Entrevista com Rui Correia, Presidente da Associação de Alojamentos Locais

Pandemia fechou no espaço de um ano 30% das camas dos Alojamentos Locais dos Açores

 O Presidente da Associação de Alojamento Local dos Açores, Rui Correia,  afirmou ao Correio dos Açores que a falta de clientes, devido ao embate da pandemia, continua a fechar Alojamentos Locais nos Açores e incentiva os resistentes a manterem-se firmes porque, em seu entender, “o turismo vai voltar à Região”. O que é um facto é que, no espaço de um ano desapareceram 30% das camas disponibilizadas pelo Alojamento Local no arquipélago e os sinais que existem nos mercados emissores não são muito animadores e a situação pode mesmo agravar-se ao longo de 2021, sobretudo, porque a aplicação da vacina contra o vírus, por exemplo, no continente (principal mercado dos Açores), está a ficar aquém das expectativas.  


Qual a situação em que se encontra o Alojamento Local nos Açores?
Rui Correia (Presidente da Associação de Alojamento Local dos Açores) - Estamos ainda com muitas dificuldades. As perspectivas ainda não são muito animadoras. Apesar de já termos algumas reservas, face à grande indefinição ao nível da vacinação, seja na Região, no país ou mesmo nos mercados emissores, as pessoas ainda estão na expectativa de perceber o que irá ser o Verão. 
Vamos ter uma época alta (se é que podemos chamar de época alta) mais curta. Ainda há também alguma indefinição quanto a alguns programas do Governo que, ao que parece, vão ser renovados. Mas não sabemos se será nos mesmos termos ou não. Estamos a falar no programa ‘Viver os Açores’ que mostrou no Verão passado ter sido muito interessante, essencialmente, para as ilhas mais pequenas, mas com muito pouco impacto nas ilhas maiores, como São Miguel e Terceira. 
A realidade é que se perspectiva uma perda de camas de algumas pessoas que irão abandonar o negócio de Alojamento Local. E também não se sabe quais serão as consequências do fim das moratórias bancárias para aqueles que contraíram empréstimos para investir.
Há uma série de indefinições que acabam por criar alguma dúvida sobre como será este ano em termos turísticos. 
Já tivemos uma altura do ano em que entendíamos que iria ser melhor do que 2020. Já entendemos que iria ser pior. Acho que se já for igual a 2020, já será um mal menor. 


O que está a dizer é que 2021 pode ser pior…
Em certa medida, sim. O pior é a saída de algumas pessoas do negócio de Alojamento Local. Nós temos de pensar que, mais cedo ou mais tarde, vai haver retoma, mais cedo ou mais tarde, vamos voltar a ter o turismo nos Açores. 
Mas esta não é só uma preocupação nossa. É uma preocupação do mundo inteiro. E o facto é que há outros países e outras regiões que se estão a preparar para a retoma e, na Região, ainda não há sinais sobre o que é que seremos. O que sabemos é que a pandemia nos irá obrigar a repensar alguma estratégia.
No Alojamento Local, a nossa estratégia já era a da descentralização, a construção de unidades turísticas mais pequenas, a fixação das pessoas nas ilhas de menor dimensão. E, para isso, é preciso que se mude o paradigma.
Nós já andávamos a dizer isso há algum tempo e a pandemia veio reforçar claramente que a nossa estratégia é a mais correcta. 
Sabemos, inclusive que algumas agências de viagens que, por norma, não trabalhavam com o Alojamento Local, neste momento começam a estar viradas para o Alojamento Local. Até porque os poucos clientes que ainda estão a comprar, estão a solicitar alojamento local ou, então, unidades turísticas isoladas. E as agências de viagens estão a adaptar-se aos novos conceitos de alojamento dos seus clientes.
Esta é uma mudança de conceito e de paradigma do negócio das agências de viagens e é compreensível que assim seja. E, felizmente, estamos cá para dar esta resposta. 
O Alojamento Local deu uma resposta fantástica quando ocorreu o boom do turismo. De um momento para o outro, nós é que conseguimos aumentar o número de camas disponíveis nos Açores. E, neste momento, continuamos a ser nós a dar a resposta pela procura – a pouca que existe – por este tipo de unidades. 
Daí que tenho dito que é importante que, nos Açores, se defina a estratégia de uma vez por todas. Houve, em outros tempos, uma tentativa de criar um certo garrote, de criar algumas medidas mais restritivas ao Alojamento Local que, agora, não fazem sentido nenhum.
O que deve haver é medidas claras e simples de apoio ao Alojamento Local, à descentralização, à distribuição de riqueza, seja por via da ‘bazuca’, seja por via do novo Quadro Comunitário de Apoio. Temos que passar a ser elegíveis para os apoios comunitários. Temos que adaptar ainda mais as regras ao Alojamento Local, às novas realidades, à preocupação com a sustentabilidade, e à transição digital.
Nós já demos provas que conseguimos fazer o que fazemos muito bem sem qualquer tipo de ajudas do Estado. Mas, se tivéssemos um ‘pequeno carinho’, até iríamos investir mais e podemos ir mais longe distribuindo riqueza por mais açorianos.
Temos uma preocupação do futuro a médio e a longo prazo. Não é apenas para este ano.

Qual a sua opinião sobre os investimentos que estão ser anunciados para a construção de novos hotéis?
A nossa opinião é a de sempre. Eu acredito que, por questões legais, não haja forma de evitar o aparecimento destes investimentos. Talvez não seja possível, dada a legislação, dado o fim do quadro comunitário e a suspensão do POTRAA. Mas também estou em crer que tanto o antigo Executivo regional, como o actual, já perceberam que o caminho não pode ser este de mais grandes hotéis. 

É contra a construção de novos hotéis nos Açores?
Eu sou totalmente contra à incongruência da política do turismo na Região. Isto é, por um lado quer-se apostar num turismo de proximidade, natureza, unidades pequenas, sustentabilidade, na defesa do ambiente, e em sentido totalmente contrário, aparecem estas novas unidades hoteleiras que, obviamente, toda a gente tem a consciência de que dificilmente se encaixariam em parâmetros mais restritivos. 
Dentro da hotelaria, os próprios hoteleiros e os seus representantes já vieram dizer, por mais do que uma vez, que muitos hotéis vão estar fechados  e que a retoma vai ser gradual. Muitos têm a consciência de que o início desta retoma se vai fazer por unidades hoteleiras pequenas, isoladas, e pelo Alojamento Local, obrigando alguns hotéis maiores a manterem-se fechados mais tempo. Não estou a fazer futurismo. Só estou a basear-me naquilo que eles dizem e naquilo que foi a consequência da última crise em que houve hotéis que fecharam e levaram muitos anos a voltar a abrir. Portanto, vamos aprender com os erros do passado. 
Eu gostava era de saber qual a opinião dos hoteleiros que existem, que já estão implementados na Região e que são uma mais-valia para os Açores, sobre estes novos investimentos na hotelaria. Se calhar, não é bom para os próprios hoteleiros e para os hotéis que já existem na Região que apareçam mais unidades da dimensão que se tem anunciado. Esta é a minha perspectiva, mas só eles é que podem dizer. 
Agora, no nosso caso, o que sabemos é que estes hotéis só são construídos mediante subsídios elevadíssimos. São milhões de euros e com estes milhões, provavelmente, fazíamos uma melhoria qualitativa de muitos Alojamentos Locais por todos os Açores. Não se concentrava milhões, apenas e só naquela nova unidade hoteleira. E havia uma maior distribuição de riqueza pelos Açores. É por aí que nós somos contra. 
Somos contra o facto de continuarmos a investir, em termos os apoios que vêm da União Europeia e do Orçamento da Região, para mais do mesmo. E os Alojamentos Locais continuam a não ser elegíveis para muitos destes apoios. É nesta perspectiva que somos contra. Não somos contra os hotéis. Que se acabe com esta ideia que algumas pessoas têm. E sabemos que há turistas que preferem os hotéis. Mas há bons e maus exemplos de hotéis nos Açores.
Nós, no Alojamento Local, somos muito mais flexíveis. Quem abandona, ou vende ou passa a ocupar o imóvel, ou pode ir para o mercado do arrendamento apesar das dificuldades que ele também acarreta. Mas temos muito mais alternativas caso o negócio da nossa unidade de Alojamento Local não corra bem. Num hotel o que é que acontece? Fecha e fica lá. 

Qual o número de Alojamentos Locais que desapareceram, no último ano, nos Açores, devido à pandemia?
Nós continuamos com uma taxa de abandono na casa dos 10%. No entanto, a listagem – e já dissemos isto à Direcção Regional do Turismo – carece de ser revista. Isto porque, actualmente, não há nenhum mecanismo na portaria que regulamenta a actividade de Alojamento Local nos Açores que leve à obrigação de dar “baixa” do registo. Sabemos de casos de pessoas que, inclusive, já venderam os seus imóveis e estas pessoas continuam a constar da listagem oficial. Até porque, depois, parece que estas pessoas estão em incumprimento e, na verdade, não estão porque deixam de enviar estatísticas, ainda contam para o número de camas, mas estão a distorcer a realidade. Entendemos que o que é importante é trabalhar com os números correctos. Isso para podermos tomar decisões correctas a bem do turismo. E há, claramente, alguma dúvida sobre se todos os Alojamentos Locais que estão na lista oficial, estão efectivamente a exercer esta actividade de Alojamento Local. 

Há, assim, uma certa incerteza sobre o número de Alojamentos Locais que existem actualmente nos Açores?
Sim, há. Com muita pena nossa, o facto é que não há um Portal onde houvesse um registo factual do número de Alojamentos Locais existentes na Região. 
As listagens existem, mas são uma consequência de umas folhas Excel. É apenas isso. Por muita boa vontade que haja da parte dos técnicos, eu entendo que não é fácil manter os dados actualizados. Daí que fizemos uma proposta: Porque é que não se cria um Portal de registo e um mecanismo de obrigação de quem já não está no negócio, a cancelar o seu registo.
Eu se quiser, por algum motivo, alterar os meus dados que lá estão, não há um mecanismo simples e automático. Temos que mandar um e-mail para a Direcção Regional. E temos de dar prova de que somos o novo titular. 
Entendemos que, tal como existe a nível nacional, é tempo de haver na Região uma base de dados que teria todas as informações sobre o Alojamento Local, (possíveis ao abrigo do regulamento da protecção de dados) e que estaria disponível para todos. 
Nesta base de dados deverá constar as coordenadas geográficas de cada Alojamento Local. Há situações em que há turistas que julgam que aquele Alojamento Local é ilegal, o que dá origem a uma denúncia e, depois, vem-se a verificar que, na verdade, não é ilegal. 
Se houver uma base de dados com o cadastro de todos os Alojamentos Locais dos Açores devidamente identificados, registados e localizados, seria muito importante para a tomada de decisão de apoios ou medidas que o Governo possa tomar.
Não se trata de um portal de reservas. Não é isso que estamos a defender. Para entrarem na base de dados, os responsáveis do Alojamento Local teriam uma senha, uma password para actualizarem os seus dados. Se não o fizer, a culpa é sua. Será sempre numa perspectiva de responsabilidade mútua. Um portal desta natureza seria muito benéfico para ambas as partes.

Em Março de 2020, havia quantos Alojamentos Locais nos Açores?
A estimativa que tínhamos era de andar à volta dos 2.800. 

E hoje qual é a estimativa?
Olhe, eu não lhe consigo dizer. Não acredito que todos os Alojamentos Locais que estão registados na Região estejam a exercer a actividade. Temos de distinguir que uma coisa é ter o registo; outra coisa é ter o registo e estar activo e ainda outra coisa é ter o registo, estar activo e estar disponível para receber reservas. É tudo completamente diferente. Se estivermos a falar em camas disponíveis, não é muito fácil dizer quantas camas estão disponíveis por via do Alojamento Local. No portal do Governo estão as listagens de todas as ilhas mas eu olho e digo: não tenho a certeza se toda esta gente esteja aberta e a receber reservas.

Disse que no início de 2020 haviam 2.800 Alojamentos Locais. Disse que a quebra no número de Alojamentos Locais é de 10%...
Pelas últimas contas que fizemos, em 2020 a taxa de abandono já está a chegar próximo dos 10%. 

Isto quer dizer o quê?
Neste momento, não consigo dizer quantos Alojamentos Locais existem nos Açores. 

Fecharam 30 alojamentos locais num ano na Região?
Não, nos Açores fecharam mais do que isso. Mas não consigo precisar quantos fecharam.  

Fecharam 100 alojamentos locais num ano?
Não posso dizer isto. O que posso apenas dizer é, com base num inquérito que elaboramos em Novembro de 2020, que a manter-se o cenário negro, nós tínhamos uma estimativa próxima de 30% de abandono no número de camas. Traçamos uma perspectiva para o ano de 2021 que, se calhar, estão um pouco piores. Poderíamos estar aqui a perspectivar uma perda de camas próximo dos 30%.

Em paralelo com esta perda do número de camas, há investimentos a decorrer em Alojamentos Locais nos Açores…
Claro, há aqui duas coisas distintas em termos dos investimentos. Há investimentos que se iniciaram em 2020 e estes não estavam em condições de parar. A decisão foi avançar. Há situações de alguns alojamentos que se registaram no início de 2020 e, praticamente, nem reservas fizeram. E estes mais depressa estão a fechar porque não tinham nenhuma almofada enquanto os outros já estavam há mais anos na actividade. 
Sabemos e falamos com algumas pessoas que, durante os períodos de confinamento e durante a designada época baixa, decidiram fazer algumas obras de melhoramento, alguns investimentos. Portanto, há muita gente ainda que acredita na pujança do Alojamento Local, em particular, porque, pelos sinais que existem, a retoma ocorrerá nos Açores por via do Alojamento Local. E todos estamos à espera de melhores dias.

O Verão de 2021 vai ser melhor do que o de 2020?
Achamos que não. Vai ser praticamente igual. No final do ano passado, quando se anunciou o início da vacinação, sentimos um acréscimo de reservas. Mas, à medida que o processo de vacinação nos mercados emissores de turistas não vai decorrendo como nós gostávamos (e sabemos que mais de 50% dos nossos turistas são continentais), começamos a sentir o inverso, os cancelamentos. Muitos começaram a reservar pensando que se iriam vacinar antes do Verão. Agora, já se sabe que muito dificilmente vamos ter uma percentagem muito significativa de pessoas vacinadas antes do Verão.
E muitos já começaram a marcar as suas férias. É nesta altura do ano que se começa a programar as férias. O conhecimento que se tem hoje da pandemia é muito maior do que era há um ano atrás (altura em que havia os profetas da desgraça como havia aqueles que entendiam que a pandemia seria por um mês ou dois). Hoje já percebemos que isto é para continuar. Os sinais dos mercados emissores são muito claros. O próprio Reino Unido prepara-se para proibir a saída. 
Vai ser assim: Os países emissores vão criar algumas restrições à saída das pessoas para obrigar ao aumento do consumo interno. Cada um dos países vai defender o seu turismo interno. Se, na Região, o Governo anterior criou um programa para incentivar o turismo interno, imagine só os países com mais poder o que conseguem fazer para também motivarem as pessoas ou quase que obrigá-las a manterem-se dentro das suas fronteiras, controlando o vírus e aumentando o consumo na sua própria economia. Temos de ter em conta este fenómeno que vai ser muito mais forte este ano do que no ano passado.
Portanto, não vale a pena estar aqui com grandes esperanças. Mais vale esperar pelo pior e, depois, se calhar, as coisas serão um pouco melhores do que estávamos à espera. 
Não nos parece, pelas reservas que estão a cair e por aquilo que os meus colegas me estão a dizer, que este ano de 2021 seja muito melhor do que 2020. Se for igual, menos mal.

                                             João Paz

  

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Autor: CA

Categorias: Regional

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