Neurocirurgião João Ribeiras

Os dados do teletrabalho são assustadores em termos de solidão causando depressão e ansiedade sobretudo entre os docentes açorianos

 Correio dos Açores  – Vivo rodeado de pessoas, em casa e no escritório, familiares, amigos e colegas. Ainda assim, posso ser uma pessoa solitária? Claro que sim! Diria até que muitas das pessoas que se sentem sozinhas passam a maior parte do seu tempo acompanhadas e rodeadas de outras pessoas. A sensação de solidão é algo subjectivo, individual e profundo.
João Ribeira (neurocirurgião) – A solidão é um sentimento ou um medo, o medo de estar sozinho? A solidão é, efectivamente, um sentimento. Eu “sinto-me” sozinho, por vezes independentemente do que me rodeia, como falamos há pouco. O medo, curiosamente, é também um sentimento. São duas coisas diferentes: uma é sentir-me ou não sozinho, que é essencialmente, uma experiência mental, potencialmente invisível para os outros (a não ser que eu decida expressá-la comportamentalmente). Depois, devido a essa mesma experiência de solidão e à forma como eu lido com essa experiência interna, cá está, posso desenvolver medo de voltar a sentir-me sozinho. Mas tanto o medo como a solidão são dois sentimentos.

Que responsabilidade tem a tecnologia, que é excelente para fazer determinadas coisas, neste sentimento?
 Olhe, ao contrário do que se diz, a tecnologia propriamente dita não tem qualquer responsabilidade na questão da solidão. Se dissermos, no entanto, que a forma como usamos a tecnologia é potencialmente perigosa para desenvolvermos ou exacerbarmos essa situação de solidão, sim, podemos relacionar as duas coisas.
Uma noção que não podemos perder é a de que o Homem é um ser social. Quero dizer que a enorme maioria das pessoas beneficia muito mais do contacto directo com outros seres humanos do que deste “pseudo contacto” que fazemos, por exemplo, através das redes sociais ou dos jogos online. É verdade que acontecem transformações no nosso cérebro pelo uso exagerado de certas ferramentas tecnológicas que acabam por nos afastar da necessidade de contacto com outros pelo elevado foco atencional que requerem e pela gratificação imediata que nos proporcionam. Assim sendo, é sempre aconselhável moderação como em todos os casos.

Em sua opinião, é um mito pensarmos nos mais velhos como sendo pessoas solitárias. Afinal, não são eles os mais esquecidos nas nossas sociedades. Em alguns países, eles preferem estar nas prisões do que sozinhos…
Como sabe, trabalho muito directamente com a população de idade mais avançada. A verdade é que sim, este grupo tende a sentir-se mais frequentemente sozinho. Mas isto deve-se, sobretudo, às transformações que ocorrem ao longo da vida como, por exemplo, a reforma, a morte de amigos ou familiares da mesma faixa etária, baixo nível de actividade, etc. Agora, não podemos, felizmente, dizer que ser idoso é ser solitário. Muitas vezes, é uma fase da vida que, se bem trabalhada, pode dar o espaço que não houve em vida cativa para elevada actividade social. Evidentemente que a época que agora vivemos, de pandemia, tem limitado imenso as possibilidades de estarmos presencialmente com outras pessoas mas isto tem tido reflexo em todas as faixas etárias e não apenas nos idosos.

A solidão não se fará sentir também em grande dimensão nos jovens?
 Imenso! E ainda bem que me coloca essa questão para, justamente, nos desvincularmos um pouco desse tal mito de que acabamos de falar, sobre os idosos. Como penso que já percebemos, a solidão é um sentimento que não depende de estarmos mais ou menos acompanhados, passe o paradoxo. Os jovens, pela forma como se vão organizando, as relações hoje em dia, pelo elevado e abusivo uso de ferramentas tecnológicas que nos afastam da tal necessidade de proximidade, são um dos grupos actualmente mais vulneráveis. Diria, até, que o trabalho que se possa fazer com os jovens para os ajudar a lidar com esse sentimento de solidão e aprender a diferença entre “solidão” e “estar só” é extremamente protector ao longo da vida.

O impacto da pandemia aumentou esta tendência? Para a sensação de solidão?
 Sem dúvida. Como já disse antes, precisamos de estar presencialmente com outras pessoas. E, neste caso, o que tem acontecido é sermos privados desse contacto. No caso, por exemplo, dos adultos que passaram a teletrabalho os dados são assustadores em termos de solidão e, consequentemente, sintomatologia depressiva e/ou ansiosa.

Atribuímos demasiadas responsabilidades à pandemia?
Talvez… sabe, eu acho sempre que o ser humano tem, regra geral, tendência para “sacudir” a sua responsabilidade. Isto é, sentir-me ou não sozinho passa sobretudo pela minha capacidade de processar a minha actual situação de vida e de lidar com ela de forma produtiva e saudável. Não obstante, não posso negar o colossal impacto que esta nova situação de vida trouxe a todos nós, de uma forma ou outra.

Há autores que consideram que as políticas neoliberais das últimas décadas contribuíram para o mundo solitário que construímos. Poderão os Estados e, no nosso caso, a Região, vir a desempenhar um novo papel na pós-pandemia?
 A verdade é que a sociedade, no geral, tem caminhado para uma progressiva individualização, uma tendência cada vez mais para o valor individual e não de um grupo, como um todo. Que papel poderiam os estados ou a Região desempenhar daqui para a frente? Penso que toda a sociedade socialmente justa (mas teríamos que discutir muito detidamente o que é, verdadeiramente, justiça social) é potencialmente uma sociedade menos individualista e em que cada um de nós se sentiria muito mais disponível para pensar no bem do próximo. Tal como vemos as coisas acontecer no nosso dia-a-dia creio que é inevitável uma noção de salve-se quem puder, que em nada depende do sistema ou ideologia política vigente e sim da forma como os governos aplicam as diversas medidas, que estará potencialmente a contribuir para esta individualização.

O que pensa de medidas como a que, no Japão, criou um Ministro da Solidão?
 Os japoneses são um povo muito original, sem dúvida. É curioso que, num país onde a doença mental continua a ser um tabu e não se aceitam patologias como a depressão ou o Burnout, por exemplo, se tenha criado uma instituição de estado dedicada à solidão. Não obstante, é verdade que a cultura japonesa é de tal forma orientada para o grupo e para o sucesso corporativo, em detrimento da pessoa que o indivíduo é praticamente anulado em muitas circunstâncias. Aqui podemos confirmar sem sombra de dúvidas que totalmente possível sentir-me sozinho mesmo estando permanentemente rodeado de terceiros e em contacto com eles.

É um cargo apenas simbólico?
Confesso que não sei. Teria de ter mais informação e perceber o que se faz nesse ministério para lhe poder responder.

Defende que a solidão tem efeitos na economia e na democracia?
 A solidão é um sentimento que nos pode alterar de forma muito patológica. Como tal, obviamente que terá reflexos em todas as dimensões de uma sociedade.

Como acreditar que o recrudescimento da extrema-direita se deve também à falta de integração que as pessoas sentem nas comunidades onde vivem?
É uma questão interessante, mas receio não reconhecer uma relação directa entre a solidão ou a falta de sensação de adaptação e o aumento de volume de vozes da chamada extrema-direita. Se me falar da sensação do que percepcionamos como justo ou não, do que achamos que determinados grupo étnicos podem estar a causar, ou não, a uma sociedade, da visão que essas mesmas pessoas têm da sociedade em que se pretendem inserir, tudo isto relacionado com a tal progressiva individualização de que já falamos, então sim, temos um cocktail para uma exacerbação destas questões.

  A extrema-direita também tende a ver o mundo mais hostil…
Não gostaria, no contexto de uma entrevista sobre solidão, referir-me ao perfil psicológico de determinado grupo ideológico.

A bondade pode atenuar as políticas neo-liberais e atenuar a solidão? Quer explicar?
 A bondade ou, se quisermos, a capacidade de ser e estar pelo próximo, de certa abnegação é um processo transformador do ponto de vista neuropsicológico. Faz-nos activar, literalmente, partes do cérebro que nos distanciam de nós mesmos, isto é, que nos ligam a algo maior que nós próprios, individualmente. Sim, é um caminho excelente para atenuar a solidão.

Já se sentiu sozinho? Quando?
 Muitas vezes. Sobretudo, como a maioria de nós, perante obstáculos que julgamos como mais difíceis de ultrapassar e quando, por qualquer motivo, sinto que esses obstáculos são apenas e só da minha responsabilidade e controlo para solucionar. O truque, se quiser, está na forma como aprendo a processar esse sentimento de solidão, perceber que nunca estamos verdadeiramente sozinhos, que existe sempre ajuda, se soubermos onde procurar e como a solicitar.
 Em último, vou aprendendo que, no extremo, se me tenho a mim próprio nunca estou sozinho! Precisamos de aprender a gostar de estar connosco mesmos nos bons e nos maus momentos.

João Paz

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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