3 de outubro de 2021

Opinião

4 de Outubro, Dia do Animal e do Médico Veterinário

Vivemos numa terra em que as vacas salpicam com bonomia a paisagem. Na maioria pretas e brancas, cores que, no verde num primeiro plano e no azul mais ao longe, estão numa harmonia que chamaria a atenção de Vergílio, se neste século tivesse vida. Certamente o inspiraria a escrever as Novas Geórgicas. Já o vejo, a fazer viver no seu texto aqui e ali umas vaquinhas, mais acolá o nascimento de um bezerro, retratando com o seu talento magistral a vida do campo.
Todos sabemos, independentemente de termos um contacto com maior ou menor intimidade com o mundo rural, que por vezes durante o parto, a vaca e o seu filho precisam de ajuda, por diversos motivos. Nessa altura, é chamado a intervir o médico veterinário ou a médica veterinária. Ambos igualmente bons parteiros! Depois da avaliação do que está a dificultar o parto e da melhor técnica a utilizar, traz-se à vida mais um novo ser, cuidando também da mãe e de tudo o que é necessário para que o futuro dos dois seja saudável.  Os mugidos de satisfação fazem-se sentir, sinal de que tudo está bem. Até o veterinário sorri, a missão foi cumprida!
Com este pequeno episódio retrata-se como o médico veterinário é chamado em defesa dos animais quando algo os faz perigar.
Situações análogas, isto é, em que o médico veterinário intervém em socorro dos animais são inúmeras. Basta considerar apenas as espécies de animais (pecuárias, domésticas, exóticas, terrestres ou aquáticas) e os seus contextos (de companhia, silvestres ou pecuários) para perceber quão variadas são as possíveis situações a que os médicos veterinários são chamados para junto dos animais em sua defesa. Esta é daquelas profissões que exige uma relação de muita proximidade. Não há defesa dos animais sem estar junto a eles. A origem da profissão de médico veterinário e a sua missão convocam a esta proximidade, que exige também humanidade, atenção e cuidado.
A clínica e a cirurgia praticadas pelos médicos veterinários são o que mais salta à vista na defesa dos animais. É esta a experiência da maioria dos cidadãos: deslocarem-se a uma clínica veterinária para tratamento do cachorro com gastroenterite ou da cadela com necessidade de uma cesariana ou simplesmente para serem identificados, vacinados e desparasitados os seus animais de companhia.
Mas há mais para além destas dimensões de actuação usualmente mais destacadas, que acabam por ter uma influência decisiva na defesa do ambiente e da saúde pública. Por exemplo, a participação que têm na luta contra as resistências aos antimicrobianos, na prevenção e erradicação de doenças dos animais transmissíveis aos seres humanos, na biossegurança, na segurança alimentar, no uso de medicamentos de forma a garantir que não há contaminação dos solos e da água ou no desenvolvimento e implementação de sistemas mais amigos do ambiente.  Os saberes técnico e científico que estão na base da formação em medicina veterinária permitem que quem pratica esta profissão esteja preparado a compreender os animais sob diversos prismas e a zelar pelo seu bem-estar. Esta ideia muito prática tem uma ressonância etimológica com a origem latina da palavra advogado.  Estando os médicos veterinários junto deles e sendo quem bem os interpreta e bem traduz as suas necessidades, também é quem melhor lhes dá voz. Assim, não é excessivo considerar estes profissionais como advogados dos animais. Não se trata da sua defesa perante uma acusação, função dum advogado em contexto judicial, mas do seu patrocínio em diversos outros domínios (satisfação das necessidades nutricionais e ambientais, promoção da saúde e cura da doença, expressão de comportamentos próprios, entre muitos mais).
C.S. Lewis criou um mundo de fantasia nas Crónicas de Nárnia, onde os animais falam.  “Nárnia, Nárnia, desperte! Ame! Pense! Fale! Que as árvores caminhem! Que os animais falem! Que as águas sejam divinas!” diz Aslam. Pois neste mundo onde vivemos, não falando os animais, pelo menos advogados que falem por eles existem.

Manuel Leitão

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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