Assinala-se hoje do Dia Mundial da Saúde...

Acesso aos serviços de saúde psicológica pelas populações vulneráveis dos Açores deve ser prioridade para os políticos, alerta psicólogo

(Correio dos Açores) De que forma o momento que actualmente vivemos (pandemia) tem reforçado a tónica sobre a questão da saúde mental? Essa tónica tem sido reforçada o suficiente?
(Nuno Pavão Nunes, psicólogo e director executivo da UPmind Academy) A pandemia e os constrangimentos associados, nomeadamente os consecutivos confinamentos e restrições à liberdade, a falta de contacto social e os receios à volta das finanças pessoais, da economia e da saúde física reforçaram na sociedade a importância da saúde psicológica e da resiliência como dimensões vitais para a saúde global do ser humano.
Porém, devido à escassez de recursos humanos associados à saúde mental, e pela alocação da maioria dos recursos financeiros ao COVID, o apoio psicológico tem-se demonstrado claramente insuficiente.
Actualmente, as maiores preocupações para as entidades governamentais deverão ser garantir a acessibilidade dos serviços de saúde psicológica às populações mais vulneráveis, e assegurar o estudo e a intervenção sobre o impacto da pandemia nas crianças e jovens. Estas deverão ser as prioridades dos decisores políticos - a par do reforço global dos sistemas de saúde regionais e nacionais em todo o mundo.

Enquanto psicólogo acredita que a saúde mental tem finalmente recebido o mérito que merece?
Pelo facto de o vírus não diferenciar as pessoas pelo seu estatuto socioeconómico, grau académico, raça, género ou privilégio este tem sido um período em que os problemas de equilíbrio emocional, relacional, familiar e laboral foram revelados e agravados em todas as classes sociais.
Por serem tão abrangentes e não-discriminatórios os efeitos da pandemia, o foco da comunicação social na dimensão psicológica associada à resposta individual e colectiva à incerteza contribuiu para uma maior consciência sobre a importância dos serviços de saúde mental. Um dos ganhos é a diminuição do estigma associado à procura dos profissionais, serviços e programas de saúde mental e desenvolvimento pessoal. 
A saúde física e o bem-estar mental e psicológico, incluindo um elevado auto-conhecimento, auto-cuidado, amor-próprio e inteligência emocional são, hoje em dia, medidas bem mais valorizadas de prosperidade pessoal e social – relegando gradualmente a riqueza material para segundo plano.

Tendo em conta a resposta acima, assinalar o Dia Mundial da Saúde com iniciativas que promovam a saúde mental é mais importante do que nunca perante o contexto actual?
“Não há saúde sem saúde mental.” Neste lema resume-se a importância das iniciativas que associam a saúde mental à saúde global. Precisamos de clarificar e compreender que aquilo a que se refere à “mente” e ao “psicológico” são funções e estados resultantes do cérebro, como órgão do sistema nervoso e parte integrante do corpo humano. Não existe dissociação entre doença fisiológica e mental porque somos um só.
Estudos da neurofisiologia revelam, por exemplo, que os prognósticos e impacto das “doenças físicas” estão dependentes da capacidade de resiliência e saúde emocional de cada pessoa.
Num outro exemplo, o que denominamos de psicossomático não deixa de ser uma manifestação real e física sintomática de mal-estar psicológico – e vice-versa. A experiência de dor ilustra-nos essa união e conjugação. A dor, causada por uma ferida, não é puramente física, nem psicológica. A dor é percepcionada em cada pessoa como uma sensação física, uma imagem ou pensamento e um sentimento ou emoção. A experiência real de dor engloba por isso todos estes elementos.
O Dia Mundial da Saúde serve então apenas como enquadramento onde se torna mais fácil informar, sensibilizar e educar as populações para a saúde mental.

Na sua opinião, a aproximação do fim da pandemia - ou pelo menos o seu desacelerar - podem diminuir também as doenças mentais que surgem agora em maior número?
O impacto real da pandemia só será compreendido nos próximos anos quando o aumento dos problemas de saúde mental for estudado de forma abrangente. Os dados que possuímos neste momento originam de experiências e relatos individuais das pessoas afectadas e dos profissionais “no terreno”.
Contudo, já antes da pandemia a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2017, concluía que a depressão havia crescido progressivamente durante a última década tendo-se tornado como a maior causa de incapacidade global - ultrapassando outras doenças de foro (mais) fisiológico, tais como as doenças cardiovasculares e diabetes.
As investigações sobre a saúde mental afirmam sobre o efeito cumulativo das problemáticas sociais na capacidade de resiliência emocional. Por isso, até ao momento não se demonstra ser cíclico, mas sim gradual o agravamento na saúde mental das incertezas, receios e prolongamento da pandemia (e das medidas para a gerir). A tendência será a de aumentar até que tenhamos recursos e respostas suficientes e adequadas.

De uma forma geral, quais os maiores desafios que as pessoas que não têm uma boa saúde mental encaram no seu dia-a-dia?
Uma pobre rede de apoio social e familiar e a falta de informação e compreensão sobre o problema, aliadas à dificuldade de acessos aos serviços dos profissionais de saúde são os maiores obstáculos. Refira-se que estas dificuldades de acesso podem incluir os efeitos do envelhecimento (com impacto na mobilidade, por exemplo), os custos dos serviços ou a ausência ou limitação dos recursos na sua comunidade. Paralelamente, a gravidade da doença mental também tem um efeito correspondente na capacidade para o trabalho ou para a execução das actividades de vida diária e por isso é um obstáculo e dificuldade extremamente relevante também.

Nas crianças, que sinais começam a ser manifestados que indicam que a sua saúde mental está “abalada”?
As crianças revelam dificuldades complementares no diagnóstico pois, dependendo da idade, não conseguem nem compreender, nem comunicar os seus sentimentos e experiências internas. Os sinais são numa primeira fase maioritariamente comportamentais e por isso incompreendidos por pais, familiares e educadores.
Por outro lado, fruto da própria fase de desenvolvimento inacabada das crianças e jovens e características psicológicas mais moldáveis também concluímos que a intervenção precoce é mais eficiente e eficaz, mas só quando é saudável o ambiente onde se insere essa criança ou adolescente.

Qualquer altura/fase da vida é ideal para fazer terapia?
O melhor momento de iniciar psicoterapia ou acompanhamento psicológico é no início de um problema ou quando se detecta que haverá a necessidade de o fazer. 
Todavia, na realidade, a maioria das pessoas tenta “resolver por si” numa fase inicial fazendo uso da sua capacidade de resiliência mental e inteligência emocional e só não o conseguindo é que recorre a um psicólogo. As pessoas que iniciam um processo de desenvolvimento pessoal cedo percebem que sempre que percorremos qualquer projecto com ajuda, fazemo-lo de forma mais rápida, segura e eficiente.
É importante ainda reforçar que a psicologia é uma ciência com evidência comprovada sobre o seu custo-benefício. É um investimento que todos os seres humanos deverão realizar e que tem como objectivo não apenas a redução dos sintomas ou remissão da doença, mas sim uma promoção da saúde global, do desbloquear do potencial humano e do desenvolvimento de estratégias para lidar com problemas futuros de uma forma autónoma, preventiva e proactiva.

Falando de estratégias para melhorar a saúde mental, que alterações podem/devem ser feitas para garantir melhorias neste aspecto?
De uma forma colectiva, comunidades que falam sobre a saúde mental - e priorizam a alocação dos respectivos recursos - previnem melhor os problemas de saúde mental. As problemáticas associadas à saúde mental e o impacto social e económico da depressão, ansiedade e burn-out tornaram-se mais difíceis de esconder e por isso são temas cada vez mais populares nas famílias, nas comunidades e nas organizações.
Os programas de sensibilização para a saúde mental e de literacia psicológica e emocional têm aumentado, por exemplo, nas escolas e nas empresas. Aliando estes programas às estratégias de prevenção e acessibilidade aos serviços teremos resultados globais positivos a médio e longo prazo.
Individualmente, as melhores estratégias serão investir num processo de desenvolvimento pessoal e (auto) cuidar de todas as dimensões da sua existência humana, incluindo: sono e descanso; nutrição e alimentação; exercício físico e estimulação do corpo; ambientes onde se insere; relações conjugais, familiares e sociais; hobbies e actividades de lazer; estimulação cultural, intelectual e artística; educação e desenvolvimento de competências; e situação laboral/profissional. De forma preventiva, a abstinência de comportamentos de risco e a promoção de hábitos saudáveis também são um factor importante.

Pode a “aparente felicidade” esconder uma forte deterioração da saúde mental de alguém?
É importante promover a visibilidade e a comunicação sobre o mal-estar psicológico e reforçar que a saúde mental não é apenas a ausência de doença mental.
Saúde mental é o direito à satisfação das necessidades básicas, mas também o grau de bem-estar, felicidade, integração social e realização pessoal e profissional de cada ser humano. O maior obstáculo às pessoas que experienciam sofrimento psicológico é que este não tem muitas vezes uma expressão física e visível e torna-se difícil de partilhar e pedir ajuda.
A incompreensão do outro, a falta de apoio social e familiar, o estigma e discriminação no local de trabalho são receios reais que levam muitas pessoas a esconder as suas necessidades emocionais dos outros. Culturalmente, estas temáticas também têm sido desvalorizadas ou estigmatizadas pela sociedade global. Por curiosidade, acrescento que historicamente é em períodos de crise social que as necessidades de saúde psicológica se tornam mais aparentes e logo, priorizadas.


Joana Medeiros
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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