Sonho de longa data de actriz micaelense concretizou-se após mudança para a frenética cidade de Los Angeles

Aos 18 anos de idade, Mónica Cabral, natural da ilha de São Miguel, sabia exactamente onde queria estar. Por esse motivo, assim que cumpriu a promessa que fizera ao pai – a de acabar o ensino secundário – seguiu em direcção à terra “onde todos os sonhos se tornam realidade”, Los Angeles (LA), com o objectivo de estudar cinema e de se tornar actriz profissional.
Apesar de saber que este era um “sonho distante” que pretendia realizar, a verdade é que, hoje, aos 37 anos de idade, sabe que conseguiu concretizá-lo, tendo participado em pelo menos dois filmes conhecidos pelo grande público, que para além de alimentarem a sua paixão pelo cinema, dão-lhe certezas em relação aos objectivos traçados, embora faça também trabalho em Consultoria de Marketing para garantir um rendimento mais estável ao longo do ano.
O gosto pela representação e pelo cinema em particular, começou quando era ainda criança, conta, relembrando o tempo que passava a “imitar membros da família” quando era criança, vibrando com a reacção divertida da família que assistia à sua mímica.
Na escola procurava envolver-se nas peças de teatro e restantes iniciativas criativas que eram realizadas, mas foi ao participar no seu primeiro filme, “O Feiticeiro do Vento”, de Zeca Medeiros, que teve de imediato a certeza de que era cinema que queria fazer na sua vida.
“Lembro-me de estar no set e sentir que estava em casa, sentia-me tão feliz por estar ali no meio das câmaras, das luzes, da equipa e dos outros actores, de sentir aquela camaradagem e que todos estavam a trabalhar juntos para algo. A partir daí a minha paixão pela representação floresceu, e soube que tinha que encontrar uma maneira de seguir a minha paixão e continuar a explorar e a desenvolver este fascínio pelo cinema”, recorda.
Entretanto, por não conseguir deixar de parte o “bichinho” do cinema, depois deste papel de figurante que representou na companhia da mãe, Mónica Cabral chegou a fazer alguns trabalhos publicitários a nível regional e continuou a colaborar em algumas ocasiões com Zeca Medeiros, o que contribuiu também para que “a paixão florescesse” e para que ganhasse certezas em relação ao passo que viria a tomar no Verão depois de terminar o secundário.
Até hoje, entre os trabalhos em que mais se orgulha de ter participado, Mónica Cabral destaca a experiência que teve ao trabalhar no filme “You Don’t Mess with the Zohan”, cujo actor principal foi Adam Sandler, oportunidade esta que classifica como “um trabalho de sonho”.
Graças a este filme, a actriz micaelense pôde viajar para o México, local onde decorreram as filmagens, e onde trabalhou com a equipa de produção Happy Madison, que para além de ter profissionais “unidos e divertidos”, conta também com “actores super simpáticos e profissionais”, sendo esta uma experiência que a fez “apaixonar-se ainda mais pela indústria e pela experiência de estar a trabalhar com pessoas incríveis”, dando-lhe ainda a oportunidade de conhecer uma das suas melhores amigas nos Estados Unidos.
Outra das experiências mais marcantes que Los Angeles lhe permitiu, foi a de participar no filme “Lincoln Lawyer”, no qual interpretou o papel de empregada de mesa num bar que era frequentado pela personagem de Matthew McConaughey, com quem teve a oportunidade de trocar algumas impressões.
Para além destes dois filmes, Mónica Cabral destaca também a sua participação no filme “Expulsion”, o seu primeiro filme de terror, no qual interpretou o papel de Selena Alvarez, personagem principal e “tão complexa”, realça a actriz, algo que, de acordo com a própria, fê-la “crescer imenso como actriz e aprender novas técnicas e maneiras de trabalhar”, ao desenvolver este trabalho com Kenneth Andrew Williams.
Em relação a outros papéis que entretanto desempenhou, como figurante ou personagem secundária, encontram-se participações em séries televisivas como “Clínica Privada” ou “Os homens do Presidente”.
Da referida viagem em direcção aos Estados Unidos da América, a qual fez na companhia do namorado que até hoje a acompanha, relembrará sempre as emoções opostas que sentiu: “a alegria da possibilidade de um novo caminho e a tristeza e saudade de quem deixava para trás”.
Chegada a Los Angeles, optou por começar os estudos no Santa Monica College, onde começou por cursar Inglês, com o objectivo de melhorar o seu vocabulário, bem como a sua escrita na língua do país que começava também a ver como seu, tendo em conta que hoje em dia considera-se metade norte-americana e metade açoriana.
Assim, foi naquela cidade que teve também o seu primeiro contacto com aulas de representação, culminando numa experiência “fantástica” a vários níveis, o que a fez também estudar com professores e técnicas diferentes, tendo aulas específicas de casting e de cold reading para aumentar as suas capacidades e ganhar os conhecimentos necessários para continuar a seguir o sonho num país novo e em relação ao qual tinha várias expectativas, “umas que se cumpriram, outras não”, realça.
“Eu adoro o espírito sonhador que se sente em LA. Isto leva-nos a continuar a acreditar que conseguimos fazer tudo o que quisermos, que tudo é possível. Não interessa o teu background ou de onde vens, sentes mesmo que o céu é o limite e conheces pessoas que o conseguiram alcançar e que estão a viver o seu sonho. Nesta parte adoro os Estados Unidos”, diz, realçando que cresceu “imenso” no país para onde emigrou e que lhe deu a oportunidade de conhecer in loco “diferentes culturas e diferentes maneiras de trabalhar”.
No entanto, para a grande parte daqueles que chegam à cidade com o desejo de trabalhar única e exclusivamente no teatro, é muitas vezes necessário “trabalhar noutras áreas para conseguir continuar a seguir o sonho” até se chegar “ao ponto em que se consegue viver só como actriz” ou actor.
“A vida em LA é bastante cara. Há vários custos como o apartamento, aulas de actuação, fotos profissionais e vários outros investimentos que temos que fazer na carreira de actor, por isso precisamos de ter um outro trabalho que nos mantenha enquanto seguimos o nosso sonho. Acho que o mais difícil é encontrar este equilíbrio e não nos esquecermos da razão porque estamos ali, o nosso sonho!”, refere.
Apesar de a adaptação à nova cidade ter corrido bem, a actriz micaelense não esconde que esta começou por ser “um grande choque inicial” devido “à loucura” e ao ritmo frenético de Los Angeles que em nada pode ser comparado com a calma de São Miguel. Ainda assim, mesmo com “áreas lindíssimas, como Malibu”, a açoriana salienta que o trânsito intenso de LA dificulta a rotina diária em vários sentidos.
“A condução na Pacific Coast Highway, é incrível, mas depois temos muito trânsito, as distâncias são enormes e perdemos muito tempo a conduzir de um lado para o outro, principalmente quando temos que conduzir para um casting em Santa Monica e depois para outro em Burbank, levamos quase duas horas no trânsito. Neste sentido pode ser uma vida um bocado stressante,  os custos de vida também são bem elevados e podemos levar um bocado de tempo até aprendermos a viver neste novo ritmo”, refere.
Por outro lado, a companhia constante do namorado, também açoriano e actor, é um grande apoio, tal como os dias de sol frequentes, que tornam tudo mais fácil.
Mesmo com as rotinas exigentes de Los Angeles, Mónica Cabral adianta que procura sempre regressar a São Miguel na companhia do namorado no Verão e no Natal, algo que consiste numa “pausa” da “loucura de LA” na qual podem passar tempo com a família e com os amigos entre a natureza, sem esquecer um mergulho no mar.
Porém, actualmente encontra-se na ilha de São Miguel de forma mais permanente devido à pandemia: “Estava a trabalhar na Europa e tinha vindo a São Miguel passar uma semana, antes de viajar para Espanha em trabalho, e começou a loucura da Covid, com os casos principalmente em Espanha a disparar, e decidi que a melhor decisão seria ficar em São Miguel e ajudar também a minha família aqui durante esta pandemia”, decisão esta que ainda hoje vê como a mais acertada pois, para além de poder estar perto da família, reconhece que os Açores são “um paraíso em relação ao resto do mundo” no que diz respeito à pandemia.
Também a forma como o teletrabalho se tem vindo a tornar cada vez mais comum e o facto de os castings actualmente recorrerem muito ao conceito de self tape tem facilitado a sua estadia prolongada em São Miguel, já que isto permite que os actores possam “viver em qualquer parte do mundo e continuar a fazer castings para LA, para Atlanta e Nova Iorque e continuar a trabalhar”, esperando ainda que esta seja uma “moda” que permaneça, tendo em conta as horas no trânsito que serão poupadas com este tipo de castings e que poderão ser utilizadas na preparação do personagem.
No entanto, um regresso mais definitivo aos Açores não está previsto, “pelo menos não por agora”, mas fica a vontade de passar mais tempo na ilha e de continuar a regressar, assim que termine a pandemia, todos os Verões e Natais, tendo em conta tudo aquilo que a ilha representa ainda para Mónica Cabral.
 “Quando vivia em São Miguel não me apercebia do quanto sortuda era por ter crescido num paraíso. Quando me mudei para os Estados Unidos é que comecei aos poucos a ter uma perspectiva completamente diferente e a apreciar muito mais a qualidade de vida e o privilégio que é crescer nos Açores: a liberdade, as amizades, o sentido de comunidade e de segurança, é mesmo um privilégio. Tenho memórias muito boas da minha infância do tempo passado em família, em almoços e jantares que duravam o dia todo, dos Verões passados à beira mar a apreciar a beleza da natureza, a conversar e jogar cartas.
Também a minha adolescência foi bastante marcante para mim, pela positiva. Fortaleci as minhas amizades de infância e fiz também novas amizades, aproveitei ao máximo os Verões com os meus amigos, em festas, concertos, praia todo o dia, tive mesmo uma adolescência ao máximo e tenho tantas memórias de Verões incríveis. Das coisas que mais valorizo por ter crescido em São Miguel foi o tempo de qualidade com a família, as amizades que fiz para a vida, e de ter conhecido a minha alma gémea”, conclui a actriz micaelense.
 

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