Tese de doutoramento sobre história do desporto olímpico português está a ser concluída na ilha de São Miguel

Comecemos pela sua apresentação. Qual a sua formação e o que faz presentemente em termos profissionais?
Sempre gostei de desporto e de movimento olímpico e no fundo segui esse sonho de fazer algo pelo desporto. Formei-me em Gestão do Desporto na Faculdade de Motricidade Humana em Lisboa. Depois disso comecei a trabalhar em algumas federações desportivas, na Confederação do Desporto de Portugal e no Instituto do Desporto de Portugal. Mais tarde fui fazer um mestrado na Grécia em Estudos Olímpicos e aí começou realmente a minha ligação ao movimento olímpico. Quando regressei, fui convidada para ir trabalhar para o Comité Olímpico de Portugal, em 2013, onde trabalho desde então. Actualmente sou Directora do Departamento de Estudos e Projectos do Comité Olímpico de Portugal. Sou responsável por um conjunto de iniciativas ligadas à educação olímpica e à preservação da memória e do património histórico do Comité Olímpico, bem como na área da investigação.

O que a trouxe aos Açores?
Vim passar uns dias aos Açores por uma questão muito pessoal. Estou de férias e estou a concluir a minha tese de doutoramento e resolvi aproveitar a legislação existente e vir até cá, em cumprimento da lei, passar uns dias e isolar-me para terminar a escrita da minha tese de doutoramento. Vim para estar num sítio mais sossegado, sem muita gente conhecida e sem muitas interacções do exterior. A minha tese de doutoramento está relacionada com o movimento olímpico. Estou a estudar a sua origem em Portugal e a forma como o desporto era organizado no final do século XIX/início do século XX e como tudo evoluiu até aos tempos de hoje. É bastante interessante, porque nestes últimos tempos, na minha actividade profissional, também acabamos por passar pelos Açores nestas questões. Temos no programa de educação olímpica algumas escolas dos Açores registadas e aqui destaca-se muito o Colégio do Castanheiro, com quem temos uma actividade bastante intensa de partilha e de troca de conhecimento. Aliás, o Colégio do Castanheiro foi um dos estabelecimentos de ensino reconhecidos há dois anos na Celebração Olímpica pelo trabalhado feito connosco. Também fizemos as celebrações do Dia Olímpico na ilha Terceira há 2 anos. Já viemos várias vezes aos Açores e um dos objectivos era fazer as celebrações nacionais do Dia Olímpico, durante este mandato. A Região Autónoma dos Açores tem um conjunto de boas práticas desportivas que valorizamos e reconhecemos.

De onde vem este seu interesse pelo desporto? Foi praticante de alguma modalidade?
É engraçado, porque este meu interesse não vem da família. Os meus pais não praticaram nenhuma modalidade desportiva. São ambos cozinheiros e não seguem o desporto. Provavelmente esta influência vem de um gosto pessoal e de um amigo de família que frequentava muito a nossa casa e que gostava muito de futebol e de desporto em geral. Era provavelmente a pessoa com quem tinha mais conversas sobre desporto. Lembro-me de em pequena querer estar no quintal a jogar à bola, andar de bicicleta, a construir uma baliza ou a jogar basquetebol. Mais tarde, os meus pais deram-me a oportunidade de praticar as modalidades que existiam na zona onde vivíamos, em Sintra. Sempre que lhes pedi para experimentar uma modalidade desportiva eles concederam-me essa facilidade. Pratiquei natação, ginástica, e mais tarde, karaté de competição.

 De um ponto de vista mais pessoal qual é a sua opinião sobre os Açores?
Gosto imenso das diferentes tonalidades que existem nas ilhas e o contacto com a natureza é algo que a mim me transmite serenidade e calma. Gosto imenso de ver o mar e portanto aqui estou num sítio privilegiado. Para além disso, é tudo bem organizado, preparado e limpo. As pessoas são também muito simpáticas.

Para além de São Miguel que outras ilhas já conhece?
Conheço a Terceira, Santa Maria e o Faial. Visitei essas ilhas no âmbito do meu doutoramento e da minha área de investigação. Têm sido realizadas algumas conferências em diferentes ilhas na perspectiva de estudar o impacto das duas Guerras Mundiais. Um conjunto de conferências que têm sido dinamizadas localmente pelo meu colega Sérgio Rezendes e através no nosso Instituto de Investigação. Nestas iniciativas tenho integrado a comissão organizadora e apresentado alguns trabalhos nessas conferências. Acabei por fazer cá amigos e daí ter analisado algumas temáticas relativas à importância do desporto.
Por ocasião da conferência realizada no Faial estudei a forma como o desporto surgiu e identifiquei quais as entidades desportivas mais antigas. Na Região Autónoma dos Açores, sabe-se que em 1898 um grupo de jovens a estudar em Inglaterra, vindos em férias, trouxe uma bola de futebol e organizaram também os primeiros jogos de futebol de que há notícia. Por volta de 1900 chega à cidade da Horta a primeira bola de futebol e com ela os primeiros jogos de futebol, com jovens a estudar em Inglaterra e com britânicos das Companhias de Cabos Telegráficos Submarinos que trabalhavam naquela cidade.  Com o início do século XX, o surgimento de novas associações e clubes acentuou-se, dando origem a uma ténue generalização da prática desportiva. Na Região Autónoma dos Açores pode referir-se, a título de exemplo, a fundação, a 12 de Junho de 1901, do Clube Naval de Ponta Delgada (São Miguel), a 2 de Fevereiro de 1909, o Fayal Sport Club (Horta) e a 7 de Maio de 1911, o Clube União Micaelense, de Ponta Delgada (São Miguel).  
Foi um trabalho relativamente superficial para dar um outro enquadramento e falar um pouco dessa cidade, para depois fazer essa ligação com o meu objecto de estudo. Um dos capítulos da minha tese de doutoramento é a importância do desporto na preparação militar. Quando estavam em guerra também precisavam de descansar e de se ocupar. Uma dessas ocupações era a prática desportiva para aqueles que o sabiam fazer mas também para aqueles que nunca tinham feito desporto, mas que no fundo ‘brincavam’ para se desligarem da guerra.

Que práticas eram essas?
Faziam coisas simples e algumas parecidas com as que temos agora, como provas de atletismo ou provas de tiro. Tinham depois uma modalidade que surgiu por ocasião dos Jogos Inter-Aliados, em 1919, o lançamento da granada. Um pouco parecido com o que é hoje o lançamento do peso, mas com granadas. Cheguei a fazer investigação no arquivo histórico militar e havia registo dessas competições e de como os militares gostavam de participar. Era uma das modalidades que se destacava, por ter este cariz desportivo e militar.

O seu grande interesse de estudo é o movimento olímpico…
Começa por ser a história do desporto porque o movimento olímpico surge em Portugal em 1905 ou 1906, por contactos entre o Rei D. Carlos e Pierre de Coubertin, o fundador dos Jogos Olímpicos da era moderna. Em 1909 é formada uma sociedade promotora de educação física nacional que começa a organizar uma prova desportiva para seleccionar os atletas que eventualmente mais tarde poderiam participar nos Jogos Olímpicos. Em 1912 é constituído o Comité Olímpico Português, que hoje tem a designação de Comité Olímpico de Portugal. Dois meses mais tarde realizaram-se os Jogos Olímpicos em Estocolmo e era necessário existir esse Comité para que Portugal pudesse inscrever atletas. E assim participamos pela primeira vez nos Jogos Olímpicos. Foi em Estocolmo em 1912. Por estudar toda esta questão do movimento olímpico fazia sentido ir um pouco mais atrás e perceber como o desporto estava organizado.  

Já tivemos atletas olímpicos açorianos?
Sim, posso dar dois exemplos: Henrique da Silveira, natural de Angra do Heroísmo, e que na esgrima participou nos Jogos Olímpicos de 1920,1924,1928 (onde ganhou uma medalha bronze) e 1936. No judo, Costa Matos participou nos Jogos de 1960.
 
Hoje em dia o desporto já não tem nada a ver com esses primeiros tempos?
Não tem nada a ver até porque no início o desporto era praticado pelas elites. Essas elites eram muitas das vezes os jovens que iam estudar para o estrangeiro, nomeadamente Inglaterra ou França. Quando voltavam acabavam por trazer uma bola de futebol ou uma raquete de ténis e junto dos seus amigos da burguesia ou aristocracia, começavam a praticar aquela modalidade. O desporto chegou também a Portugal através de cidadãos estrangeiros que vinham trabalhar para o país, nomeadamente para o cabo submarino na região de Lisboa ou para a região do Douro. Eram homens, estamos a falar muito mais de uma prática masculina na época, que já tinham esses hábitos desportivos e começaram a jogar críquete, futebol, ténis ou a praticar vela e esgrima. Os primeiros registos de uma prova desportiva datam de meados do século XIX, uma regata que teve lugar no Rio Tejo. Mais tarde o desporto passa das elites para a generalização da prática desportiva de forma muito paulatina.

Estamos a falar de que época?
A prática desportiva começou a ser mais generalizada nos anos 20, em que o ciclismo, que na altura se chamava velocipédia, começou a ser mais abrangente e o futebol, por ser relativamente fácil de se jogar. Não eram necessários equipamentos, improvisavam-se balizas e bolas. Não havia estas regras como há agora; foras de jogo ou as novas tecnologias que agora vemos, mas depois começa a evoluir. Por exemplo ,a nossa primeira participação olímpica feminina foi em 1952. Temos aqui 40 anos entre a participação masculina e feminina. Isto também mostra um pouco a evolução da nossa sociedade e como as mulheres acabam por conquistar o seu lugar.

Tem também obra publicada especificamente sobre a história das mulheres no desporto?
Tenho um livro e um artigo científico publicado sobre a questão do desporto praticado pelas mulheres. No fundo, o que tento fazer é perceber estas evoluções e fazer muitas ligações. Não gosto de fazer uma investigação pura de análise de dados, mas tento acima de tudo fazer muitas ligações com o que acontece na sociedade. Esta foi um pouco a minha aprendizagem com o doutoramento que estou a fazer e com as partilhas dos colegas. Não há muita gente a estudar o desporto e o movimento olímpico, muito menos. Foi com esta partilha que ganhei esta curiosidade de fazer essas ligações e não me focar no desporto de uma forma balizada, assente em números e factos, mas abrindo-o para uma maior abrangência e para quem quer saber um pouco mais sobre o desporto.

Quando irá terminar esta tese e qual será o titulo?
Será concluída este ano, de certeza. Quero terminar a escrita na próxima semana para depois entregá-la à orientadora e fazer algumas alterações e ajustes que considere necessários. A tese intitula-se “Origem e evolução do movimento olímpico em Portugal. Da organização desportiva ao reconhecimento do Comité Olímpico Português pelo Governo”.

Tem presente o número de atletas portugueses que já representaram o país nos Jogos Olímpicos?
Foram 754 atletas, juntando as edições de Verão e de Inverno. Deixe-me também referir que uma das dificuldades do meu doutoramento tem a ver com alguma falta de documentação. Nos primeiros anos de vida do Comité Olímpico de Portugal não existe documentação no arquivo histórico. É constituído em 1912 e no seu arquivo histórico, só existe documentação regular a partir de 1920. Existem dois ofícios de 1915 que tratam de um assunto que era muito normal na época e muito em discussão, que era a distinção entre um atleta amador e um profissional, porque uns não podiam competir com os outros.

Essa foi uma questão presente nos Jogos Olímpicos até há pouco tempo…
Só em 1992 é que essa questão começa a ser vista de outra forma, porque os atletas de algumas modalidades ficavam de fora por serem profissionais. Hoje em dia, se olharmos para o desporto de alto rendimento, existem muitos atletas profissionais.

Para além disso, os Jogos Olímpicos já tiveram também muitas questões políticas associadas…
Ao longo dos tempos vão havendo questões políticas, de boicotes, de reivindicações e até um atentado, em 1972. Na minha opinião, estas questões e numa lógica daquilo que tenho estudado, acontecem porque os Jogos Olímpicos são realmente um palco mundial e, portanto, é um evento em que um gesto, uma reivindicação ou uma mensagem passa para todo o mundo em segundos. É um palco desejado para passar essas mensagens apesar de se considerar que o movimento olímpico deve estar à parte de quaisquer questões políticas.

O seu objectivo é que a sua tese de doutoramento se transforme num livro de referência para a história do movimento olímpico em Portugal?
Esta ideia surgiu quando fui fazer mestrado para a Grécia. Éramos 25 alunos de vários países, de culturas e idades diferentes. Uma das perguntas que me fizeram foi qual era o livro que considerava ser uma fonte de inspiração para o país na história do desporto e do movimento olímpico. Não soube responder a essa pergunta e confesso que fiquei um pouco atrapalhada. Existem algumas coisas já feitas mas não são amplas. Há publicações de história de modalidades e que fazem também um pouco da história do desporto, mas na minha perspectiva não existia uma publicação que fosse para mim de referência, e que desse uma perspectiva global. Fiquei sempre com essa ideia e quando surgiu a ideia e o desafio de fazer o doutoramento, foi nisso que pensei de imediato. Tenho aqui a oportunidade, com aquilo que outras pessoas já estudaram e com a outra parte da minha investigação e consulta de fontes, de fazer um trabalho mais abrangente que reúna depoimentos de outras pessoas que já escreveram sobre as matérias e acima de tudo, também, esclarecer alguns assuntos que causavam algum melindre. O meu objectivo foi transformar e esclarecer assuntos complexos em linguagem fácil e simples.   
                                            

Luís Lobão
 

 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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