1 de agosto de 2021

Opinião

Mitos do Holandês Voador

Há de ter sido em Phantom Ship/O navio fantasma, publicado originalmente em 1839 por Frederick Marryat, que deparei, há mais de cinquenta anos, com referências à lenda do holandês voador. Não era talvez uma grande obra literária, embora, mais tarde, me tenha apercebido de que alguns livros deste autor, que foi comandante da Royal Navy, mereceram ser traduzidos por Jorge de Sena. Vim também a aperceber-me de que a lenda começou por referir-se, em obras de autores anteriores, ao barco-veleiro e não ao respetivo comandante: a história do veleiro-fantasma do século XVII, condenado a vaguear eternamente pelos oceanos, por ter o seu comandante ousado desafiar os poderes divinos ao persistir em passar, sem atender às súplicas dos seus aterrorizados marinheiros, para além do Cabo da Boa Esperança, em algumas versões, ou, noutras, do Estreito de Magalhães. Por outro lado, o tratamento dos diversos autores faz variar o nome do comandante do navio amaldiçoado: um dos nomes invocados, o do capitão que, para se salvar, fizera um pacto como o diabo, é Bernard Fokke. Terá sido pela semelhança de sobrenome que Anton Fokker, jovem piloto durante a Grande Guerra de 1914-18, projetista de aeronaves e inventor de soluções como a que permitiu cadenciar o disparo da metralhadora por entre as pás das hélices dos primeiros aviões de combate nessa guerra, também ficaria conhecido como “O Holandês Voador”? –parece-me que terá bastado o próprio currículo. Certo parece ser que a ideia da construção de uma das mais famosas aeronaves de combate alemã, o triplano Fokker Dr. I, que contribuiria para tornar imortal o nome do “Barão Vermelho” Manfred von Richthofen, foi da sua autoria. Terminada a Grande Guerra, Fokker foi o responsável pela fábrica de aeronaves holandesa com o seu nome. Nessa qualidade surge na série recentemente passada na RTP2, “Turbulent Skies”, que tenho referido em artigos anteriores como motivação para o enfoque no tema dos primeiros vinte anos da aviação civil, ou seja, do que agora designamos simplesmente por transporte aéreo, desde que surgiram as primeiras companhias de aviação, entre as quais a KLM, ainda existente.
Depois de, na base aeronaval da US-Navy, instalada em Ponta Delgada em 1918 até terminar a Grande Guerra, terem voado os hidroaviões de patrulhamento marítimoCurtissR-6, N-9 e HS-2L, e de por aqui ter feito escala, em 1919, o NC-4 “Liberty”, naufragados os NC-1 e NC-3, que tinham cruzado o Atlântico Norte, vindos da Terra Nova, a caminho de Lisboa e Plymouth, apoiados por Destroyers americanos, colocados de 50 em 50 milhas, como “faróis” para orientação do rumo, a primeira aeronave nos céus açorianos foi, em 1926, o Fokker III.Wn.º 25 “Infante de Sagres”. Saíra da Doca do Bom Sucesso, no estuário Tejo, para fazer escala na Madeira e ter uma aventura atribulada que nem pôde concluir-se, como chegara a estar planeado, por voos às baías da Horta e de Angra, nem ficou em condições de regressar a Lisboa, se não desmantelado a bordo de um navio.Cinco hidroaviões de flutuadores deste tipo haviam sido encomendados pela Marinha Portuguesa em 1923 ao construtor holandês. Quatro deles chegaram a Portugal a partir de agosto de 1924, o primeiro dos quais pilotado por Sacadura Cabral, e ficaram identificados na Marinha pelos números 25 a 28. Num dos três recebidos na Holanda a 15 de novembro, perderam-se, navegando para Portugal, Sacadura Cabral e o mecânico Pinto Correia, nos nevoeiros do Mar do Norte. A encomenda dos cinco havia sido proposta por Sacadura Cabral após a aventura da sua viagem de 1922,com Gago Coutinho, entre Lisboa e Rio de Janeiro. O FokkerT.III era um avião com fuselagem comprida, revestida a metal, asas baixas grossas e longas, revestidas a madeira, com um pequeno estabilizador vertical e com três cabinas sem cobertura, espaçadas ao longo da fuselagem. Podia ser construído como hidroavião ou como avião de trem para pistas terrestres. Foi com um desses FokkerT.IIIW, o n.º 25, batizado “Infante de Sagres”, que os tenentes aviadores baseados na Doca do Bom Sucesso, Moreira de Campos e Neves Ferreira (este último, açoriano, nascido em S. Miguel), propuseram e organizaram em 1926 o voo que pretendia ligar pela primeira vez Portugal continental aos seus arquipélagos da Madeira e dos Açores por via aérea. Saídos da Madeira, depois de alguns percalços, uma avaria na aproximação aos Açores, fê-los amarar, a 9 de maio, à vista de Vila do Porto, Santa Maria. Reparada (a bordo estava também o engenheiro-maquinista naval Ernesto Costa), a aeronave voou de Santa Maria até à baía de Vila Franca, onde pernoitou, saindo no dia seguinte,10 de maio, num último voo de 25 minutos, para Ponta Delgada.

 

 José Adriano Ávila

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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