7 de abril de 2021

Opinião

Pobreza ou riqueza digital, onde nos colocamos?

Do programa de computador à aplicação de telemóvel a opção assenta, esmagadoramente, na importação. Sem linguagens técnicas, para que todos percebamos, somos consumidores em vez de produtores do digital.
Se é certo que no campo da aplicação para telemóveis a produção regional poderá ser muito difícil afirmar-se no mercado externo, já no que respeita aos programas de computador, o cenário deveria ser diferente.
Tirando a confusão e a dispersão política, assim como o oportunismo exagerado e a oportunidade perdida de atualizar o Plano de Recuperação e Resiliência, onde na prática este plano injetará 580 milhões de euros nos Açores, importa relembrar que há dias, Mário Fortuna, da Câmara do Comércio e Indústria dos Açores, referia que “… apostar no digital e respetivas competências (…) para que nesta área “seja possível produzir cá dentro”.
Há semanas voltou a ser notícia a falha de recursos humanos em Tecnologias da Informação em Portugal, onde muitos desses recursos estão a emigrar.
Estranhamente ou não para as empresas gigantes tecnológicas estrangeiras, maioritariamente concentradas nos EUA, tardam o imposto digital e todos os dias aumentam a sua riqueza digital e, “solidariamente” contribuem para o aumento da pobreza digital nos países consumidores de tecnologia. Se este imposto falha na UE, por interesses que protegem uns em detrimento do conjunto, que Portugal avance.
Perante o referido as perguntas que se impõem é porque não temos mais investimento em formações digitais ao nível da programação nas escolas e na Universidade dos Açores; qual a razão da timidez de enquadramento elegível para os programas informáticos nos incentivos e qual o motivo de não termos uma Administração Pública (regional e local), a ser exemplo, ao adquirirem produtos concebidos por essas empresas, em vez de adquirirem soluções exportadas.
No século passado o Brasil estrategicamente estimulou empresas do setor digital. A Administração Pública foi a principal cliente, resultado? mais emprego, mais inovação (com produtos desenhados para a realidade dos setores e com capacidade de exportação de soluções TI) e um país com elevado grau de pequenas empresas do setor TI.
Mais do que encher um plano e orçamento da região e de autarquias com chavões casados com “digital”, importa criar recursos humanos na área e um mercado empresarial digital. A Tech Island é um bom exemplo para as restantes 8 ilhas e 18 concelhos.
Se formos tímidos nesta área, nos próximos tempos continuaremos a ser consumidores em vez de produtores digitais; continuaremos a ter uma região com pobreza digital por maior que seja a densidade digital alimentando gigantes tecnológicos e suas riquezas. Esta antevisão a acontecer é profundamente errada e contrária a uma estratégia da transformação digital baseada na valorização de recursos humanos qualificados da região e na produção de produtos e serviços de qualidade.


 Sónia Nicolau

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