Face a Face...! com Joaquim Ponte

“É crescente e excessivo o número dos que fazem da política nos Açores um modo de vida”

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Joaquim Vasconcelos da Ponte, natural e residente em Angra do Heroísmo, casado, pai de um filho, Farmacêutico, militante do PSD desde 1974, com desempenho de funções públicas de responsabilidade política nas Administrações Local, Regional e Nacional.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Estudei sempre na Terceira até ingressar no ensino superior. Licenciei-me em Farmácia e Análises Clínicas na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. Iniciei a minha vida profissional como Técnico Superior de 2ª Classe na então Secretaria Regional dos Assuntos Sociais. A par disto, colaborava na gestão de um estabelecimento de farmácia de família que hoje é da minha propriedade.
Fui Chefe de Gabinete do Secretário Regional dos Assuntos Sociais, deputado regional em várias legislaturas, com o desempenho das funções de Vice-presidente da Assembleia Legislativa, Presidente da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo em três mandatos consecutivos e deputado na Assembleia da República onde, entre outras, desempenhei as funções de Presidente do Conselho de Administração, Coordenador do Grupo Parlamentar do PSD na Comissão de Defesa Nacional e Membro Efectivo da Delegação Permanente da Assembleia da República na Assembleia Parlamentar da NATO.
Em termos sociais, participo na Direcção da Irmandade de Nossa Senhora do Livramento em Angra do Heroísmo, na Direcção da Sociedade Tauromáquica Progresso Terceirense proprietária da Praça de Toiros da Ilha Terceira, e na Direcção do Lawn Ténis Club.

Quais as suas responsabilidades?
De momento só tenho responsabilidades públicas no exercício das funções de membro eleito na Assembleia Municipal de Angra do Heroísmo. O resto do meu tempo dedico exclusivamente à minha actividade profissional privada.

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
Faço parte de uma família tradicional açoriana que procura manter o legado dos seus antepassados mas acompanhando, também, os tempos que correm. Não sendo muito numerosa, conseguimos ainda juntar quatro gerações, o que nos dá uma enorme satisfação, sobretudo nos períodos de maior convívio familiar.
Hoje reservo o maior tempo possível à minha família procurando, de algum modo, recuperar o tempo em que as exigências da vida não permitiam um convívio tão próximo e frequente.

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
O tempo que passa traz sempre coisas boas e outras que não parecem tão bem. Hoje, os jovens têm um início de vida difícil com empregos muito disputados, instáveis e mal remunerados, em regra. As pessoas vivem mais tensas e preocupadas com o futuro, tornam-se mais egoístas e muito menos solidárias. A família tem aqui um papel fundamental para atenuar esta difícil realidade e o eventual e indesejado desaparecimento da família tradicional, e dos seus princípios e valores, só pode agravar este complexo cenário.

A relação entre pais e filhos é um foco de tensões. Em sua opinião, que abordagens devem ser feitas?
Não creio que exista um modelo que nos permita tratar esta questão com o sucesso que se deseja. Muitas variantes influenciam a relação entre as pessoas e, naturalmente entre pais e os filhos. Julgo, todavia, que a verdade, a disciplina e a compreensão são valores fundamentais a preservar para garantir uma boa e saudável relação. 

Como e quando se deve interferir nas amizades do adolescente?
Da mesma forma como se tomam os remédios. Sempre que necessário e com conta, peso e medida.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
A sociedade evolui como sempre aconteceu na História da Humanidade. Com coisas boas e outras más. Não sou adepto de saudosismos militantes que nos confortam com as virtudes do passado e nos penalizam com os defeitos do presente. Cabe a cada um dar o seu contributo para um amanhã diferente e melhor. Se o fizermos de forma séria e empenhada acredito que vamos construir um futuro mais compensador para todos. Mesmo que, por vezes, a dúvida nos assalte, acho que vale a pena arriscar com equilíbrio para encontrarmos novas e melhores soluções para os problemas também novos com que nos deparamos. O tempo é sempre o melhor juiz das opções que tomamos e não devemos, por isso, precipitar a avaliação dos nossos procedimentos.

Que importância têm os amigos na sua vida?
Têm a maior importância. Sou um homem feliz também porque tenho muitos e bons amigos. Alguns de infância, de quem por vezes as circunstâncias da vida temporariamente nos afastam, mas sabemos que estão presentes sempre que é preciso e nunca falham. Outros que criamos ao longo da vida e que são tão bons como os primeiros. Tenho uma grande estima por todos e uma enorme gratidão pelo tanto que lhes devo.

Que actividades lúdicas gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Todos os dias, pela manhã, sozinho ou acompanhado, faço uma caminhada de cerca de uma hora. Faz-me muito bem ao físico e ao espírito. Tenho também algumas tertúlias de amigos com quem convivo sempre que possível. De resto, no tempo que tenho disponível, gosto de ler, ouvir música, nadar no Verão e, ciclicamente, faço umas incursões na jardinagem.  

Que sonhos alimentou em criança?
Sou um felizardo porque consegui concretizar aqueles de que me recordo serem os meus principais sonhos de criança. Queria crescer depressa, tirar carta de bicicleta, de mota e de carro e puder usufruir destes meios de transporte e diversão, estudar e ir para a Universidade e para Cidade Grande, que tanta expectativa e algum receio me criava, arranjar uma namorada de quem gostasse e que mais tarde pudesse casar e constituir a minha família, tirar o meu curso e voltar para a minha terra e trabalhar para conseguir o conforto e a felicidade que almejava junto da família e dos amigos. 
Dir-se-á que ambição não me faltava. Mas a verdade é que, de início, com uns pais fantásticos, e mais tarde com uma mulher e um filho extraordinários, e com a saúde e a força que Deus me deu, foi possível atingir, e em alguns casos ultrapassar, aqueles que eram, e são, os meus melhores e maiores objectivos de vida.

O que mais o incomoda nos outros?
A deslealdade e a mentira são insuportáveis.

Que características mais admira no sexo oposto? 
A verdade a inteligência e o bom humor.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Gosto e consumo muito do que vem nos jornais, revistas e alguma da muita informação que hoje nos chega pela internet. Quanto aos livros, gosto muito da escrita de Gabriel Garcia Marquez. 

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
Relaciono-me bem e selecciono o que me interessa.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
Conseguir, conseguia mas ia ser muito difícil e incómodo. Tenho, como penso que a grande maioria das pessoas, a minha vida configurada com estes meios de comunicação e informação. Prescindir deles era regredir no tempo e penalizar muito a minha actividade diária.

Costuma ler jornais?
Sim todos os dias. Regionais, nacionais e, por vezes, alguns estrangeiros. 

Que noticia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Que terminou esta maldita pandemia e que pudemos voltar à normalidade das nossas vidas.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Gosto muito de viajar e julgo mesmo que é das formas mais produtivas e eficazes que temos de nos cultivar e evoluir. Acho que gostei de todas as viagens que fiz mas, talvez por ser das mais recentes, guardo excelentes recordações da minha passagem pelo Chile, Uruguai e Argentina.

Quais são os seus gostos gastronómi-
cos? E qual é o seu prato preferido?
Adoro comer e gosto muito da nossa cozinha tradicional. É um lugar-comum dizer que se come muito bem em Portugal, mas é bem verdade. Creio que não me falta conhecer a gastronomia de nenhuma região do país e em todas encontramos ementas fantásticas. É por isso difícil escolher um prato entre tanta coisa boa de que dispomos. Mas se tivesse mesmo que optar, diria que nada melhor que o marisco e o peixe fresco que se apanha e se come nos Açores.  

Qual a máxima que o/a inspira?
Confesso que nunca pensei nisso…

Em que Época histórica gostaria de ter vivido?
Naquela que vivo. Ainda me lembro dos fogões a lenha e a petróleo e da luz na Graciosa, nas férias do Verão, que dava três sinais à meia-noite de que ia partir para só voltar no dia seguinte às oito da manhã. E agora, passados cinquenta anos, já chegamos a Marte. Haverá época da História mais rica do que esta? 

O que pensa da política e dos políticos açorianos de hoje? Em sua opinião qual a evolução que tiveram na Região desde a altura em que foi deputado regional?
Como em tudo na vida, há mudanças para melhor e outras para pior. Para melhor poderia referir o surgimento de alguns jovens quadros bem preparados que asseguram um futuro de esperança e promissor para a nossa terra. Para pior, o número, que me parece crescente e excessivo, de gente que faz da política um modo de vida sem ter uma qualquer actividade alternativa e, por vezes sem qualquer formação profissional que se conheça. Creio que o povo e os partidos terão que ser mais exigentes com as aptidões e qualificações de quem se propõem exercer funções políticas aos mais variados níveis da Administração. A desqualificação da política e dos políticos mina a credibilidade do nosso sistema democrático e pode comprometer a Autonomia e a Democracia.

Há políticos em exercício a mais nos Açores? 
É uma evidência que há muito se propõem corrigir mas, infelizmente, sem grandes resultados. Começando pela composição do Parlamento Regional, cuja redução há muito se fala, e que parece merecer alargado consenso, mas mesmo assim sem que nenhuma solução se vislumbre, passando pelas sucessivas orgânicas governativas, pelas empresas e institutos públicos e até pela Administração Local, em todas estas áreas da governação se podiam e deviam introduzir medidas de racionalização e poupança de recursos.  

Que análise faz à situação política regional?
Vivemos numa democracia estabilizada com algumas fragilidades que decorrem da sua juventude, da nossa condição insular e da escassez de recursos humanos qualificados que, apesar duma significativa melhoria para a qual muito contribuiu a nossa Universidade, ainda se faz sentir em alguns sectores e locais da nossa sociedade. Vivemos um momento interessante e importante da política regional em que uma das maiores virtualidades da democracia funcionou recentemente na nossa Região. Refiro-me ao princípio da alternância que possibilita a mudança, pela vontade expressa do povo em eleições livres e democráticas, de políticas e dos seus protagonistas. Os Açores têm conhecido ciclos políticos muito, creio mesmo que, demasiado extensos. A mudança que agora ocorreu trará, por certo, novas energias e novas políticas que reverteram em benefício do nosso futuro.

Enquanto cidadão, acredita na perenidade do actual Governo dos Açores resultante da aliança entre PSD/CDSPP/PPM com acordos parlamentares com o Iniciativa Liberal e o Chega? É um Governo para durar? E o PSD/A terá de “engolir” alguns elefantes?
Não só acredito como desejo que o Governo actual tenha o maior sucesso e que cumpra a legislatura para que foi mandatado. É um Governo novo, diferente até na sua composição pluripartidária que vai exigir de todos os intervenientes a maior responsabilidade e empenho. Estou certo, conhecendo como conheço os seus principais responsáveis, de que estarão à altura das pesadas responsabilidades que lhes cabem e que sempre valorizarão o interesse dos Açores em detrimento de qualquer interesse ou querela partidária.

Qual a sua opinião sobre o ensino à distância a que se recorre por causa da pandemia da Covid-19, face à falta do nível educacional de muitos pais?
É um mal necessário com o qual, infelizmente, temos que viver neste tempo difícil. Satisfaz-me, todavia, verificar a preocupação do Governo em atenuar, na medida do possível, as dificuldades que decorrem desta situação que, esperemos, seja ultrapassada com brevidade.

Qual o trabalho que, em sua opinião, deve ser desenvolvido pelo grupo SATA e que dimensão deve assumir no turismo?
Creio que a SATA devia concentrar a sua atenção e esforço operativo no objectivo que presidiu à sua criação e que inspirou os seus fundadores, ou seja, na ligação das ilhas açorianas.

Qual a sua opinião sobre a decisão do Governo de permitir a qualquer açoriano, seja qual for a ilha de residência, de poder voar para qualquer ilha a 60 euros a passagem?
A minha reacção é de satisfação e aplauso. Uma excelente ideia que só peca por tardia.

Com a pandemia passou a haver mais desempregados e pobres nos Açores que as estatísticas não mostram?...  
É possível. Infelizmente, os efeitos desta terrível infecção só se conseguirão avaliar, com rigor, quando terminarem os apoios circunstanciais que existem de momento e se avaliar como, e de que maneira, vai recuperar a nossa economia.

Muito se promete para o porto oceânico da Praia da Vitória e pouco se concretiza. Em sua opinião, o que deve ser mesmo este porto no contexto regional? 
Temos na Praia da Vitória uma infra-estrutura portuária de enorme valia que está subaproveitada e deve servir melhor os Açores. Tal desiderato passa pela definição corajosa da política de transportes marítimos que se pretende para a Região e que vem sendo sucessivamente adiada, sempre com a elaboração de mais um estudo técnico. Tarda a hora de acabar com os estafados estudos e passar às decisões que o interesse dos Açores obriga e reclama. Tenho esperança de que este Governo o fará com sabedoria, equilíbrio e justiça.

Os americanos não estão em plenitude, nem deixam a Base das Lajes. Estarão a empatar para não dar espaço a outros? Que apreciação faz?
Os americanos estão em plenitude na Base das Lajes na dimensão que lhes é mais adequada e conveniente. Os americanos nunca deixarão a Base das Lajes porque ela é fundamental e estratégica para a sua defesa e para a defesa dos aliados europeus que integram a Aliança Atlântica.

De que forma o PSD/A fica mais forte na Terceira com a eleição de Carlos Costa Neves para Presidente da Comissão Política de Ilha?
O PSD da Terceira, com a eleição da nova Comissão Política liderada por Carlos Costa Neves, fica mais forte porque fica mais unido, motivado, credível e qualificado.

Tem algo mais que considere interessante e importante abordar no âmbito desta entrevista?
Agradecer o amável convite que me fizeram para nela participar e a atenção de quantos tiverem a paciência de a ler.


                                             João Paz

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Autor: CA

Categorias: Regional

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