Rotas gastronómicas na Lan’s Pizzaria

As pessoas têm de perceber que “os empresários não são papões” e que apenas pretendem criar equipas unidas para dar melhor resposta ao turista

Correio dos Açores: Tendo em conta os resultados de 2020, que não foram favoráveis devido à pandemia, qual a sua perspectiva para a restauração em 2021?
Júlio Macedo (proprietário da Lan’s Pizzaria): Havia sempre a expectativa de que fosse melhor e, de facto, revelou-se um bocadinho melhor do que 2020. A cada dia que passava, havia a dúvida de no dia seguinte continuaria a melhorar ou não, mas acabou por ser um bocadinho melhor do que 2020.

E em relação a 2019?
Em relação a 2019 diria que  tivemos uma facturação de menos 40% ou 50%, feitas as contas globais até agora. É uma quebra grande, porque perspectiva-se que o saldo final do ano seja de prejuízo, porque não havendo as ajudas que houve, e perspectivando-se ainda alguma ajuda, éramos já para ter fechado porque não haveria possibilidades de sobrevivência.
Aderimos aos apoios que foram possíveis, entretanto houve alguma restrição nos apoios que o Governo Regional conseguiu libertar, e estamos à espera de resposta em relação a outra candidatura. A longevidade do negócio também vai depender dos apoios que vai haver ou dos apoios que serão confirmados até ao fim do ano, porque penso que o próximo Inverno vai ser um Inverno muito difícil. (…) A demora na resposta torna tudo mais difícil porque há muita ansiedade em saber se vamos ter o apoio ou não, se vamos poder continuar ou não, porque, na realidade, sem os apoios não é possível dar continuidade. Tirando o mês de Julho e Agosto, que foram os meses em que deu para pagar as contas, em todos os outros meses, sem os apoios, não se conseguia pagar as contas.

É muito cedo para falar em retoma?
Podemos ver as duas faces da mesma moeda. Por um lado, há uma retoma porque de facto as coisas estão a crescer, mas estão a crescer numa base diferente de 2019. Uma coisa é estarmos a crescer com base num positivo e de facto estarmos a crescer, outra coisa é crescermos na base do negativo, porque estamos a crescer mas continuamos no negativo. Por isso as coisas até podem estar a crescer, mas não o suficiente.

Agora que terminou o Verão, como foi a movimentação dos clientes no restaurante?
Foi o suficiente para nos manter à tona de água. Ou seja, foi melhor do que aquela que era a minha expectativa, mas já se nota que há uma quebra grande pois, ao contrário de 2019, em que ainda se conseguia perceber que havia uma movimentação do turismo e não só, porque os próprios locais, como se sentiam mais confortáveis, saíam, iam jantar ou almoçar fora, neste momento os locais estão mais constrangidos a este nível, até pelo aumento do custo de vida e dos combustíveis. Em relação ao turismo, tenho a sensação que há ainda muitas pessoas que evitam ir a restaurantes, ou que se calhar estão em alojamentos locais e fazem as suas refeições em casa, mas de facto já se nota uma quebra.

Até aqui, de que forma foi importante a modalidade de take away?
Foi importante. Já tínhamos take away e acabámos por começar a trabalhar com uma empresa que faz entregas. Dentro da dimensão que temos acabou por ajudar. Durante os períodos em que estivemos fechados, acabou por ser só o take away a funcionar, em períodos em que estávamos abertos diria que representou cerca de 20% da nossa facturação. Com a situação actual de falta de mão de obra, que os empresários em geral – não só da restauração – se queixam, implicou que nós, durante os meses de Julho e Agosto, em que tínhamos um movimento maior, tivemos que reduzir nos take away porque não dava para tudo.

Tentou contratar alguém recentemente?
Não, porque nós não temos noção do que vai ser o Inverno. Não podíamos arriscar criar mais um encargo que poderia ser prejudicial para a empresa, mas sei que houve muitos empresários que tentaram e que muitos não conseguiram porque não havia mão-de-obra.
A restauração é difícil e um trabalho duro devido aos horários que nem todos estão dispostos a fazer, mas sei que na área do alojamento e no turismo há também alguma falta de mão-de-obra. (…) A falta de mão-de-obra é e será um problema se a expectativa for aquela de que estamos todos à espera, de um crescimento bastante acentuado no próximo ano, a partir da Páscoa, e aí a falta de mão-de-obra vai ser um problema grave, não só para os empresários como para a própria imagem da Região. (…) Para além da qualificação profissional, é preciso dar “qualificação humana”. Ou seja, educação. As pessoas têm de perceber que os empresários não são papões, hoje em dia os empresários querem que as pessoas se juntem para formar uma equipa e não procuram apenas uma peça que entra numa engrenagem, mas é preciso que as pessoas percebam isso e que não sintam que estão a ser exploradas, e é essa a ideia que parece que muita gente tem.

Que preocupações existem nesta época baixa?
Percebendo que existe um problema a nível global, a minha preocupação principal é a de manter os postos de trabalho e manter a actividade viva até que a abertura seja maior e que toda a movimentação global se faça sentir ao nível do turismo e das actividades do dia-a-dia, para que as pessoas deixem de estar inibidas e que a actividade económica comece novamente, tal como em 2019, a funcionar normalmente. A expectativa é aguentar até esse dia.

Contar com uma equipa pequena e familiar é uma vantagem ou uma desvantagem?
Acho que há várias vantagens. A equipa acaba por se ajudar mutuamente, tanto a nível pessoal como profissional, mesmo pelo apoio emocional que acaba por ajudar, portanto, por ser pequenina é mais fácil de poder gerir todo o trabalho sem estar a pensar que o rendimento irá chegar ou não para pagar todas as despesas, incluindo os vencimentos, porque no caso de uma família muito grande essas preocupações aumentam imenso. Temos também a ambição de crescer, mas ainda bem que neste momento estamos com uma dimensão pequena.

Em relação às medidas que foram implementadas pelo Governo Regional nos últimos meses, tal como a diminuição no número de mesas ou a restrição de horários, de que forma estas ajudaram ou não o vosso restaurante tendo em conta a dimensão do espaço?
Alguém tinha que tomar medidas, a bem ou a mal. Depois de toda a situação, é fácil criticar a situação. Neste aspecto nunca fui muito crítico, porque não sabendo como as coisas funcionam tinha que se tomar alguma medida. É evidente que em locais pequeninos como o nosso é muito mais difícil de gerir porque os distanciamentos e o número reduzido de mesas acabávamos por, em determinadas alturas, termos quatro ou cinco pessoas no restaurante, quando podíamos ter oito ou nove num espaço para 24 pessoas. Mas não critico, porque as medidas tinham que ser tomadas e fez-se o que foi possível.

E em relação à vacinação, considera que esta foi determinante para que as pessoas voltassem à restauração?
Sim, sem dúvida. Acho que as pessoas estavam com muita vontade de sair, não só para restaurantes, mas também para poder fazer as actividades habituais, mas ajudou também em muito a restauração.
 

Print

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker