Presidente da AAUA afirma que estudantes universitários estão “muito mais cansados e ansiosos” e receia impacto no abandono escolar

Daniela Faria tem 23 anos de idade e é Presidente da Associação Académica da Universidade dos Açores (AAUA), encontrando-se actualmente a cumprir o segundo mandato de uma presidência que conheceu apenas alguns meses de normalidade antes de a pandemia invadir o mundo e alterar por completo o funcionamento das organizações e instituições.
Enquanto Presidente desta associação académica, a estudante do mestrado em Ciências Económicas e Empresariais, natural da ilha de São Miguel, explica que um dos seus maiores desafios tem sido o de “chegar aos estudantes”, devido ao cancelamento e adiamento por tempo indeterminado das actividades que tinham sido agendadas, o que torna também difícil promover “o convívio entre os estudantes e o meio académico, característico dos tempos universitários”.
Como tal, tendo em conta o plano de contingência aplicado pela Universidade dos Açores, tem sido também impossível dar continuidade às actividades desportivas que ocorreriam por norma no pavilhão desportivo da academia, sendo esta “uma luta que gostava de vencer” para que os alunos tenham este importante escape e “alívio”, e, também, para que o seu mandato seja mais rico.
Porém, embora esteja a tentar “ao máximo” estabelecer uma “boa relação com a Reitoria da universidade na luta pelos interesses dos estudantes, a realidade é que na questão do desporto não tem sido possível chegar a um consenso e alterar o plano de contingência.
Assim, sendo este um ano lectivo que, à semelhança do ano passado, ficará marcado pelas várias restrições existentes ao convívio entre alunos e pelo ensino à distância, Daniela Faria realça que “a saúde mental dos estudantes tem sido muito afectada pela pandemia” e por tudo aquilo que ela significa.

Saúde mental dos estudantes
universitários está “muito afectada”

Através de uma auscultação a alguns colegas da Associação e representantes dos diversos cursos, orientada no sentido de “tentar perceber” como estão os alunos universitários no seu desempenho, Daniela Faria ficou a conhecer algumas das principais dificuldades dos alunos actualmente.
“Fiz uma auscultação a alguns colegas da Associação que são colaboradores e representantes de curso, para tentar perceber como é que estava a ser e disseram-me que sentem que os docentes já melhoraram face ao ano lectivo transacto, quando houve o grande impacto do ensino à distância na universidade, mas que os estudantes se sentem muito mais cansados e ansiosos, e continuam a afirmar que o ensino à distância traz um maior volume de trabalho, e que nem sempre os docentes têm em consideração que isto acontece, até porque o ensino à distância exige mais das pessoas a nível psicológico”, diz.
Por esse motivo, e embora não seja “desejável”, a Presidente da Associação Académica da Universidade dos Açores adianta que “é normal que os estudantes tenham visto o seu rendimento académico baixar devido ao ensino à distância e a toda esta ansiedade e aumento da carga de trabalho”.
Entre as principais queixas dos alunos universitários neste momento estão a fadiga psicológica, ansiedade, angústia, menos motivação e menos capacidade de concentração, diz ainda Daniela Faria, preocupada com os impactos que esta fase pode vir a ter no abandono escolar.
Por esse motivo, e tendo em conta algumas conversas informais que indicam a possibilidade de este abandono acontecer, e sendo esta uma preocupação partilhada pelas associações e federações a nível nacional, foi lançado um questionário aos alunos de todo o país para que haja mais informação neste sentido.

A utópica “propina zero”

No que às propinas diz respeito, Daniela Faria refere que o assunto tem sido debatido entre as associações académicas e federações a nível nacional, tendo em conta que o valor das mesmas é fixado pela Direcção Geral do Ensino Superior, mas, ao que tudo indica, esta apenas será uma discussão terminada quando se atingir a “propina zero”, de modo a eliminar as barreiras que possam existir no acesso ao ensino superior.
“Chegar à propina zero seria o ideal para que os estudantes pudessem concorrer e frequentar o ensino superior de forma igual, sem custos acrescidos, porque é um nível de ensino que hoje em dia é necessário. Hoje, mais do que nunca, temos que fazer com que os estudantes possam frequentar o ensino de forma igual, e fazer com que as questões sócio-económicas não sejam um entrave para que os estudantes cumpram o desejo ou o sonho de serem formados, pois não estão a fazer nada mais do que contribuir para um mundo melhor para si, para a Região e para o mundo”, diz a Presidente da AAUA.
Porém, a estudante do segundo ano do mestrado em Ciências Económicas e Empresariais reconhece que este conceito pode estar perto de uma utopia, realçando por isso que o ideal será “baixar de ano para ano” o valor das propinas, sendo esta “uma reflexão que não deixa de fazer sentido”, uma vez que “o ensino superior deveria ser uma porta aberta para todos”, independentemente do meio ou das condições sócio-económicas de cada um.
Na questão do alojamento disponível para os alunos universitários na Região, e tendo em conta as notícias publicadas em Setembro de 2020 a nível nacional que davam conta de um anúncio efectuado pelo Governo da República, que iria disponibilizar 4.500 camas para estudantes universitários através de hotéis, pousadas e alojamento local que, por conta da pandemia, perdera a sua clientela habitual, Daniela Faria considera que esta seria também uma medida eficaz para aplicar aos Açores.
“O alojamento será sempre uma preocupação. Temos uma residência com uma lotação reduzida, ainda mais nesta altura em que os quartos duplos passaram a individuais devido às condições de segurança necessárias, e seria uma medida muito boa para que os estudantes possam ter acesso a alojamento com preços controlados, o que nem sempre acontece com as casas e quartos arrendados por pessoas singulares. Seria muito bom, e mesmo que fosse a curto prazo seria uma boa solução”, diz.
Quanto à residência universitária, a principal queixa que aparenta existir no momento prende-se com o acesso à internet, que tem vindo a provocar alguns constrangimentos no acesso ao ensino à distância, destaca a Presidente da Associação Académica, salientando, no entanto, que esta é uma situação que “tem vindo a ser melhorada”.
Ao se aproximar o final de mais um semestre, chega também a preocupação legítima com a bênção das pastas, cerimónia por que muito anseiam os estudantes finalistas e que assinala o terminar de uma etapa. Contudo, devido ao novo coronavírus, no ano passado apenas foi possível celebrar online, algo que Daniela Faria tem procurado contornar este ano e fazer de forma diferente.
“Neste momento, estamos a aguardar um parecer da Autoridade de Saúde. Sabemos que é um pouco utópico realizar a bênção das pastas presencialmente, mas estamos a tentar adaptar a cerimónia para que esta possa decorrer num campo aberto, de futebol, por exemplo, com todas as restrições necessárias. No ano passado foi apenas feita uma celebração online para marcar o dia, mas temos esta aspiração e este sonho”, explica a presidente da AAUA, esperando que, com as devidas autorizações, seja possível realizar a cerimónia em Junho.
 

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