Face a Face...! com Valdemar Oliveira

“Vejo com muita apreensão o futuro da família tal qual eu aprendi na casa dos meus pais...”

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Chamo-me Valdemar de Lima Oliveira, tenho 77 anos de idade, nascido na freguesa dos Fenais d’Ajuda, sou casado há 50 anos com a mesma princesa, e sou pai de dois filhos e de uma filha, tenho 4 netos e 3 netas, que me enchem a casa de energia e cor, tornando-me num babado por eles.

Fale-nos do seu percurso de vida?
Fui dos alunos mais jovens a entrar para o Liceu Nacional, de Ponta Delgada, em 1954.
Dispensei da oral no meu exame de admissão e passei de um bom aluno para um péssimo estudante, segundo o conceito dos professores de então. Perdi o primeiro ano, e repeti-o para passar, à rasca, para o segundo. Chumbei duas vezes o segundo ano e, logo no primeiro período do terceiro ano chumbei com a nota 4 a Francês e Inglês, e nota 4 a Física e Matemática.
Quando repetia o terceiro ano, resolvi abandonar o liceu e estudar num externato, pois os meus professores achavam-me estúpido demais para tirar um curso qualquer.
Aos 18 anos comecei a namorar aquela que é a minha mulher, a qual já leccionava como professora em Santo António, além Capelas, e a quem prometi que nunca mais chumbaria um ano.
Mudei-me para a Vila Franca, preparando o quinto ano de letras, no Externato de Vila Franca, sendo um dos três alunos que dispensaram a oral do exame liceal. No ano seguinte matriculei-me no Externato do Infante tendo sido um dos cinco dispensados da oral de Ciências.
Fui estudar para Santarém e tirei o curso de Regente Agrícola, com notas que me dispensaram fazer qualquer exame. Como pretendi continuar os meus estudos fui para a cidade de Exeter, na Inglaterra, para Wageningen, na Holanda, e finalmente para o Canadá, para o núcleo florestal da Universidade de Toronto, em Mithurst.
Tirei na Inglaterra maneio de gado leiteiro da raça Jersey, na Holanda genética animal, e no Canadá tirei Silvicultura.
Formei-me, finalmente em 1970, três anos depois de ter concluído o curso em Santarém como Engenheiro Técnico Agrário com uma nota final de 16 valores, tendo adquirido a nota de 19 valores na minha tese. Com isso, vim a provar que os meus professores do Liceu de Ponta Delgada estavam enganados a meu respeito, pois dispensei todos os meus exames durante o meu curso, passando de um aluno falhado para um bom estudante, como havia prometido à minha namorada.
Fui Engenheiro Técnico Agrário, e exerci, desde 1971 até à minha reforma, no ano de 2009, funções na Estação Agrária, até ser transferido para a Direcção Regional das Pescas em 1988, para assumir, sob normativa Regional, a Presidência da Associação de Armadores de Atum.
Na Estação Agrária fui responsável, com o meu colega engenheiro José Joaquim de Oliveira Rodrigues, do programa de rádio ‘A Voz dos Campos’, e do jornal ‘Informação Agrária’ distribuído mensalmente, a 3.500 leitores, em todo o arquipélago.
Nas pescas, para além de ser Presidente, fui o responsável pelo reconhecimento da Associação APASA pela Comunidade Económica Europeia como Organização de Produtores.

Quais as suas responsabilidades?
No meu percurso na Estação Agrária, para além do sucesso que foi o programa ‘A Voz dos Campos’, tive grupos de trabalho nas Feteiras, Covoada, e Arrifes com quem me reunia todas as Quintas-feiras à noite com os lavradores de maior sucesso na altura em S. Miguel, como Manuel Maria Melo e Carmo, Flávio de Couto, Manuel da Silva Cordeiro, entre tantos outros. Conseguimos, eu e os meus colegas, um elo fortíssimo com praticamente todos os líderes formais da maioria das nossas freguesias, administrando vários cursos que contribuíram para se tornar os Serviços Agrícolas a casa onde todos os agricultores podiam graciosamente colher todos os ensinamentos que requeriam.

Como vive a época pascal?
A época pascal sempre foi, pelos tempos fora, tida uma época de reflexão virada para uma vida familiar um pouco mais intensa, onde Cristo tem muita força nas nossas vidas.

Como descreve a família de hoje?
Vejo com muita apreensão o futuro da família tal qual eu aprendi na casa dos meus pais como uma grande força de respeitabilidade, onde se bebia harmonia, onde se convivia na maior das cumplicidades, o dia-a-dia.
Hoje penso que consegui criar no seio da minha família a imitação quase fiel daquilo que aprendi e vivi na casa dos meus pais. Infelizmente perante o descarrilar das nossas sociedades assentes em conceitos de possessividade e domínio. E é aí que a respeitabilidade cada vez mais cria fissuras familiares perigosas que adivinham a denúncia e separação no seio das famílias, dando lugar ao desencontro daquele que era o refúgio sagrado da vida: a família como a mais séria cédula da sociedade.

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
Os impactos mais visíveis são os filhos, na juventude, começarem já a ser descartáveis, e os pais na velhice também com o afastamento que tais atitudes criam.

A relação entre pais e filhos é um foco de tensões…
Não é nada fácil falar-se disso em face dos repentinos rumos que a vida moderna criou: por exemplo, as escolas que eram um meio importante não só de aprendizagem, mas também uma escola de vida, onde o professor era a extensão daquilo que a família já não conseguia ensinar em casa. Hoje os professores e alunos interagem numa atitude quase de estranhos, com medo uns dos outros. Hoje as escolas divorciaram-se, quase em absoluto, da complementaridade que lhe era dada quando o professor tinha na sociedade o lugar de distinção que lhe competia, para hoje se ter tornado em alguém, apenas e só, num professor de matérias impostas pelas regras do ensino, fora da moral e direito cívico que lhe competiria também ensinar.

Como e quando se deve interferir nas amizades do adolescente?
A intervenção na amizade dos adolescentes têm muito a ver, ainda, com o seu sexo e idade, porque simplesmente muito do pudor que existia, desaparece a olhos vistos. Hoje, por exemplo, sendo o português uma língua tão rica, não se percebe a pobreza de como é falada, perniciosamente poluída com vocábulos podres no seu conteúdo. Se chamamos a atenção para certos vocábulos que usam, e da forma pobre como os usam, sacodem os ombros como se fossemos uns atrasados. Para que haja a melhor intervenção na amizade dos nossos adolescentes tem que se olhar muito de frente para a falta de tempo que os pais hoje em dia têm para eles; tem que existir o máximo cuidado com aquilo que as nossas televisões mostram nas nossas casas em horários que deveriam, de todo, ser proibidos; tem que se encontrar formas de controlo para que as redes sociais, ao alcance de toda a gente, deixem de ter o poder que têm, e o perigo que representam para as pessoas menos preparadas para lidarem com esse facto; finalmente têm que existir obrigações que passam pela consciencialização de que liberdade não é muito daquilo que se apregoa ser, pois tal qual se apresenta é mais libertinagem do que Iiberdade.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
A nossa sociedade evolui, fundamentalmente, sob o conceito erradíssimo de que progresso começa pelo chumbo da cumplicidade em prole do individualismo cego e da ganância.

Que importância têm os amigos?
Os amigos, os bons amigos, são o adocicado da vida, temperando muitas questões que de outro modo nos fariam desprotegidos.

Que sonhos alimentou em criança?
Ser bombeiro.

O que mais o incomoda nos outros?
A ganância.

Que características mais admira no sexo oposto?
A sua frescura.

Gosta de ler?  
Gosto muito de um bom livro com uma boa história e uma boa mensagem. O livro que mais me impressionou foi “ O Velho e o Mar”, de Hemingway.

Como se relaciona com as redes sociais?
Sempre com um pé atrás. É sempre com muita discrição, pois existe muita gente infantilmente despindo a sua vida nelas. Além disso, tenho medo que por ser um pouco leigo, esse mundo me magoe.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet?
Com a minha filha a viver no Catar, e os meus dois filhos, um em São Jorge e outro em Aljezur, no Algarve, o telemóvel dá-me o conforto e o privilégio de poder falar todos os dias com eles nas vídeo-chamadas que diariamente efectuamos. Por isso, julgo que perdendo esse meio, perderia algo importante. Mas só por isso. Quanto à internet, não a consulto diariamente. Sou muito mais interesseiro nela do que viciado.

Costuma ler jornais?
Claro que leio o meu jornal: o Correio dos Açores.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Que ao acordar nada ler nas suas páginas sobre a pandemia que nos apoquenta, pois tinha acordado de um pesadelo.

Gosta de viajar?
Adoro viajar e foram muitas e boas viagens que fiz e me deram muito prazer, qual delas a mais emocionante. Para mim, dos paraísos que mais gostei, foram a ilha do Principe, a travessia, a corta mato, em Angola, entre Benguela e Moçâmedes, e as ilhas Fiji.

Quais são os seus gostos gastronómicos?  
Com a minha perda de energia, comecei a dedicar-me à culinária, inventando e cozinhando pratos que me trouxeram grandes petiscos mas também alguns dissabores. O meu prato preferido de peixe é uma posta de congro aberta, de alcatra. Como carne, direi que a carne guisada e a feijoada da minha mulher, uma grande cozinheira, são um pitéu do outro mundo.

Qual a máxima que o/a inspira?
Que nos olhos mesmo rasos de lágrimas elas não mentem se são de alegria ou de tristeza.

Que análise faz à situação política?
Um governo inesperado, quanto a mim sem um projecto arquitectado como competiria a Bolieiro ter, como Presidente do maior partido da oposição, para a eventualidade de ganhar as eleições. Tal qual tem sido, o Governo de Bolieiro, por não se ter preparado convenientemente, tem dado muitos tiros nos pés.

Acredita que o actual governo PSD/CDS/PPM que mantém maioria parlamentar com acordos com o Chega e com o deputado Nuno Barata, do IL, tem condições para governar durante uma legislatura?
Penso que tem, por dois grandes motivos: a pessoa séria que Bolieiro é, e a consciência que os partidos aliados a este Governo têm do período sério e periclitante em que o mundo e os Açores vivem, não podendo dar margem para aventuras que nos tragam desgraças sem retorno.

Qual a opinião sobre o ensino à distância?
Bastam as desigualdades de meios existentes para que esse ensino se alicerce no erro tremendo de favorecer aqueles poucos que têm meios, comparativamente com aqueles que não têm nada para poderem lá chegar.

Qual o trabalho que, em sua opinião, deve ser desenvolvido pelo grupo SATA?
O grupo SATA tem que, em primeiro lugar, sair da égide do Governo e assentar bem os pés no chão, buscando o mando da competência e excluindo a tentação da SATA ser gerida pelos incompetentes que o Governo teima pôr na sua gestão. Quanto ao resto, penso que está no fomento do turismo interno que se projectará o grande passo para que os açorianos conheçam a sua terra, e criem hábitos de viajarem nos Açores. Claro que o Governo, diminuindo como diminuiu os custos das viagens entre ilhas, abriu essa premissa.
Há que abrir as portas das nossas ilhas, criando nos Açores aquele turismo que tanta falta nos tem feito até aqui.

Qual a sua opinião sobre a decisão de tarifas aéreas a 60 euros nos voos entre ilhas?
A minha posição é positiva pois as Flores e o Corvo ficam onde ficam, assim como Santa Maria também. Aquilo que não pode suceder é que se penalizem, pela sua maior distância, aquelas ilhas que mais necessitam de ter visitantes e formas de se expandirem.
Repare-se no abandono de Santa Maria, a ilha mais isolada dos Açores e de que ninguém fala.
(...) Santa Maria, vai continuar longe do seu próprio arquipélago?

Sempre defendeu que se devia pescar atum rabilho nos mares dos Açores.  Qual a sua opinião sobre o facto de, em determinada altura, o rabilho estar a ser vendido na lota de Ponta Delgada a um preço mais baixo do que o atum patudo e o atum voador?
O problema do rabilho foi sempre o mesmo problema. Na sua migração ele passa pelos Açores muito magro, e por tal, sem valor comercial para consumo em cru.
Recordo-me da Sociedade Corretora não querer comprar rabilho quando ele por cá passava, nesta altura do ano, dizendo que estava verde. De facto, o rabilho cozido muito magro ficava com a carne esverdeada. Com os meus dois últimos barcos, tecnologicamente preparados para pescar e trabalhar o atum para exportação para Los Angeles, apanharam vários rabilhos que aos classificar nunca encontrei um peixe com condições mínimas de gordura enquanto classifiquei vários patudos bastante gordos e com um calor comercial em Los Angeles, muito interessante.
Prova disso foi a foto de capa do Correio dos Açores, que desconheço a data, de um patudo com 64 kg que me rendeu 12 mil dólares, vendido a um sushi bar de Los Angeles. Comprei recentemente uma posta de rabilho fresquíssima, e de boa cor, mas que sem gordura alguma não a consegui comer como sashimi.
Em resumo, uma posta de patudo gordo poderá valer muito dinheiro enquanto um posta de rabilho magro pode não valer nada.

O actual Governo dos Açores deveria voltar a promover Semanas das Pescas?
Claro que a promoção da Semana das Pescas nunca deveria ter terminado, pelo prestígio que trazia à Região, ao ponto de se afirmar que nenhum biólogo teria grande consideração internacional se não tivesse uma intervenção com um trabalho seu numa Semana das Pescas, no seu currículo. Só que o dr. Fernando Lopes, Secretario da Agricultura e Pescas de então, o grande coveiro das pescas nos Açores, assim não entendeu. O novo formato já estava em formação pelo Comité Científico liderado pelo professor Kim Holland. Por isso, competirá à ciência tal formato dentro daqueles que são as actuais problemas e as novas descobertas na pesca e stocks mundiais,

Que evolução está a ter a agricultura açoriana?
Para responder honestamente a esta pergunta tenho que responder que os governos socialistas desprezaram de tal forma a ciência verde, diga-se a agricultura, fazendo com que hoje se importe mais de 60% daquilo que comemos, com péssima qualidade, quando, antes da loucura da produção de leite, exportávamos mais de 40% daquilo que produzíamos, onde se incluíam muitos dos melhores produtos do mundo.
Aquilo que se fez da Estação Agrária foi um atentado, pois os seus últimos directores nada mais fizeram do que arrebanhar os técnicos daqueles serviços a canalizarem subsídios, descurando totalmente o propósito que os conduziam na cumplicidade que existia com os agricultores açorianos.  
O maior exemplo da miséria em que se tornaram os Serviços de Desenvolvimento Agrário é o facto das 190 amoreiras existentes na suas alamedas, ter sido entregue a sua poda a uma empresa privada. Ao que se diz, essa empresa usou equipamentos dos Serviços e parte do seu pessoal, para se fazer um trabalho que sempre foi feito, com a prata da casa. Uma vergonha.                                                                                        

 

 

 

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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