Dom João Lavrador apela que esta Páscoa sirva para continuar a partilha

“É urgente que a sociedade tome consciência do valor da família e que reconheça que é preciso promovê-la e ampará-la”, diz o Bispo de Angra, preocupado também com a pobreza

Correio dos Açores: Estamos a celebrar a Páscoa pela segunda vez em contexto de pandemia. Esta é uma celebração que tem a dor da perda daqueles que partiram devido à Covid-19, do desemprego, da angústia, do medo… O que podemos experienciar, do ponto de vista da Igreja, nesta Páscoa?
Dom João Lavrador, Bispo de Angra e Ilhas dos Açores: Antes de mais temos de experienciar um caminho de solidariedade humana muito grande. Realmente, a Covid-19 tornou a humanidade mais sensível, por um lado, à sua fragilidade e, por outro lado, despertou a humanidade para o sentido de maior solidariedade entre todos. Realmente, isso tem um cunho muito forte em termos humanos, que vai ter um aprofundamento e uma expressão muito grande do que vai ser a celebração da Páscoa. Na Páscoa, nós celebramos Jesus de Nazaré, que para salvar a humanidade oferece a sua vida. Portanto, é o acto de solidariedade maior que pode existir: o filho de Deus entrega a sua vida para resgatar a humanidade do mal, do pecado, da morte, e para lhe restituir este sentido de vida plena. Eu penso que esta realidade que pertence à fé cristã tem agora uma expressão muito maior em que a humanidade, nestes tempos de hoje, não só sofre os sinais de morte, de sofrimento, de separação, mas de  tristeza por não podermos encontrar-nos uns com os outros, e do sentido de medo que se apoderou da pessoa. Há aqui um sentido e um apelo para libertarmos a humanidade de tudo o que a aflige. É preciso dizer que há aqui uma actualização muito profunda desse mistério pascal de Jesus Cristo, porque o ser humano tem em si uma ânsia de vida, de expressão na esperança, na alegria…. Tem um desejo enorme de felicidade e que se relaciona com a vida. E, portanto, tudo o que se relaciona com o mal à vida é algo que o ser humano rejeita e, por isso, a oferta tem de vir a partir de Deus, que é o Senhor da Vida. A Páscoa deste ano, tal como foi a do ano passado, vivida neste enquadramento, sensibiliza-nos mais para aprofundarmos este mistério do homem, mas ao mesmo tempo para o mistério de Deus, que também entronca aqui, que sofreu pelo seu Filho para resgatar a sociedade do mal do pecado.

Esta também é uma Páscoa, como têm referido os bispos, inclusive D. João, para se presenciar uma oportunidade de viragem, para o encontro de todos com todos, apesar da distância física. Esta é uma época que pode servir para redescobrimos a família e da sua importância na união de todos e com todos?
Sem dúvida. A questão da família é uma questão nuclear para a sociedade e naturalmente que o é também para a Igreja. Costumo dizer que a família é o núcleo básico de toda a sociedade. Nós somos prioritariamente família. Isso tem de ser afirmado, porque estamos hoje numa cultura que promove o individualismo, que tenta afirmar mais o sentido individual e prioritário, e isto não é verdade. Todos nós nascemos no contexto de uma família, todos nós estabelecemos laços de sociabilização dentro do contexto de uma família, e, por isso, a família é fundamental. A própria realidade da sociedade enquanto um todo tem que aprender do que é verdadeiramente a família. Por isso, às vezes dizemos que a sociedade deve tender para ser uma grande família, mas só o será se nós realmente cuidarmos deste núcleo basilar que é precisamente a família nuclear de pai, mãe, filhos, avós (e de outros), de uma família mais alargada, de laços mais restritos, que nos uns aos outros e depois isso serve de base para sentirmos que a própria sociedade tem aqui um modelo para depois se constituir a si própria na paz, na harmonia, na generosidade, no altruísmo, sempre olhando para o outro como irmão. Aqui faço menção da última Encíclica de São Francisco em que todos somos irmãos. A construção e edificação de uma sociedade em que todos somos irmãos. Isso é fundamental porque temos de cuidar dessa área basilar. Nestes tempos de pandemia devemos colocar uma exigência que é a de a nível da sociedade no seu todo estarmos privados de muito que é o seu relacionamento interpessoal e torna-se ainda mais urgente dentro do contexto familiar. A própria Igreja tem muita dificuldade muitas vezes em reunir as pessoas para as celebrações litúrgicas ou para outros actos formativos ao nível da comunidade no seu todo que ela encontra precisamente na família, a igreja doméstica, a possibilidade de estabelecer laços, de espaços de oração e de momentos celebrativos através de acontecimentos do dia-a-dia, que não têm que ser em tempo de pandemia, mas que agora, naturalmente, são importantes pelo tempo que estamos a viver. A família é nuclear e nós temos que a preservar. Estamos num tempo de muita ambiguidade, estamos em tempos em que a família de alguma maneira está a ser demolida por vários motivos, mas é urgente que a sociedade tome consciência do valor da família e que reconheça realmente que é preciso promovê-la, ampará-la e que é preciso dar os meios necessário para que ela realize a sua missão em si mesma e na sociedade em que vivemos.

A pandemia também nos levou para as novas tecnologias. Estamos muito focados nas redes sociais e a Igreja também promove a sua catequese e homilias por estas vias, por via da obrigatoriedade e da necessidade do afastamento social. Não teme que a participação da comunidade com recurso às redes social, se torne um hábito, que leve depois ao afastamento dos templos?
As redes sociais são hoje um grande bem que temos na nossa sociedade. Elas hoje são mais do que um meio digital, são uma forma de vida, uma cultura, em que somos chamados a participar. Penso que depois de um tempo de euforia, pouco a pouco, nós vamos descobrindo que as redes sociais são uma valorização do presencial. E naturalmente que a Igreja, sobretudo em muitos dos seus actos, não se compreende sem a participação presencial da pessoa – os actos litúrgicos, os sacramentos, a eucaristia – e em muitos actos formativos, este encontro participativo é fundamental, no entanto ela pode adquirir por parte das redes sociais um complemento de fortalecimento da sua própria comunicação, são complementares. As redes sociais são chamadas a favorecer aquilo que é a participação presencial. A nível da sociedade também se vai descobrindo, basta ver, por exemplo, há pouco tempo pensava-se que a escolaridade era possível fazer a partir do digital, mas agora verifica-se que o digital não pode substituir a aprendizagem presencial. Portanto, nesta aprendizagem verificamos que as redes sociais podem realmente ajudar aquilo que é a vida da própria sociedade mas nunca retirarão o que é o benefício e o que é essencial da presença das pessoas na comunidade e a presença das pessoas fisicamente no contacto com os outros. O ser humano é também físico, é alguém que no seu próprio corpo necessita do contacto com o outro, por isso fica de alguma maneira truncado de algo que lhe substancialmente importante quando fica só ligado às redes sociais, já para não falar que é preciso purificar, humanizar as redes sociais. Sabemos que há muitas fake news, há algo de maléfico que, infelizmente, ainda teima a estar nas redes sociais e é preciso, pouco a pouco, que todas as pessoas tomem consciência que sendo um veículo e uma presença do humano elas têm de ser dignas do ser humano. As redes sociais devem tender para que as pessoas se encontrem, façam vida comunitária. Aqui, a Igreja não é diferente. As redes sociais são para usar, servem para estarmos presentes, e o Evangelho nesta cultura do digital também serve para ajudar e estar presente na comunidade.

Como sabemos, a pandemia trouxe tempos de medo e de incerteza, tal como o Senhor Bispo bastas vezes já o referiu, mas também acrescentou pobreza a uma região com níveis de carências elevado e novos pobres. Em que a medida a Igreja enquanto comunidade pode ajudar essas pessoas a ultrapassar as suas dificuldades, principalmente nas ilhas mais pequenas onde vivem, por norma, uma pobreza envergonhada?
Isso é verdade e nós estamos muito atentos e chamamos à atenção muitas vezes para esta realidade, entre outras. A pandemia afectou o ser humano em todas as suas aéreas de viver e de actuar. Portanto, podemos dizer toda a estrutura do ser humano foi afectada, a sua convivência, as suas necessidades básicas, o seu empreendedorismo, a sua vida comunitária, a sua vida social, a vida familiar, a relação com as pessoas idosas, a vida religiosa, mas também afectou o emprego, e, por isso, temos verificado que paulatinamente tem havido um empobrecimento. Há hoje grandes franjas de pessoas que estão viver muito mal, na pobreza e na exclusão. Neste momento, a Igreja naquilo que é possível – porque não há resposta a tudo – e concretamente não tempos resposta para o emprego mas temos de favorecer para que as pessoas possam progredir e que haja possibilidade de ter novamente emprego, a Igreja não tem meios suficientes para as necessidades das pessoas mas tem que incentivar os poderes públicos que possam disponibilizar rapidamente nas situações de emergência recursos para as pessoas possam ultrapassar minimamente as suas dificuldades. Contudo, temos as nossas estruturas, as Cáritas, as Conferências Vicentinas, os centros sociais e outras estruturas dentro das paróquias. A própria comunidade cristã a quem apelamos para ajudar na partilha porque é na partilha que podemos ajudar os nossos irmãos que estão necessitados e por isso estamos a fazer todo o esforço para que dentro das limitações, mas com toda a audácia e com toda a generosidade, dentro da possibilidade das pessoas, possamos ajudar os que mais precisam nesta hora, e são bastantes, e que percebemos que esta situação de pobreza ainda vai aumentar porque a pandemia – esperemos que em breve possamos estar mais aliviados para retomar as actividades – vai deixar um rasto de destruição muito grande para os próximos anos.

Os últimos dados referem que o número de católicos na Europa tem vindo a diminuir e o que se Passa em Portugal e nos Açores não são excepção. Longe, mas perto, as situações na França e na Alemanha contra os católicos tem atingido proporções dramáticas, e isso pode ser um rastilho… Em seu entender em que medida o que se passa no contexto europeu nos pode afectar? Acha que a igreja não tem respondido aos novos desafios que se colocam às comunidades?
É curioso que o Relatório da Santa Sé, indicadores do que se está a passar na Igreja hoje e no mundo, refere que a Igreja Católica nos últimos anos aumentou e com um número bastante significativo. Houve um crescimento em número e em participação….

Esse documento dá conta de crescimento sim, mas em África e na Ásia, não na Europa…
Sim, é verdade, esse crescimento tem acontecido, mas realmente não corresponde ao que se verifica Europa, que tem decrescido em número e em participação. Na Europa são vários os factores que contribuem para esta diminuição, isso está mais ou menos analisado. Já com São João Paulo II, numa encíclica sobre a Europa, tinha uma frase quase dramática que dizia: «A Europa parece que apostatou na fé». Deu a entender que há aqui um mecanismo cultural a nível cultural que rejeita a fé cristã.   Como sabemos, isso tem muitos antecedentes, não nos podemos esquecer que esta Europa nasceu do Iluminismo que posteriormente, e num determinado momento, se transformou no laicismo agressivo que levou ao ateísmo e que depois proliferou em correntes que a pouco e pouco foram descambando naquilo que hoje chamamos de indiferença perante o religioso. Há aqui um laicismo demolidor de valores cristãos. A Igreja também tem aqui uma responsabilidade.

Porquê?
Há mais de 50 anos atrás, a Igreja reuniu o Concílio - Concilio Vaticano II - e à época questionou-se a si própria como responder ao mundo de hoje, e o mundo era este em que estamos a viver, isto é um mundo afastado da Igreja, um mundo laicizado (…) E passado este tempo temos dificuldades concretas - nas comunidades, nos leigos, nos sacerdotes, no geral dos cristãos -, em assumir os critérios, as formas de conduta, as orientações, a profundidade do que deve ser uma vida cristã para responder a este mundo. Por isso, o Concílio disse que a Igreja devia evangelizar. Evangelizar é propor com o testemunho e com a palavra Jesus de Nazaré, filho da Igreja e do mundo, e testemunhá-Lo outra vez com os valores da fé, das convicções.

Não será uma caminhada fácil...
Não. Penso que ainda temos muita caminhada para chegar ai. Na nossa Diocese, a Caminhada Sinodal é um convite à participação de todos os cristãos com este objectivo, reconhecer que todo o baptizado tem uma participação activa na Igreja e para testemunhar os valores do Evangelho. Por isso, eu tenho muita esperança de pouco a pouco nós vamos aprendendo e sintonizando os valores do Evangelho, que são aqueles que são necessários para o ser humano e que estão na linha do que todo o ser humano procura. Por isso, é necessário retiramos tudo o que possa encobrir o que é o verdadeiro Evangelho para que as pessoas se deixem cativar pela beleza do Evangelho.

Há alguma mensagem que queira deixar nesta Páscoa aos açorianos?
Desde já quero convidar à esperança todos os leitores da imprensa, neste caso concreto do Correio dos Açores para quem estou a falar, e para todos aqueles que no fundo vivem o drama do tempo presente. Uma esperança que vem de tudo aquilo que são as capacidades humanas, uma esperança que brotada fraternidade, uma esperança que vem quando somos capazes de partilhar uns com os outros e, naturalmente, uma esperança que nos é dada, pois, afinal, Deus está connosco, Jesus Cristo continua hoje a caminhar connosco e a oferecer-Se nesta Caminhada para nos dar uma vida nova que há-de nascer do nosso esforço mas também pela iniciativa divina que não nos deixa de acompanhar.  
                             

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