Rachel Korman, a brasileira que escolheu os Açores para viver e colocar um festival de videoarte no calendário cultural de São Miguel

Rachel Kornam, de ascendência polaca, brasileira de nascimento e portuguesa por adopção de nacionalidade é açoriana de coração. Jornalista de formação, foi na área da cultura que descobriu a sua vocação. Hoje é o rosto do Fuso Insular, festival que tomou forma há três anos e já entra no calendário cultural de São Miguel, pretendendo, em breve, alargar-se ao arquipélago. Este projecto, uma extensão do Fuso - Festival de Vídeoarte Internacional de Lisboa, tem a sua marca na capital desde há 13 anos, e com Rachel Korman à frente dos seus destinos desde 2017. O Fuso é um projecto da Dupla Cena e da Horta Seca, com direcção de António Câmara.  
Nesta terceira edição, de 27 a 31 de Outubro, o Fuso Insular apresenta, “além das três sessões curatoriais da Mostra de Videoarte, um Ciclo de Cinema dedicado ao pensamento e à criação da artista convidada Susana de Sousa Dias,  com a exibição de três filmes emblemáticos da realizadora, conta-nos a entrevistada.
 “Nos Açores percebi que havia espaço para desenvolver o festival. Aqui faltava conhecimento do que é a videoarte. Em conversa com o meu Director [António Câmara] chegamos à conclusão de que podíamos avançar com a Mostra. Foi ele que me convidou para fazer o Fuso de Lisboa e foi quem incentivou e incentiva a realizar o Fuso Insular.
No primeiro ano, em 2019, fizemos uma edição pequena em São Miguel, com foco na vídeoarte portuguesa, mostrando a sua evolução histórica. Foi bem aceite. Na ocasião, tivemos uma pequena parceria com a Câmara Municipal de Ponta Delgada e com o Museu Carlos Machado. Temos a tradição de fazer os festivais em lugares inusitados. Em Lisboa fazemos nos jardins e palácios. Então, queríamos manter essa mesma visão e na Igreja de Santo André conseguimos um ambiente maravilhoso para a primeira edição”.
A segunda sessão foi aumentada e a deste ano confirma-se na sua extensão, alargada a várias parcerias.
Com o passar do tempo e estando no meio artístico, a Directora Cultural, através de vários contactos, percebeu que “o que falta na ilha é a formação para os artistas. Não há uma escola de arte. Então decidimos avançar para um programa de residência a que chamamos de “Laboratório, imagem e movimento”, um espaço dedicado à criação de obras em vídeo, em parceria com o Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas.
Houve um concurso, em que não interessa o currículo mas sim a motivação. “Era bom ter todos os candidatos, mas não temos condições físicas para isso”.
Depois de seleccionados, as pessoas participaram no Laboratório nos meses de Verão, de Julho a Setembro. Houve uma componente teórica a partir do próprio trabalho do artista convidado para ministrar o curso. Neste tempo também tiveram de preparar um vídeo, até 10 minutos, com acompanhamento de André Laranjinha. Os trabalhos finais vão ser apresentados na última semana de Outubro.
Por isso, hoje o Fuso Insular são duas partes, a mostra com sessões preparadas por curadores e o programa de residência, para formar artistas locais, e depois o que eles produzem é visionado na mostra, concretiza Rachel Korman.

“O meu ligar é aqui”

Trocou o Brasil por Portugal pela insegurança que sentia no seu país natal, “apesar de nunca ter sido alvo de algum crime ou sequer ameaçada”, mas a cada dia havia pequenos temores e ambiente de insegurança, tanto em Minas Gerais de onde é natural como no Rio de Janeiro, onde trabalhava, que o melhor era procurar um lugar onde sentisse segurança e tivesse qualidade de vida.
Assim Rachel Korman deixou o Rio de Janeiro rumo a Lisboa, onde na cidade-berço desenvolveu vários projectos culturais. Um deles foi o conhecido espaço de arte contemporânea “Carpe Diem - Arte e Pesquisa”, idealizado em conjunto com Paulo Reis e Lourenço Egreja. Entretanto, o espaço fechou mas a também promotora de eventos continuou a trabalhar em outros projectos na capital.
A reviravolta na sua vida deu-se quando visitou um amigo, que se tinha mudado para os Açores.
“Foi um reencontro. Não o via há muitos anos”, mas também foi a descoberta da terra onde ia morar porque sentiu “esse é o lugar. O meu lugar é aqui. A ilha de São Miguel cativou-me”.
Rachel Koran continua a fazer a ponte entre os Açores e Lisboa para trabalhar, pois a cultura não tem fronteiras, mas é nos Açores que se sente em casa.
“Sinto-me açoriana de coração. Há três anos atrás vim de férias aos Açores e descobri que tinha encontrado o lugar para viver que sempre tinha procurado na minha vida. Estar perto do mar, das montanhas e da natureza intacta permite-me ter uma vida com mais qualidade e possibilidade de fazer coisas num espaço novo tanto para a minha vida como para me reciclar. Assim, tendo encontrado o que queria, uma pequena quinta, fixei residência em São Miguel e aos poucos tenho vindo a descobrir as restantes ilhas”.
Diz que adora acordar de manhã e sentir os chilrear dos pássaros, de ver as flores a crescer ou simplesmente ver um pombo a nicar uma banana. São pequenos prazeres que em São Miguel consegue ter em proximidade, lembrando-se da sua terra natal, onde havia montanhas, e onde morava e havia mar.
“Quando cá cheguei disseram-me que para ser uma boa açoriana tinha de tomar banho de mar todos os dias, faça sol faça chuva, no Verão e no Inverno, e como eu quero ser açoriana, visto sempre o fato de banho, pois em algum momento do dia vou dar um mergulho. O meu cantinho preferido, o meu pequeno paraíso, é no calhau do cruzeiro no lugar da Atalhada, na Lagoa. Só não saio quando está a chover muito. Eu tenho orgulho de ser brasileira, mas mais ainda de ser uma brasileira açoriana”.
Voltando ao festival, Rachel Korman explica que além da co-produção do Arquipélago com o ciclo de cinema (laboratório), este ano vamos ter duas actividades com a VAGA, uma nova parceria, e na sua sede haverá uma conversa com a Susana de Sousa Dias no dia 28, pelas 18h30, sobre a questão da “Arte Política”. À noite será apresentado o programa curatorial da Susana Sousa Dias na Igreja do Colégio.
“Quando terminar o Fuso Insular, no primeiro fim-de-semana de Novembro, ainda na VAGA vamos voltar a apresentar as curtas de cinema feitos no laboratório de 2020 e 2021. O que mais agrada é fazer parcerias. Um com o Arquipélago, através do seu projecto de formação. A VAGA com as conversas, que são pensamento e reflexão.
Estes são dois objectivos do Fuso Insular que é a formação e o conhecimento. É um binómio que funciona. Fazer cooperação e os projectos entrelaçarem-se é fundamental para o sector cultural como um todo, principalmente aqui nos Açores em que é preciso fazer para acontecer.
Como existem vários projectos é fundamental que trabalhemos todos em conjunto. No Fuso Insular temos a colaboração do Arquipélago, da VAGA e do Museu Carlos Machado. Para mim, isso é bonito de se ver e de fazer em prol da cultura”, salienta Rachel Korman.
 

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