17 de outubro de 2021

Opinião

Por um acaso há 367 anos

Assinalou-se no dia 15 de outubro a pregação do Sermão de Santa Teresa no Colégio da Companhia de Jesus em Ponta Delgada em 1654 pelo Padre António Vieira.
Não fosse o Grupo Musical Johann Sebastian Bach e a data passaria despercebida. Em boa hora surgiu a iniciativa deste grupo, dedicado à música antiga, de fazer um espectáculo para os jovens do ensino secundário alusivo a este acontecimento, no dia 15 de outubro, precisamente na Igreja do Colégio dos Jesuítas em Ponta Delgada, intitulado “Sermão de Santa Teresa”, que aliou a encenação e a interpretação musical. Foram realizadas duas sessões que despertaram o interesse e a atenção dos jovens.
É um privilégio termos o Grupo Musical Johann Sebastian Bach nos Açores. A qualidade musical do grupo justificaria por si só a menção do evento. Outro tanto de interessante é a história que conduziu o Padre António Vieira à ilha de São Miguel.
Em terras do Maranhão, no Brasil, motivado por diferentes pontos de vista sobre o tratamento dado e a dar aos indígenas, o conflito reina entre os jesuítas e os colonos. Os colonos tentam junto do rei a anulação das leis de proteção dos índios vigentes desde janeiro de 1653.Existe muita confusão e incerteza. O Padre António Vieira embarca em São Luís do Maranhão para Lisboa em junho de 1954, quase secretamente; apenas revelando a sua intenção, bem próximo da viagem, aos seus colegas de missão. Iria tentar a defesa da causa dos indígenas. Navegando perto dos Açores uma forte tempestade atinge o navio, que transporta açúcar e outras mercadorias, parte os mastros do navio, que adorna e fica à deriva. Ficam os passageiros agarrados à amurada por largas horas em perigo. Por ali anda também um corsário holandês, que cobiçoso, ou não fosse essa a sua natureza, se apodera da carga de valor, deixando os passageiros na ilha Graciosa. Valha-nos isso! Tiramos o chapéu ao corsário! A carga verdadeiramente valiosa foi salva! Os passageiros vão de seguida para a ilha Terceira, onde existia um colégio jesuíta e depois para a ilha de São Miguel.
E aqui o temos, em São Miguel, pregando: “Acaso, e bem acaso, aportei às praias desta Ilha; acaso, e bem acaso entrei pelas portas desta Cidade; acaso e bem acaso me vejo hoje neste púlpito,(…). E quem me disse a mim, nem a vós, se debaixo destes acasos se oculta a algum grande conselho da Providência Divina?”. Grande admirador de Santa Teresa de Ávila, o que o moveu foi sempre o mesmo que a ela: Jesus Cristo; móbil esse, que admiravelmente a leva a dizer “Move-me enfim o teu amor, E de tal maneira, Que ainda que não houvesse Céu eu Te amaria, E ainda que não houvesse inferno Te temeria.”
Uma particularidade interessante é estar o sermão que aqui pregou temporalmente entre dois dos mais conhecidos sermões do Padre António Vieira, o Sermão de Santo António aos Peixes e o Sermão da Sexagésima.
No primeiro, pregado na capela do Senhor Bom Jesus dos Navegantes, a mais antiga igreja do Maranhão, três dias antes do embarque para Lisboa, sábado 13 de junho, o comportamento dos colonos é fortemente censurado, satiricamente, não sem o uso maravilhoso da língua portuguesa, que a sua perspicácia, coragem e inteligência lhe permitiam. As dúvidas sobre o sucesso da sua missão são também abordadas.O segundo, já em Lisboa, é pregado na capela real em 1655, e inicia com a mesma reflexão que fez no Sermão de Santo António aos Peixes: mais uma vez expõe as suas reflexões sobre as condições para o sucesso da pregação e sobre o êxito ou fracasso da missão, no primeiro utilizando os signos evangélicos do sal e da terra; desta vez os do semeador e da semente.
Fruto da boa relação, amiga, com o rei D. João IV, que o admira, consegue um novo regimento para os índios e também mais padres para a missão e um novo governador para o Maranhão.
Esta viagem atribulada do Padre António Vieira foi apenas uma das sete vezes que atravessou o Oceano Atlântico. Espaço foi o que nunca lhe faltou para percorrer; de canoa e a pé fez milhares de quilómetros no Brasil, em rios, grandes e pequenos, areais e caminhos desbastados à força de braço. A sua vida, os seus textos, a sua obra, a sua genialidade, o seu prodigioso espírito fazem dele uma das maiores figuras de Portugal, daquelas que valem mesmo a pena conhecer.
“E quantas vezes os que pareceram acasos foram conselhos altíssimos da Providência Divina!”. Assim começa o sermão de Santa Teresa. Adregou o Padre António Vieira em São Miguel e também por um acaso surgiu esta coluna de uma conversa fortuita com um membro do grupo musical Johann Sebastian Bach, que me fez recordar este episódio da vida do grande Padre António Vieira.

Manuel Leitão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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