infância, dos tempos de escola e dos amigos feitos na ilha.
Joana Medeiros
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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