17 de outubro de 2021

Opinião - Ribeira Grande: Nascimento de uma Vila

O Palco - I

Investiguei e escrevi este livro durante os sucessivos confinamentos. Em detrimento da vírgula ou daquela palavra imaculada, ou ainda da ordem certa, escolhi a vida. Dedico-o à minha Ribeira Grande. Agradeço à Câmara Municipal da Ribeira Grande o apoio, na pessoa do seu Presidente, Dr. Alexandre Branco Gaudêncio.
Em que locais terão decorrido as cerimónias dos primeiros passos oficiais de Vila? Na Casa do Concelho e na Praça à volta do pelourinho. Na altura de tomar posse do termo, no espaço de fronteira do termo. Ao que nos diz Frutuoso, ainda antes de a Vila ser provida de oficiais, antes mesmo de o Rei lhe ter dado Foral, já havia Casa do Concelho. E, a exemplo do lugar de Ponta Delgada, antes de ser Vila, já haveria praça. Que garantias temos do que Frutuoso diz ser correcto?
Que significará a festa? Para tentar uma resposta aceitável, iremos recorrer a estudos na área da Antropologia e da Etnologia. Vamos dar um salto no tempo, até à visita régia de D. Carlos I, em 1901, aos Açores. A terra de todos os dias tinha de estar diferente para aquela ocasião única, exigia-se uma transformação. Vejamos o caso de 1901: ‘o espaço físico e o tempo ordinário da cidade eram transfigurados, desta forma, num espaço-tempo festivo (…).’ Essa transformação era feita de modo a ‘mobilizar a adesão de protagonistas e espectadores.’ Ora, ‘funcionando como um poderoso sistema de comunicação visual e auditiva das mensagens dos poderes institucionais.’
Como chegava aí? Recorrendo a ‘elementos decorativos plásticos (arcos triunfais, colchas, bandeiras, verduras, flores…) luminosos (iluminações públicas, fogo de artifício), sonoros (repicar de sinos, salvas de artilharia, aclamações), musicais (Hino nacional, actuação de filarmónicas) (…).’ Recuando a 1508, mais coisa menos coisa, materiais diferentes, a situação não deve ter diferido muito no essencial. Suponho.
Em 1901: ‘envolvia igualmente a produção, a difusão, o consumo e a exibição de múltiplos instrumentos emblemáticos eficazes e mobilizadores (bandeiras, bandeirolas, emblemas, gravuras, fotografias, postais ilustrados, medalhas comemorativas) que marcavam os espaços públicos e os ambientes domésticos, promovendo a comunhão simbólica da população com a monarquia, o Rei e a Casa Real, assim como a celebração da identidade e valores regionais e nacionais.’
Em 1508: os meios foram outros, é certo, mas terá havido algo que tenha funcionado de modo idêntico ou semelhante. Por exemplo: o pelourinho, o Alvará, o livro do tombo, os pelouros; as varas levantadas das vereações; a própria casa de Audiências; a cadeia; os pesos e medidas. Tudo isso seria pontuado com o som de tambores e de gaitas de foles, de estrondos. E o piso da praça, provavelmente de terra batida, haveria de estar mais limpo e nivelado do que o seu habitual e talvez atapetado de verduras odoríferas. As janelas das casas ao redor da praça e nas ruas que a ela conduziam, provavelmente, estariam enfeitadas com colchas.4
Isso passa-se nesta altura com o Rei D. Manuel: ‘(…) No caso de D. Manuel, sabe-se que além de amante de música, simpatizava com a dança, praticando essas artes com as damas do Paço em ocasiões festivas.
É provável que durante a ocasião, tivesse havido lugar a jogos. Frutuoso fala-nos dos jogos mais concorridos da altura (não diz se daquela era de 1508 ou não): ‘Naquele tempo, não tinham os homens outro passatempo, nem exercício em que se desenfadar, senão em jogar os mancais de ferro, ou a pela, ou em correr as pedras, que se costumava muito nesta ilha, pondo certo número delas em um lugar e dali as havia um de passar a outro, uma e uma, enquanto o outro fosse e tornasse a uma parte ou lugar fora daquele em que a aposta se fazia; e se chegava primeiro, antes que aquele as acabasse de mudar, ganhava o prémio, e, se depois, perdia.’ Aliás, o campeão da ilha do jogo de correr pedras era Matias Mendes, da Ribeira Grande. Outra actividade lúdica para preencher os festejos e atrair gente da terra e de fora era correr touros.
O que se fazia próximo da elevação a Vila? O jogo de canas. Frutuoso refere um que se realizou na praça: ‘o dito Simão Lopes, jogando as canas um dia, na praça da vila da Ribeira Grande (…). Simão Lopes, que será o primeiro Juiz dos Órfãos da Ribeira Grande em 1515, pode muito bem ter praticado o jogo de canas ou outro naqueles dias de festa da elevação a Vila.
Para participar num possível jogo de canas naqueles dias, estariam, entre outros possíveis, disponíveis bons cavaleiros da terra e de fora dela. Considerado bom cavaleiro, era Fernão Jorge (o que fora pedir ao Rei que elevasse Ponta Delgada a Vila).9 De João de Aveiro, homem da terra, Frutuoso disse: ‘também tão ligeiramente pelo areal, ao longo do mar, que lhe não achavam rasto, senão de meio pé para diante.’ Frutuoso elogia os dotes de bom cavaleiro de Luís Gago. Ou João Tavares e os filhos. Ou ainda de Baltasar Vaz de Sousa, Simão Lopes de Almeida, Manuel da Costa, Gaspar de Sousa, Pero Teixeira, Adão Lopes, de Rabo de Peixe.
Outro episódio, envolvendo João da Horta, primeiro Procurador do Concelho, é bastante elucidativo. A praça da Ribeira Grande era igualmente usada para bailar: ‘mandou um porteiro apregoar que toda a pessoa, a que ele devesse, viesse aquele dia à tarde à praça e ali lhe faria pagamento do que lhe devia. E vindo ele com um gaiteiro de gaita de fole, como então se costumava, mandou por mesa e cadeiras na praça e assentar e tanger o gaiteiro, onde vieram os credores, um dos quais era Pantaleão Fogaça, mercador portalês e rico, e o dito João Dorta disse a todos que estava ali com sua pessoa e dinheiro para lhes pagar, com tal condição que cada um havia de bailar ao som da gaita. Aceitaram todos a condição, senão Pantaleão Fogaça, dizendo que pela vida o não faria, quanto mais por dinheiro. Mas, vendo a João Dorta fazer pagamento aos mais e não a ele, botou a capa fora dos ombros e pôs-se no terreiro a saltar e a balhar, ainda que o sabia mal fazer, e com isso foi satisfeito e pago da dívida.’                  (continua)
Lugar das Areias de Rabo de Peixe

Mário Moura

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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