“Florentina-corvina” deixou emprego seguro para ser escritora e foi convidada a escrever cenas de terror em antologia portuguesa

Se, por um lado, a pandemia trouxe consigo múltiplos desafios a nível colectivo, por outro lado trouxe também tempo para que, a nível pessoal, as pessoas tivessem algum tempo para ponderar sobre o passo seguinte e para que pudessem investir em actividades para as quais não tinham disponibilidade anteriormente.
Este acabou por ser o caso de Sandra Henriques, escritora “florentina-corvina”, como se assume em relação à sua naturalidade, que depois de frequentar um workshop para criativos orientado por Seth Godin – “mastermind do marketing internacional” – descobriu o seu enorme gosto pela escrita ficcional e, em particular, pelo terror.
Através desta experiência, a açoriana receberia diversos elogios que acabariam por incendiar o seu gosto pela escrita criativa, acabando por cumprir o desafio de, a partir daí, escrever um conto por dia onde fazer o leitor sentir “o terror” era o objectivo principal, actividade esta para a qual esteve mais disponível em 2020 e que pôde alimentar com todos os livros que leu e filmes que teve a oportunidade de ver e de encarar como fonte de inspiração.
Ao acordar o “monstro” dentro de si, já em 2021, Sandra Henriques decidiu fazer um curso online de escrita de terror em português, que frequentou através da escola Escrever Escrever, em Lisboa, experiência esta que lhe permitiu criar um conto de terror que será publicado até ao final do ano numa antologia concebida por Pedro Lucas Martins, autor do livro de terror intitulado “A promessa do faroleiro”, entre outros trabalhos.
No curso em questão, conforme relembra a escritora açoriana, estavam quatro mulheres interessadas por este género literário e que irão também fazer parte desta antologia de contos de terror em português com autores desconhecidos, que será uma edição de autor publicada através da Amazon e que estará disponível em e-book e em formato físico, restando agora a esperança de que esta seja “a primeira de muitas antologias” deste género, e que o público perceba que “é possível” escrever terror em português.
Para além do facto de passar a ser oficialmente uma açoriana a escrever terror, já que em Portugal existe “imensa dificuldade em encontrar mulheres que escrevam terror” sem que este seja intercalado com outros géneros literários, Sandra Henriques terminou o curso com a certeza de que esta é uma actividade literária que pretende juntar àquelas que desenvolve actualmente, embora não se misturem.
“O curso terminou há duas semanas e só dizia às minhas colegas que agora só quero escrever ficção para o resto da minha vida. Não sei até que ponto é viável neste momento, mas vou continuar a escrever ficção. Tenho que me disciplinar, quero muito continuar a escrever terror mas estou também à espera para ver onde esta antologia nos leva a todos e qual a reacção das pessoas, pois tudo está sempre um pouco dependente daquilo que as pessoas gostam ou deixam de gostar, e o género de terror em Portugal é ainda quase inexistente”, salienta a escritora, ciente de que há público para este tipo de conteúdo.
Quanto ao “monstrinho” pelo género do terror, Sandra Henriques adianta que é “completamente viciada” em tudo o que envolva uma história de terror desde criança, aspecto este que aparenta ter herdado dos hábitos comuns que desenvolveu com o pai.
“O meu pai faleceu há três anos e eu tenho muita pena que ele não esteja cá para ver isto. Ele era um grande fã de filmes de terror, e lembro-me do primeiro filme de terror que vi: Tinha dez anos e vi-lo às escondidas da minha mãe. O meu pai achava que eu estava a dormir enquanto ele estava a ver o filme, mas percebeu que, afinal, eu estava escondida atrás da porta a tentar ver o ecrã. Então ele disse-me que mais valia ver o filme com ele mas para não contar à minha mãe. A partir daí foi um vício”, recorda a escritora.
Independentemente do género em que se escreve, a açoriana salienta que a profissão de escritor “é ingrata como qualquer profissão criativa”, uma vez que “para além da ideia romantizada que as pessoas têm em relação ao escritor”, existem também reacções adversas que desvalorizam todo o trabalho que, em muitas das ocasiões, pode demorar anos a ser concluído.

Um salto no escuro
 
Apesar de dedicar a sua vida profissional a vários tipos de escrita há vários anos, Sandra Henriques nem sempre foi escritora. Em 2014, dez anos depois de concluir a licenciatura em Estudos Portugueses, a açoriana, que na altura trabalhava num dos departamentos da Nespresso, em Lisboa, decidiu mudar o curso da sua vida profissional depois de vários meses de ponderação.
Acontece que a “florentina-corvina”, sentia a necessidade de apostar verdadeiramente na sua veia criativa e dedicar-se à escrita, o que acabaria por acontecer por intermédio do seu blogue onde relatava experiências de viagens que tinha feito, abrindo-lhe assim as portas para começar a criar o seu portfólio e acumular experiência profissional na área.
Actualmente, escreve essencialmente sobre o turismo cultural em Lisboa e nos Açores, locais que conhece como a palma da sua mão, e durante cinco anos foi “uma espécie de correspondente” destes dois locais para a Lonely Planet, conhecida por ser a maior editora de guias de viagem do mundo.
“Havia muita coisa que se percebia que era escrita por alguém de fora, que tinha estado dois ou três dias em Lisboa e que escrevia o conteúdo da perspectiva de quem está de fora, o que não correspondia à realidade. Comecei a escrever sobre os dois destinos, por serem dois sítios que conhecia bem, mas sempre com a responsabilidade de equilibrar quem vive no destino e quem visita o destino, porque esta parte da sustentabilidade é muito importante para mim”, explica a escritora.
Embora continue também a escrever sobre viagens, foco que lhe continua a trazer “mais trabalho e mais oportunidades”, a açoriana tem também vindo a fazer vários trabalhos enquanto “ghostwriter” (escritor-fantasma) para sites de empresas que, na sua maioria, actuam fora de Portugal, sendo este um tipo de trabalho que começou a ser mais solicitado pelas empresas com a chegada da pandemia.
“Houve um aumento de volume (de trabalho em “ghost writing”), pois a maior parte das pessoas achava que tinha que contratar uma agência de comunicação para fazer textos para redes sociais e textos para blogues. Não percebiam que podia ser uma coisa feita com um freelancer, como é o meu caso”, explica Sandra Henriques.
Porém, durante a pandemia começaram também a surgir solicitações que partiam de clientes portugueses, uma vez que este período mais negro os fez sentir “completamente isolados dos seus clientes” e que seria fundamental “prestar mais atenção ao digital” para ter “um site em condições”.
No que diz respeito à escrita sobre viagens, uma vez que 2020 não foi um ano bom para o turismo, Sandra Henriques acabou por não trabalhar sobre esta temática, embora tenha tido a oportunidade de participar num livro para a Lonely Planet, chamado “Secret City”, no qual teve a oportunidade de escrever sobre Lisboa e que foi publicado em Maio de 2020, “que foi só a pior altura para lançar um livro sobre viagens”, refere.
Actualmente encontra-se a trabalhar num outro livro da Lonely Planet que deverá ser publicado ainda este ano, sendo este “focado em experiências culturais” que podem ser encontradas em Portugal continental.

“O isolamento nas ilhas do
Grupo Ocidental é diferente”

No que diz respeito ao tempo em que viveu entre a ilha das Flores e a ilha do Corvo, ilha esta de onde era natural o pai e onde passava a maior parte dos Verões em família, Sandra Henriques recorda o “espírito comunitário” vivido na ilha mais pequena dos Açores e, claro, o queijo que ali se faz – também reconhecido pela própria como “o melhor queijo dos Açores”
“A vida naquelas duas ilhas sempre foi muito livre, mas o isolamento nas ilhas do Grupo Ocidental é um bocadinho diferente do resto (das ilhas). Ali sente-se mais, e o Furacão Lorenzo mostrou isso quando as ilhas das Flores e do Corvo ficaram completamente isoladas. (…) Mas isso dá-nos “estaleca” para o resto da vida, porque a maior parte das coisas de que se queixam as pessoas, mesmo em Lisboa, não é nada”, salienta.
Apesar de ter completado o ensino secundário em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, como era comum para os estudantes florentinos e corvinos, Sandra Henriques salienta que foi “um privilégio ter crescido nas Flores”, uma vez que o contexto de então a permitiu interagir com os filhos dos militares franceses que, aquando da existência da base militar francesa na ilha, frequentaram o ensino nos Açores.
Mesmo sentido alguma nostalgia ao recordar estas memórias, a escritora açoriana refere que não seria capaz de se mudar permanentemente para a ilha onde cresceu, tendo em conta a forte sensação de isolamento – seja geográfico ou cultural – que em Lisboa, cidade grande que a apaixonou na adolescência, não existe.
 

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