Jovem açoriano trabalhou numa componente do software para garantir a segurança de um protótipo de táxi voador para o Dubai

Nasceu nos Estados Unidos da América no período em que os pais decidiram procurar uma vida melhor na Califórnia, mas aos dois anos de idade José Pimentel regressaria à ilha Terceira, onde acabou por ficar até ingressar no curso de Biomedicina da Universidade da Beira Interior, na Covilhã, onde acabaria por encontrar a sua verdadeira vocação na Engenharia Electrotécnica, optando por concluir um Mestrado nessa área.
Actualmente, este terceirense reside em Angra do Heroísmo, um presente que lhe acabaria por trazer a pandemia, mas continua a trabalhar à distância para a Critical Software, empresa dedicada à criação de software e sistemas de informação sedeada em Coimbra, e na qual, aos 30 anos de idade, desempenha funções de engenheiro de software em projectos ligados essencialmente à aeronáutica e, mais recentemente, à ferrovia.
Entre os projectos mais desafiantes em que participou até ao momento está aquele que o levou até à Alemanha, onde viveu durante perto de seis meses, e no qual a equipa de engenheiros que integrava tinha como objectivo “ajudar a desenvolver um controlador de voo para um octocóptero” para um cliente no Dubai.
O objectivo deste octocóptero, “parecido com os drones pequeninos”, diz José Pimentel, era o de funcionar como “táxi voador” e, portanto, ter a capacidade de transportar pessoas em segurança. Contudo, por “não ser difícil” colocar a ideia a funcionar, o verdadeiro desafio passa por “garantir que funcione sempre bem” de modo a evitar perdas, sejam elas humanas, financeiras ou intelectuais.
No que diz respeito a este projecto, o engenheiro de software açoriano adianta que participou apenas numa pequena parte do projecto, e que embora tenham já passado dois anos, estes são protótipos que “podem demorar até dez anos a saírem para o mercado”.
Ainda na área da aeronáutica, refere que teve também a oportunidade de ajudar uma empresa do ramo a desenvolver o controlador das pás – “como se fosse a caixa de velocidades do avião” – para uma nova versão de um dos modelos de aviões que servem actualmente o arquipélago nas viagens realizadas inter-ilhas.
“Foi bastante interessante. Normalmente trabalhamos em aviões em que muito provavelmente não iremos andar e, neste caso, era uma versão muito comum e que conhecia. (…) Foi interessante também porque consegui andar no avião (actual) e conversar com o piloto sobre esse assunto, porque ele estava a falar dos problemas que tinha e de coisas que sabíamos que íamos melhorar na nova versão”, relata José Pimentel.
No entanto, com a chegada da pandemia, e tendo em conta que a aviação foi um dos sectores mais gravemente afectados pelos impactos da mesma, os projectos realizados dentro deste domínio têm também diminuído, o que tem levado este engenheiro de software a trabalhar noutro tipo de projectos, ligados sobretudo ao sector ferroviário, como é o caso daquele em que ingressou há cerca de três semanas.
Tendo em conta a experiência profissional que acumulou até ao momento, José Pimentel está a acompanhar o projecto em questão desde o seu início, momento este que é fundamental para definir as estratégias utilizadas, embora não lhe seja permitido avançar muito sobre o mesmo.  
“Neste novo projecto, que para mim é onde está o desafio maior porque estou a fazer o papel de engenheiro de sistemas – eu e outros colegas meus até com mais experiência do que eu – estamos a definir o sistema para depois desenvolvermos o software, fazermos a parte electrónica e o computador – a parte física. Depois integramos tudo e vamos para os comboios para fazer testes”, explica.

O regresso aos Açores

Apesar de adorar a profissão que escolheu e de ter muito orgulho na empresa que representa, o terceirense admite que esta é uma área “crítica” e que exige muita concentração diariamente, já que trabalha directamente com contextos “em que podem morrer pessoas” e onde pode haver percas muito grandes também a outros níveis.
Por esse motivo, a oportunidade de “desconfinar” na ilha onde cresceu e de poder continuar a trabalhar a tempo inteiro tem vindo a tornar-se numa grande virtude, confessando inclusive que, aos fins-de-semana, uma das suas ocupações preferidas passa por ajudar os pais nos trabalhos relacionados com a pecuária que o ajudam a descontrair das grandes responsabilidades que o esperam durante a semana.
“Hoje ajudo os meus pais, às vezes, nos fins-de-semana, mas é como forma de libertar a minha cabeça, porque o meu trabalho do dia-a-dia, em algumas alturas, é muito pesado. Agora até é engraçado porque ele diz que não precisa muito de mim porque está habituado com o seu ritmo e rotina e eu é que lhe peço para ir”, refere José Pimentel entre risos.
Enquanto crescia, não era, no entanto, muito fã deste estilo de vida, chegando a temer a aproximação dos fins-de-semana que eram significado de longas horas ao serviço da lavoura e do sustento familiar.
“Na altura eu achava que era uma pessoa não privilegiada porque tinha sempre aquele trabalho extra do fim-de-semana por ter que ajudar o meu pai. Nas férias também tinha que o ajudar e, na altura, embora todos os meus colegas gostassem das Sextas-feiras eu odiava-as, e isto acabou por se reflectir um pouco no meu dia-a-dia agora porque não tenho aversão às segundas-feiras que, para mim, eram sempre melhores do que o fim-de-semana já que não tinha de ir trabalhar para as vacas”, relembra.
Hoje em dia, adianta, ter passado por esta experiência quando ainda era criança é algo a que dá “muito valor” e que lhe permitiu também aprender muitas outras coisas que mesmo estando a trabalhar “numa área completamente diferente” provaram ser úteis para o seu quotidiano. Para além disso, realça que esta foi também uma forma de fortalecer os laços que mantém hoje com o pai e com o irmão, que também o ajudava nos trabalhos da lavoura.

A experiência nos Estados Unidos

Mesmo desgostando de algumas das suas rotinas enquanto criança, e mesmo tendo nascido nos Estados Unidos da América e detendo a nacionalidade daquele país, José Pimentel salienta que nunca teve o desejo de deixar a ilha para trás e tentar alcançar “o sonho americano”.
Porém, no final do seu Mestrado em Engenharia Electrotécnica acabaria por viajar até ao país onde nasceu e, por coincidência, no mesmo estado norte-americano, onde teve a oportunidade de integrar um ‘bootcamp’ em programação numa escola da Califórnia, onde viveu durante um mês das férias de Verão, e onde teve a oportunidade de dar a conhecer um pouco mais dos Açores aos restantes colegas que nem conheciam a existência do arquipélago.
“Foi uma experiência espectacular. Era numa zona que desenvolvia a tecnologia nos Estados Unidos e era perto da zona em que tinha nascido, ficava no mesmo estado, e foi engraçado porque deu para fazer um pouco de tudo, pôde ver a minha terra de origem e o sítio onde cresci durante aqueles dois anos. Depois voltei para Coimbra, para a empresa onde trabalhava e onde estou até agora”, diz, sendo esta uma decisão da qual não se arrepende até hoje, passados quatro anos.
Entretanto, passado um ano desde o seu regresso à ilha Terceira, salienta que também não se arrepende desta decisão que, na verdade, o faz sentir-se “muito, muito privilegiado”, quer pela possibilidade de continuar a trabalhar à distância, quer pela liberdade que tem nos Açores e que em Portugal continental não tem vindo a existir.
“Vir para os Açores por causa do Covid para mim foi uma oportunidade e não um problema. No início estava a fazer o confinamento lá, mas fazer confinamento no continente é diferente de confinar aqui. Aqui nunca me senti confinado, tendo em conta que tive a experiência de estar confinado lá. Em Coimbra vivia num apartamento, aqui temos uma casa com mais espaço. Posso ir para os campos do meu pai e fazer o que me apetecer, e esse tipo de liberdade faz com que a pessoa não se sinta confinada”, diz o engenheiro de software, convicto de que, até ordem em contrário, o trabalho a partir dos Açores será para manter.

 

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