6 de abril de 2021

Opinião

Casa da Autonomia, espaço nobre identitário

Um dia destes entrei no Palácio da Conceição, o que há anos não o fazia, a fim de participar numa reunião e fiquei deveras muito bem impressionado com o que vi, pois deparei-me com uma intervenção cuidada e com laivos de modernidade e inovação de agradável efeito estético.
Tais obras têm a ver com o muito que se tem dito e escrito sobre o projeto da Casa da Autonomia cuja ideia foi lançada pelo anterior Executivo Regional. O seu mérito intrínseco reside no imperativo de dar a conhecer a história política dos Açores, desde os primórdios do povoamento.
Os trabalhos levados a cabo naquele Palácio não foram, simplesmente, um empreendimento de construção civil de recuperação e salvaguarda do património construído de todo o antigo Convento da Conceição, que integra a também a Igreja, com a invocação de Nossa Senhora do Carmo, foram muito mais do que isto, eles incidem num obra que devolve à cidade de Ponta Delgada um espaço modernizado, nobre e identitário.
Fala-se e discute-se da demorada intervenção ali levada a cabo, cujas estas obras encontraram alguns percalços, devido aos estudos de natureza arqueológica relacionada com os anteriores usos das edificações daquele conjunto construído no passado, e que tiveram de ser acautelados, sob pena de descurar o dever de preservação dos importantes achados museológicos no decorrer das obras.
Estou em crer que quando for possível a visitação da Casa da Autonomia, a ilha de S. Miguel e os Açores ganharão um espaço de memória de grande valor patrimonial e histórico, assegurando as condições museográficas fundamentais para a correta e segura exposição das peças que constituirão o acervo de memórias arquipelágicas que se pretende ali mostrar.
A denominada Casa da Autonomia a funcionar nos espaços do Palácio da Conceição, será muito mais do que um museu no antigo sentido da palavra, mas um de reunião, de conhecimento, de divulgação pública e de valorização da História dos Açores.
Mesmo ainda sem estar concluída, a Casa da Autonomia já possibilita uma acessibilidade digital, cujo repositório do património cultural e histórico dos Açores é possível aceder na Azoreana-Património Digital Açores, que disponibiliza o acesso dos cidadãos às fontes de memória e ao património dos Açores, fator essencial para o fortalecimento da identidade açoriana.
Esta plataforma digital tem o mérito de ter já sido consultada por visitantes das mais diversas partes do Mundo, e constitui-se como um sistema multidimensional, dentro do qual se salienta a possibilidade de pesquisar milhares de objetos digitalizados, designadamente jornais do século XIX, património bibliográfico e arquivístico,pelo que é considerada a primeira plataforma que proporciona tal serviço em todo o país.
Fiquei deslumbrado ao entrar na antiga sala dos passaportes do Palácio e poder, inesperadamente, num ápice mergulhar o interior da Igreja barroca de Nossa Senhora do Carmo, em que no seu interior de nave única e com teto de abóbada pintado, se pode admirar o lindíssimo retábulo do altar-mor e laterais que são de talha policromada, tudo isto ante os nossos olhos que o enorme vitral desatravancadamente nos proporciona. Romperam-se os muros contíguos fisicamente separadores e eis que surge a magistral visão avassaladora do belo exemplar datado do século XVIII. Valeu a pena este momento arrebatador que fascinará qualquer um.
Celeumas à parte, merece enaltecimento todos os que estiveram envolvidos na concretização daquela obra, que fez com que Ponta Delgada e os Açores ganhassem mais um nobre espaço, de nível internacional, que prestigia a grei açoriana e encantará seguramente os visitantes residentes e os turistas que nos demandam. Vai valer muito a pena uma visita.

 

António Pedro Costa

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Categorias: Opinião

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