Das ciências biomédicas para a pecuária...

Luís Espínola realiza sonhos dos turistas que visitam a sua exploração agrícola

Para Luís Espínola, um dia de trabalho normal começa por volta das 07h00, quando se prepara para fazer a visita matinal ao terreno onde mantém 30 cabeças de gado que alimenta diariamente, dirigindo-se depois para o Alojamento Local que iniciou em 2018 com a esposa, o Basalto Negro, onde dá o apoio necessário para o pequeno-almoço, e segue depois para o Laboratório Regional de Veterinária, onde trabalha das 09h00 às 17h00 enquanto técnico superior em ciências biomédicas.
Em acréscimo, tendo em conta a paixão que descobriu também pelo turismo e a vontade de fazer algo diferente pela sustentabilidade do sector, este terceirense, natural da Feteira, acabou de adquirir uma agência de viagens, a Azooree, que tem como principal enfoque a venda do destino Açores de forma sustentável, algo em que tem vindo a trabalhar nas últimas duas semanas com o indispensável apoio da família.
Filho de lavradores, desde criança que o empresário, hoje com 30 anos de idade, desejava tornar-se médico veterinário. No entanto, quando ingressou no ensino superior optou por envergar pelas áreas ligadas à biologia molecular e à genética, gosto este que considera ter ganhado à medida que se foi inteirando das rotinas da agropecuária às quais foi apresentado ainda muito cedo, já que aos 12 anos de idade, quando o pai adoeceu, começou também a ajudar a família nestas rotinas.
Depois de terminado o curso de biomedicina, procurou um Mestrado de que gostasse e voltou à ilha Terceira, onde hoje desenvolve as suas actividades, local onde pretendia reunir a inspiração necessária para escrever a sua tese e terminar mais um grau de ensino.
Contudo, a vida trocar-lhe-ia as voltas e acabaria por deixar o Mestrado por completar depois de conseguir o emprego estável que ainda hoje decide manter. Com o seu primeiro ordenado, confessa-nos, viria a comprar um motocultivador e três bezerros, o que lhe permitiu iniciar uma pequena exploração de carne em conjunto com um amigo, o que embora fizesse apenas como forma de ocupar os tempos livres, fê-lo “apaixonar-se ainda mais pelo turismo” que se encontrava em plena expansão nos Açores até à chegada da pandemia.
Deste modo, em 2018 abriria com o alojamento local que gere em conjunto com a esposa e que lhe permite fazer “a conexão entre o turismo e as actividades locais, principalmente com os animais”, permitindo que o turista que frequenta o alojamento local possa conhecer mais sobre a actividade agrícola nos Açores sem qualquer custo acrescido.
Inclusive, conta, já chegou a concretizar sonhos de longa data de turistas que o visitaram, e que através do alojamento local Basalto Negro tiveram a oportunidade de dar de mamar a bezerros, ordenhar vacas ou segurar nas mãos pintos acabados de nascer, experiências que apesar de serem comuns para os açorianos, são-no desconhecidas para grande parte dos turistas, sobretudo para aqueles que vivem nas grandes cidades e com acesso restrito ao campo.
“Tive uma hóspede que me disse que o sonho dela era ordenhar uma vaca e realizámos esse sonho. (…) Falei com o meu vizinho que vive a um quilómetro da minha casa e fomos lá ordenhar uma vaca e ela esteve lá junto das vacas. Explicámos toda a organização, toda a exigência que a produção de leite tem, e mostrei-lhe a minha actividade normal dos vitelos na minha “mini quinta”, diz Luís Espínola.

Experiências que os Açores podem
oferecer diariamente

Para este “autodidata” na área do turismo, é este tipo de experiência que “os Açores podem oferecer diariamente” e que é “uma experiência enriquecedora que a pessoa nunca esquecerá na vida. (…) Além de todas as vistas e da nossa gastronomia, a pessoa leva uma experiência que vai contar aos seus netos e aos seus filhos. É algo que fica marcado nas pessoas”, defende este terceirense e empresário, que adianta também que este é um conceito de turismo que para além de estar mais conectado com a natureza procura oferecer aquilo a que “os millennials” dão mais valor actualmente.
De acordo com o próprio, esta forma de viver o turismo é também uma maneira de quebrar certos tabus relativamente à agropecuária, já que a partir da sua pequena exploração têm a possibilidade de ver como os vitelos são tratados: “Muitos turistas vêm com a visão de que os animais sofrem, que vivem num quadrado de 4x4 metros e quero mostrar que aqui, nos Açores, nós tentamos que os animais tenham qualidade de vida, dando-lhes 365 dias de liberdade e desmistificando muitos tabus sobre a pecuária”.

O “tempo” é um tesouro precioso
nos Açores

Apesar da rotina corrida que torna essencial o apoio da família, Luís Espínola tem hoje a plena certeza de que viver nos Açores lhe concede uma qualidade de vida incomparável com outro ponto de Portugal continental, tendo em conta que, nas ilhas, “apesar de podermos até não ter grandes rendimentos, temos uma coisa que não há dinheiro que pague, que é o tempo”, algo que espera também poder dedicar à filha que nascerá em breve.
“(…) Estamos à espera de uma filha que, em princípio, nasce no próximo mês e cada vez mais pensamos que queremos dar qualidade de vida aos nossos filhos, ter tempo para os nossos filhos e ter tempo para estar com os familiares. Temos também a vantagem de sair do trabalho e de em cinco minutos estarmos na praia e não há dinheiro que pague isso”, salienta ainda.

Pandemia foi “um desafio”

Apesar da recente chegada ao mundo do turismo, Luís Espínola realça que a pandemia se veio a tornar “num desafio” que permitiu o casal perceber até que ponto estava no caminho certo, tanto na questão do empreendedorismo como no domínio da gestão do próprio negócio, conseguindo adaptar-se graças ao público local da ilha Terceira e a uma parceria estabelecida com um massagista local que permitiu aumentar os serviços disponíveis e dar uma nova visibilidade ao projecto.
Mesmo estando em plena época baixa ainda, Luís Espínola realça que tem clientes estrangeiros a desfrutar do seu alojamento local neste momento, e que desde a segunda quinzena de Março foi possível observar o número de reservas a crescer, sobretudo entre os locais, segmento onde sente que tem havido um maior interesse e crescimento em conhecer o que é local.
Pode isto significar, propõe, que o risco mais elevado de transmissão comunitária do novo coronavírus em São Miguel acabe por levar mais açorianos a conhecer as ilhas mais pequenas: “Não sinto que estejamos a ser muito mais beneficiados, a diferença que sentimos ocorre dentro dos açorianos. Estes sim, os açorianos que iriam a São Miguel talvez acabem por escolher outra das ilhas mais pequenas para evitar a ida a São Miguel”, refere.

A aquisição da Azooree e a importância da sustentabilidade ambiental

Face às expectativas que tem para o desenrolar do sector do turismo e ao entusiasmo que partilha pela área e pela sustentabilidade ambiental, o casal que arriscou e criou o alojamento local Basalto Negro decidiu também avançar com a aquisição de uma agência de viagens, a Azooree.
De acordo com o empresário, esta era uma empresa que já existia, tendo sido criada por um jorgense que apesar de ter “uma abordagem interessante, desmotivou-se com a pandemia e decidiu fechar o negócio”. Através de um contabilista em comum, Luís Espínola tomou conhecimento da oportunidade e, depois de estudar as potencialidades em causa, resolveu arriscar.
“Analisei o negócio e achei que seria interessante porque com a Azooree conseguiria defender a minha visão para o turismo dos Açores. Não quer dizer que seja a visão correcta ou a visão errada, é a minha visão para o turismo dos Açores. A minha estratégia vai um pouco ao encontro da estratégia que tinha sido feita inicialmente, mas vou tentar optimizá-la e aumentá-la.
Acho que os Açores, do ponto de vista do visitante, defendem a natureza e a sustentabilidade. As pessoas não procuram os Açores para praia ou para o turismo de massas. Procuram um turismo de qualidade, um turismo em que vai ter tempo para ver a ilha e beneficiar das vistas, um turismo que tem que primar pela sustentabilidade, porque é essa a imagem que o turista tem dos Açores”, salienta o empresário terceirense, dando como exemplo a qualidade do alojamento que existe na ilha do Pico, que conta, “talvez, com as noites mais caras dos Açores”.
Também por esse motivo, o objectivo desta agência de viagens passa por trabalhar “apenas com pequena hotelaria” (alojamento local e pequenos empreendimentos), tendo como critérios a atribuição de galardões atribuídos ao turismo, quer a nível regional, quer a nível internacional. Em acréscimo, Luís Espínola realça que irá também trabalhar com empresas das ilhas açorianas que tenham “na sua missão a preservação do ambiente”, conclui.
 

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