17 de outubro de 2021

Opinião - Crónica da Madeira

Realidades do quotidiano Inquietante: A maioria dos Ricos não sente a Amargura dos Pobres

Quando este Presente, herdado de um Passado
tão inovador quanto deslumbrante
na descoberta de tantas coisas, mas tão negro,
turbulento e sangrento, for Futuro se os
Seres humanos continuarem a morrer de fome,
o ambiente degradar-se ainda mais,
as guerras a sucederem-se matando e mutilando tantas vidas.
Se tudo isto continuar foi porque todos nós fechamos
os olhos e as nossas vozes não foram ouvidas.

Muitos ricos, indiscutivelmente, enriqueceram com as suas iniciativas, com a sua dinâmica, com a sua visão e também com o esforço e trabalho dos seus colaboradores. Aqui entrou o fator sorte. Outros roubaram, pura e simplesmente, e se não roubaram, como disse São Jerónimo, herdaram de quem roubou. De resto quem honestamente trabalha uma vida inteira, não fica nunca rico. O que as estatísticas nos apresentam em percentagem de pobres relativamente aos ricos é assustador e dá-nos a visão terrificante de um mundo que inverteu os valores pondo-os ao serviço da economia, quando a economia é que deveria estar ao serviço dos valores. A mim pouco me importa que os ricos sejam ricos. O que muito me aflige é que os pobres sejam cada vez mais pobres, que vivam neste nosso país em condições miseráveis, indignas para um ser-humano. Desgraçadamente pessoas há que dormem nas ruas que não têm que comer! Gente que habita em barracas de zinco e de tijolos esburacados que quando chove alaga o chão onde se deitam! Crianças tiritando com frio, desnutridas, olhos de espanto! Mulheres e homens embrulhados em cartões, dormindo ao relento! Esta é a parte do país escondida porque a outra mostra abundância. É a contradição real dos factos. Há zonas em Portugal, ruas e recantos, humana e urbanisticamente tão degradados que dão a sensação de estarmos a assistir a um daqueles filmes surrealistas do cinema italiano, do pós-guerra!
Alguns leitores dirão: “é assim em todo o mundo.” Eu sei que é mas o que entristece profundamente é que sendo Portugal um país pequeno, os governos foram incapazes, poder-se-ia já ter solucionado muitos destes gravíssimos problemas. Deixámos cair as indústrias. Não se apoiou algumas delas não permitindo a criação de empregos.
 Os salários são tão vergonhosamente baixos; os hospitais estão cheios; as consultas são permanentemente adiadas, etc., etc,. Um país católico, como o nosso, cuja doutrina é de interajuda das populações, mas, infelizmente, essa não existe. Raflles dizia que distribuir um pouco do dinheiro dos ricos (que não deixarão nunca de serem ricos) para dar aos pobres era honesto. Teríamos uma sociedade mais saudável, mais justa, mais equilibrada.
Os ricos, muitos, nunca sentiram a amargura dos pobres, talvez por isso a pobreza seja um assunto secundário, razão de estarem indiferentes a estas situações tão injustas quanto aflitivas. Um conhecido empresário que tratava com uma certa indiferença os seus empregados, esquecendo de que sem estes não teria atingido a fortuna que fez, foi surpreendido por uma doença grave. Antes de morrer, foi a um dos seus escritórios e tirou de um cofre um número considerável de barras de ouro. Julgava ele que com aquele ouro todo poderia comprar a vida. Ficou tudo na terra. Os seus cinco filhos, à distância de quatro anos da sua morte, já espatifaram mais de metade da sua fortuna. Que eu tenha conhecimento este empresário, sentado na sua glória de ser rico, não era dado a obras de caridade e nem sequer praticava o mecenato.
Um dos grande Mecenas deste país, que me merece especial respeito, é o Comendador Rui Nabeiro que, num gesto magnânimo, distribui parte dos seus lucros por obras caritativas: investe nos mais necessitados, dá-lhes calor humano, incentiva-os a estudarem; prepara-os para o futuro. A sua filosofia integra-se no espírito franciscano: “É dando que se recebe. É amando que se é amado!” Seguindo esta filosofia de dar e dar-se inteiramente ao seu próximo ele faz do seu percurso de vida um verdadeiro apostolado. Talvez desta vontade de ajudar o seu semelhante, nele se redimensionar como ser-humano, tenha nascido o ter-se feito homem por si próprio, ter experimentado a amargura dos pobres; não ter herdado grandes fortunas, fez dele o ser-humano maravilhoso que é: digno, respeitado e amado por todos. Há um aspeto bastante relevante é que o Comendador Nabeiro incutiu nos seus filhos o espírito de dádiva, de ajuda e respeito que lhes devem merecer os mais necessitados e o pessoal que com ele trabalha. Tive o grande prazer de com ele falar, à porta de Secretaria do Turismo, uma só vez e de relance. Logo me apercebi que estava perante uma personalidade fascinante, com um profundo respeito pelos outros, pelos seus colaboradores; gratidão e admiração por todos eles. A noção exata do que estes representam para a sua empresa. Dias mais tarde fiz-lhe um pedido para uma determinada entidade e logo me respondeu positivamente. Se mencionei o nome do Comendador Nabeiro é porque ele constitui um grande exemplo neste país.
O problema deste nosso país é que os políticos só visitam os bairros, de tijolos ou de lata, quando acontecem eleições. Aí sim, prometem e mostram a degradação humana e urbana. Depois já se sabe: fica tudo na mesma! É assim há anos. Está um pouco na génese dos políticos.
Relativamente às empresas, muitas delas, aproveitaram a pandemia para “sacudirem” alguns dos seus colaboradores, não se sabe a que critérios obedeceram. Conheço um casal, meu amigo, que com 20 anos de casa, foi “sacudido” de um dia para o outro da empresa à qual deu muitas horas de trabalho e suor. Ajudou a “robustece-la”. Isto é; a encher os bolsos dos patrões. De um dia para o outro desorganizou a sua vida. Os filhos que estudavam em Lisboa voltaram para a ilha. A empresa fez as contas e deu-lhe uma indemnização. Uma rescisão de contrato, por mútuo acordo, até porque se o casal não aceitasse encontrariam outros pretextos, pouco ortodoxos, para que abandonasse o seu posto de trabalho. Nem uma palavra de gratidão. Foi uma negociação: “come e cala-te”. É incompreensível que assim seja, mas, infelizmente, aconteceu em muitas empresas portuguesas.
Felizmente começa-se a saber que, em alguns países, os dividendos das grandes empresas distribuem-se também para obras de caridade ou para instituições que realizam estudos e pesquisas que conduzem à descoberta da cura para tantas doenças. O mundo precisa de ser olhado de outra forma: milhões morrem de fome, em África, na Ásia. São Regiões que nem água têm para beber. É uma desigualdade aterrorizadora que necessita, cada vez mais, de ser refletida e jamais ignorada, sobretudo, pelos governantes, a eles compete-lhes a missão de traçarem programas que proporcionem bem-estar aos povos, em vez de serem corruptos e tirânicos.
No Afeganistão, por exemplo, há multidões sem comer: há mulheres selvaticamente chicoteadas nas ruas e tantas outras a quem lhes foi tirado o direito de estudarem, de trabalharem. Foi-lhes tirado a liberdade de saírem e até de pensarem. Há cadáveres pelas ruas. Com acordos ou sem acordos os Talibãs são uns selvagens que se servem de uma religião para fazer as maiores atrocidades. E tudo isto, que é cruel e monstruoso, acontece ainda perante o olhar pacífico de alguns governantes que permanecem em silêncio. É vergonhoso! Embora haja já 20 países acordados em ajudar os afegãos. O dinheiro não pode ir parar às mãos dos Talibãs. Eles serão infelizmente os interlocutores. E que condições irão impor?! Não tarda muito que o terrorismo se espalhará ainda com maior intensidade no mundo e, obviamente, na Europa. Tornar-se-á incontrolável.
Acontecimentos que se passam todos os dias no mundo onde vivemos. Situações que não nos podem deixar indiferentes. Não é demagogia – Isto é a realidade confrangedora, sem dó nem piedade. Este meu pensar nada tem a ver com políticas. O único rótulo é o de querer colaborar na construção de um Mundo Melhor ao qual estamos todos, em consciência, obrigados a fazê-lo

 

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Categorias: Opinião

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