Do Domingo de Ramos à Morte e Ressurreição de Cristo

Desde os tempos apostólicos que os cristãos, conscientes da importância que a Páscoa tinha para vida, começaram não só a comemorá-la como, igualmente, a reservar um tempo prévio de preparação para a celebração do mistério Pascal. Esse tempo de preparação seria, no século IV, fixado em 40 dias, número carregado de simbolismo, porquanto, na História da Salvação, os grandes acontecimentos e os encontros decisivos do homem com Deus estão ligados a esse número que, na Bíblia, exprime também a totalidade da nossa vida. A Quaresma é, portanto, esse período de 40 dias de preparação para a Páscoa, “o maior acontecimento das solenidades”, pois actualiza o Acontecimento culminante da História da Salvação.
O Domingo de Ramos, aquele com que a Igreja católica termina o tempo de reflexão cumprido na Quaresma e que marca a entrada na Semana Maior, revela-nos dois aspectos, à primeira vista contraditórios: Por um lado, fala-nos de triunfo e de glória para, logo a seguir, nos falar em sofrimento e paixão; por outro lado, apresenta-nos a figura de Jesus Cristo, no seu aspecto de Rei messiânico e, ao mesmo tempo, de”Servo do Senhor”. Ficamos a saber que a Morte é, apenas, um aspecto do Mistério total da Páscoa - não é um termo, um final do percurso, mas, sim, uma passagem para a vida!

Quinta-feira de Endoenças
– a Missa Crismal

A “Quinta-feira Santa”, “Quinta-feira de Endoenças” ou “Grande e Sagrada Quinta-feira” é aquela que, para os cristãos, tradicionalmente se inicia com a celebração da MISSA PASCAL, presidida pelo Bispo e em princípio concelebrada por todo o presbitério diocesano.
O Bispo e os presbíteros, em unidade eclesial, confirmam o seu compromisso de serviço à comunidade de crentes que servem, renovando os sacerdotes o seu voto de fidelidade ao Espírito Santo, que lhes foi conferido com a imposição das mãos, unidos também no único sacerdócio de Jesus Cristo, como simples instrumentos na missão salvífica de meros servos do “Mistério Divino”.
A Missa Crismal integra ainda a Oração sobre as Oblatas e a bênção dos óleos dos catecúmenos e dos enfermos.

A Missa da Ceia Pascal

A MISSA VESPERTINA deste dia celebra a CEIA PASCAL, que será a “Última Ceia”, aquela em que Jesus torna uma simbólica refeição ritual, dando-lhe um sentido novo com a instituição da Eucaristia. Antecipando algumas horas o sacrifício que iria sofrer, Cristo converte o pão e o vinho nos Seus próprios Corpo e Sangue e apresenta-se como o verdadeiro cordeiro pascal – o “Cordeiro de Deus” - anunciando, no salvífico Sacrifício Eucarístico, o Seu próprio Sacrifício na Cruz, a que, na tarde seguinte, iria ser submetido.
Foi nesta Eucaristia Vespertina – obra prima do amor de Cristo e prova suprema do Seu amor por nós - que Jesus instituiu o sacerdócio, ao ordenar aos apóstolos que, até ao Seu “regresso”, prosseguissem a Sua obra, e que proclamou o Seu “mandamento novo”, o de “nos amarmos uns aos outros”, o qual “resume toda a Lei”.
Esta missa integra ainda a cerimónia do “LAVA PÉS”, significando o gesto de amor sublime que acolhe o preceito do Senhor acerca da caridade fraterna ao declarar-nos, a todos, como irmãos uns dos outros.

Sexta-feira Santa – Paixão e Morte

Se, em todas as missas, a Igreja celebra sempre a Morte e a Ressurreição do Senhor, na Sexta-feira Santa consagra-lhe um “rito comemorativo” que, normalmente, se realiza à hora em que o Salvador expirou no Calvário.
Esta celebração compreende três partes bem distintas: a Liturgia da Palavra, a Adoração da Cruz e a Comunhão Eucarística.
A “Celebração da Palavra” introduz-nos na Paixão do Senhor – no ministério do sofrimento e da Morte de Jesus – revelando que a Sua Morte tem valor sacrificial, é um acto de mediação universal e causa da nossa salvação.
Na “Adoração da Cruz” esta é apresentada como sinal universal do amor de Deus e símbolo do nosso resgate. Adoramos Aquele que foi suspenso da Cruz, Aquele que foi, que é, a “salvação do mundo”.
A cerimónia termina com a “Comunhão Eucarística. Comungando “o Pão que dá a Vida”, consagrado em Quinta-feira Santa, somos “baptizados no Sangue de Jesus, somos mergulhados na Sua morte, ficando assim mais unidos ao Seu Corpo Místico, isto é, ao Cristo que sofre e morre nos Seus membros.

Sábado Santo – Vigília Pascal  

No Sábado Santo – na NOITE SANTA – realiza-se a VIGÍLIA PASCAL
Enquanto a Sua Alma não deixou de vigiar e de continuar operante, o Corpo do Senhor Jesus “repousa” no sepulcro, à imagem de todos aqueles que foram baptizados na Sua Morte e na Sua Ressurreição.
A celebração da “Vigília Pascal” é o coração da liturgia cristã, o centro do ano litúrgico, a mais antiga, a mais rica, a mais sagrada de todas as celebrações, a “Mãe de todas as Vigílias”, como dizia Santo Agostinho.
Nesta Vigília os fiéis esperam pelo Senhor que volta – o Mistério Pascal não é estático, mas, sim, dinâmico - para nos levar a fazermos a Sua “passagem”, a Sua Páscoa, com Ele, num movimento em que é envolvido todo o Povo de Deus.
A Vigília termina com celebração eucarística, no início da qual, no momento da “LITURGIA DA LUZ”, se acende o círio Pascal, na “Benção do Lume Novo”, o qual permanecerá no altar-mor ao longo de todo o ano.
Domingo de Páscoa
– A Ressurreição do Senhor  

O “DOMINGO DE PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR” é a festa das festas, o dia por excelência de “Cristo Senhor”, o dia em que Ele, depois de ter passado pela Sua Morte, para conhecer tudo o que ela encerra de dor e de humilhação, ressuscitou, triunfou das trevas da morte, para nunca mais morrer!
Com a Páscoa nasce o novo “Povo de Deus” – a Igreja – pela qual Cristo, entrado num novo modelo de experiência, continua presente no meio do mundo, especialmente pela acção pascal dos Sacramentos e pelo dom do Espírito Santo.
Assim, apesar das misérias e dos sofrimentos da humanidade, os cristãos sabem que o nosso mundo tem um destino maravilhoso – o de ser Reino de Deus!
A Páscoa não nos introduz numa fase estática, de repouso, mas, sim, no dinamismo que brota da vida do Ressuscitado.
Com a Páscoa começámos a “caminhar em novidade de vida” e este nosso caminhar, este nosso êxodo, esta nossa “Páscoa”, que têm a duração da nossa existência, exigem de nós esforço, generosidade e sacrifício.
Numa palavra, “ressuscitados com Cristo, temos de levar uma vida de “ressuscitados”!

 José Nunes

 

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Autor: CA

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