Mota Amaral “foi um dos principais obreiros de uma verdadeira comunidade de interesses ilhéus”

Como foi elaborar esta fotobiografia, a partir do manancial de informação contido no arquivo de Mota Amaral, e que propósitos o animaram a si como seu autor?
Este trabalho consta, essencialmente, de uma selecção de textos e documentos, sempre que possível enriquecidos com registo fotográfico, que reuni e seleccionei, do espólio depositado na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, por doação de Mota Amaral, em 1996, e que, desde então, vem reforçando com novas e frequentes entregas. O manancial de informação é, de facto, como diz, enorme.
O meu propósito fundamental foi o de dar a conhecer o perfil do homem e do estadista, o leque de sólidas ideias em que se estriba para liderar e consolidar um ousado projecto político– a Autonomia constitucionalmente consagrada – por muitos visto, até, na altura, como utópico. Certo é que, uma vez passado do pensamento à acção, aquele projecto viria a transformar, radicalmente, a vida dos Açores e dos seus povos, inaugurando, assim, um novo paradigma interno, bem como na ordem jurídica portuguesa. De tal modo que, realizadas, finalmente, as pretensões autonomistas, muito embora numa amplitude e moldes jamais imaginados pelos movimentos do século XIX e das primeiras décadas do século XX, os Açores, em menos de cinquenta anos, conheceram mais progresso do que em cinco séculos de feroz poder centralista!

A obra inicia-se com o ambiente familiar e de estudante de Mota Amaral. Que elementos destaca?
Destaco uma criança que cresce no seio de uma família de classe média, na Rua de Lisboa, n.º 11-B, freguesia de São José, em Ponta Delgada, que se percebe unida, com traços comuns a tantas outras, nomeadamente, nos valores sócio-morais próprios das décadas de quarenta e cinquenta. João Bosco respira, ainda, um ambiente familiar profundamente católico, frequenta a catequese, envolve-se nas actividades da Igreja de São José, onde foi menino do coro e depois tenor na capela dirigida pelo padre Dinis Simões. Brinca e diverte-se com os muitos amigos. Ingressa na Juventude Escolar Católica (JEC), pela mão do padre António Almeida Maia, seu padrinho de crisma.
Destaco, ainda, o aluno brilhante do Liceu Nacional de Ponta Delgada que, no seu 7.º e último ano de estudos naquele estabelecimento de ensino, arrecada o “Prémio Nacional”, anualmente atribuído pelo Ministério da Educação ao aluno que obtinha a classificação mais elevada. Por falta de registo fotográfico, pois este livro é uma fotobiografia, ficaram de fora as actividades extra-escolares a que se dedicou, sobretudo literárias, cinéfilas e as relacionadas com música clássica. Colega e amigo de José Medeiros Ferreira, com ele partilhou muitas destas actividades, assim como, também, com Viriato Madeira, Pilar Câmara, Clotilde Aguiar Rodrigues, Roberto Amaral, João Bernardo Rodrigues, Carlos Macedo Medeiros, António Brum Ferreira, Manuela Cristiano de Sousa e outros jovens estudantes. Mas também, com Ernesto Melo Antunes, quando aqui prestava serviço militar, e António Borges Coutinho. O gosto pela música era o principal elo de ligação com estes dois últimos.
A propósito, um dia, João Bosco mostrou a Borges Coutinho o que tinha escrito sobre Beethoven, e que se destinava a uma conferência que ia proferir, no Liceu, sobre este compositor. A opinião foi bastante satisfatória, mas João Bosco foi desafiado, por António Borges Coutinho, a proferir a conferência sem papel! Tratava-se de um exercício da memória com vista ao treino de oradores, iniciando-os na aprendizagem e domínio da retórica. E assim aconteceu. Diz quem assistiu que o aluno João Bosco proferiu, durante quase uma hora, a sua conferência sobre Beethoven, sem nunca recorrer ao papel escrito! Não sei se estará aqui o segredo para a gigantesca memória de que hoje é detentor.

Num dos capítulos do livro, aborda o papel de João Bosco Mota Amaral no âmbito dos trabalhos na Assembleia Constituinte, e também destaca artigos que ele escreveu sob o pseudónimo de “Autonomista”, para o Diário dos Açores. Por que razão destaca estes aspectos?
Sim, é no capítulo “Dos Negros anos aos anos de Ouro – Revolução e Autonomia”. A luta política que ele trava e lidera, na “Constituinte”, com a ajuda de outros deputados, é certo, como o director dos Correio dos Açores, Américo Viveiros, foi um dos períodos politicamente mais conturbados, mas decisivos para os Açores, em pleno Verão Quente. A elaboração de um estatuto que consagrasse, finalmente, uma autonomia a sério, e não uma “autonomia-burla”, como o povo a ia designando por cá, já que parecia que os trabalhos não se desenrolavam de feição, foi um processo gerido em confronto político duro, mas também com pinças e muito tacto político. Uma contenda difícil, mas que acabaria por constituir uma retumbante vitória para os Açores, em prol do progresso do seu povo. É aí, aliás, que Mota Amaral se revela ao país como um dos políticos mais bem preparados da jovem democracia portuguesa.
Quanto aos artigos escritos para o Diário dos Açores com o pseudónimo de “Autonomista”, datam do ano de 1988, num total de dez, e com a epígrafe genérica de “Reflexões sobre a Autonomia”. Têm muito interesse, já que são escritos em jeito de reflexão/balanço sobre o estado da Autonomia, as dificuldades passadas e ultrapassadas, os desafios esperados. Num deles, intitulado “Antecedentes Remotos”, faz uma resenha histórica dos movimentos autonomistas do século XIX e primeiras décadas do século XX, em tom escorreito e cunho pedagógico. Descreve os seus sucessos e insucessos, aponta aspectos semelhantes aos de hoje em termos de reivindicações autonomistas e a estocada final nas pretensões açorianas com a chegada de Salazar ao poder. Estes artigos, hoje quase esquecidos, como, aliás, centenas de outros que espelham o pensamento político de Mota Amaral, muito para além da matéria do estritamente político, e que fizeram e fazem doutrina, necessitam, em minha opinião, de um tratamento especializado e compilação urgentes, tendo em vista a sua preservação, futura publicação e divulgação. São património regional e nacional.

Releva, igualmente, a actuação do então Presidente do Governo Regional no processo de integração europeia…
Bem, esse é um dos mais importantes aspectos da sua biografia política. O livro mostra a relevância do seu papel como participante activo nas várias conferências das regiões insulares da Europa, principalmente das periféricas marítimas, de que foi um dos principais impulsionadores e dinamizadores, no âmbito do Conselho da Europa. Ele teve um papel determinante, diria mesmo decisivo, porque chamou a atenção para a necessidade de assegurar o futuro desenvolvimento económico e social das ilhas, ao tempo muito esquecidas pelos poderes continentais. Foi um dos principais obreiros de uma verdadeira comunidade de interesses ilhéus que acabou por garantir, com a integração europeia, o reforço substancial do financiamento em áreas económicas e sociais de interesse vital para o desenvolvimento, sobretudo, das regiões periféricas marítimas.
As relações externas e a diplomacia são, aliás, áreas de eleição de Mota Amaral. Dos seus textos, das suas conversas transparece essa inclinação, essa motivação.
O conceito de Regiões Ultraperiféricas (RUPs), a sua criação e processo de afirmação na Europa foi de extraordinária importância para nós, e tal se deve, e muito, às iniciativas que ele desenvolveu nesse domínio. Hoje, podemos dizer que por detrás dos substanciais fluxos financeiros que nos chegam da União Europeia, enformados pelo conceito de ultraperiferia, está a intensa e sábia atividade diplomática e do político hábil que caracteriza o Presidente dos seis primeiros governos dos Açores.

É importante, na sua perspectiva, a religião na vida política de Mota Amaral e consequente intervenção social?
Ele nunca escondeu, aliás são públicas e notórias, as suas opções religiosas, incluindo a pertença ao Opus Dei. Mas não se vislumbra qualquer tipo de relação causa/efeito, isto é, aproveitar-se dessa condição para daí retirar vantagens políticas ou de outro tipo qualquer. Mostra-se, aliás, intransigente, com esta separação de águas.

Como Presidente da Assembleia da República e como deputado, teve sempre uma intensa actividade externa. Como valoriza este vector?
Entre 1995 e 2002, João Bosco escreve uma série de crónicas para o Diário de Notícias de Lisboa. Em muitas delas, avança com novas ideias, com propostas reformadoras  para o Parlamento português, tendo em vista recuperar o seu prestígio e o estatuto de centralidade que havia perdido no panorama das instituições da política portuguesa. Estava claramente preocupado com a imagem daquele junto da opinião pública. Por isso, depois, já como Presidente da Assembleia da República, abre as portas do Palácio de São Bento à sociedade civil, reforma métodos anquilosados no seu funcionamento interno dinamizando o âmbito dos trabalhos das comissões parlamentares, e retira o máximo proveito das potencialidades e eficácia que a era digital estava já a oferecer.
Mas era notória a sua preocupação pelo novo papel que num mundo globalizado os parlamentos deviam passar a ter, no contexto da política externa do Estado. Achava que este, de acordo com os novos tempos, deixara de ser um domínio reservado do Poder Executivo. De facto, o reforço da “diplomacia parlamentar” foi uma das “imagens de marca” deixadas por Mota Amaral enquanto Presidente da Assembleia da República. Pugnou por um Parlamento mais activo e útil em matéria de política externa, facilitador do estabelecimento de pontes de colaboração com as instituições homólogas de outros países. Tudo isto ajudou a aproximar povos, ao conhecimento mútuo e a uma melhor compreensão dos problemas e dos interesses comuns. Não fosse a política externa, como já referi, uma das matérias de eleição de Mota Amaral.        

 

 

 

 

 

 

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