Pedro de Medeiros não é contra os remédios mas sim a favor da prevenção pela via do que comemos e do exercício

Corpo e mente saudáveis só é possível quando percebermos que “a chave está na alimentação” e só assim podemos viver com qualidade de vida

Pedro de Medeiros partiu dos Açores aos 18 anos de idade para estudar Ciências do Desporto. Para trás, como muitos jovens que saem da Região para estudar no exterior, deixou a família, os amigos e a pratica de basquetebol, como atleta federado. Na bagagem levou o sonho de andar pelo mundo, talvez fixar-se em algum ponto do planeta bastante distante das ilhas, mas dado como certo tinha a ideia de que não mais ia regressar à terra que o viu nascer, a não ser para fazer férias e visitar os familiares.
“Quando fui para Lisboa o meu objectivo era terminar o curso, partir depois para Nova Iorque e/ou para onde a vida me levasse com a certeza de que nunca voltaria”. Não foi assim, regressou aos 40 anos e por cá quer ficar, sem novas despedidas nem tristezas escondidas no olhar.
 “Passados 20 anos é impensável fazer outra coisa que não seja ficar na minha ilha. Eu estou preparado para não sair de São Miguel, não viajar mais se necessário for”. Mas nas duas décadas em que viveu na capital teve uma carreira muito auspiciosa e interessante, tendo mesmo destacado-se entre os seus pares. “Não fui o melhor aluno da minha turma de curso. Acabei com 14 valores, que era o mínimo na altura para poder fazer mestrado, que fiz. Mas em termos profissionais consegui fazer um bom percurso porque me empenhei muito e empenho-me sempre no trabalho que faço, por isso tive, em termos profissionais, um melhor percurso” do que os colegas de curso que terminaram com melhor nota. Para Pedro de Medeiros “ficar só com a teoria não é possível, temos de investigar e melhorar para também poder fazer melhor o nosso trabalho. A ciência evoluiu muito e temos de acompanhar”.
 Mas não ficou só pelo desporto no exercício físico, decidiu escrever e ensinar. “Escrevi três livros em Lisboa. Dei formação em vários ginásios e na maioria das faculdades do país. Formei muita gente em cursos profissionais para trabalhar na área desportiva. Fiz preparação física de muitas pessoas”.
Em termos profissionais “sei que desenvolvi um bom trabalho, mas passados muitos anos de viver na capital apercebi-me de que a minha prioridade na vida não era a minha profissão e o meu trabalho, fazia-me feliz mas não era mais feliz”. Ou seja, avança Pedro de Medeiros, “comecei a sentir falta da família, dos amigos, da humidade e do mar dos Açores. Sentia mesmo falta da proximidade que a distância não permite”.
A decisão de deixar Lisboa já havia sido tomada há alguns anos mas faltava coragem para romper com tudo o que construiu. “ Depois da decisão tomada ainda adiei por mais três anos a vinda. Tive alguma dificuldade em abandonar tudo para regressar. Inventei uma síndrome pós família, pós Açores (…). Depois das férias, quando chegava a Lisboa durante dois dias não me aparecia trabalhar. Tinha uma tristeza enorme. Tinha saído da terra e já queria regressar. Quando essa tristeza se intensificou, então decidi que era hora de voltar a uma terra que prende. Podem dizer o que quiserem, estamos no meio do Atlântico, somos um dos nove cumes da Atlântida, e temos uma energia especial. Disso, não tenho a mínima dúvida”.
Com um percurso profissional tão interessante, de crescimento e aprendizagem constantes, como é possível crescer profissionalmente nos Açores? “Com alguma dificuldade”, opina.
“Quando cá cheguei deparei-me logo com um impasse, a publicação de novos livros. Já tinha escrito para duas editoras e estas não quiseram publicar o meu quarto livro que ia contra a indústria farmacêutica, que é quem manda no país. Fui obrigado a fazer a minha editora «Robin dos Bosques» e investi na edição meu do livro.
Depois, quando disse às pessoas que o meu objectivo ao regressar em termos profissionais era o de alertar as pessoas para estilos de vida mais saudáveis, a resposta que obtive de muitos foi, e passo a citar: «Vai tudo morrer»”. E quando respondem assim quando se quer falar de saúde “perde-se um pouco o ânimo”, diz o Fisiologista de Exercício que gostaria de colocar todas as pessoas a comer melhor. Isto é, a favor de uma combinação de alimentos que possam ajudar a pessoas a ter um corpo e mente mais saudáveis, sem esquecer de fazer exercício físico. Para Pedro Medeiros só assim é possível ter uma vida com qualidade. “A chave está na alimentação”, garante. E  é claro que vamos morrer, mas o objectivo é que a partir dos 90 anos “ainda tenhamos independência funcional”.

Comer melhor e exercitar-se
sem gastar dinheiro
Desafiado a fazer um exercício de como uma pessoa com poucos recursos financeiros pode ter acesso a uma boa alimentação, com produtos frescos, e ter um plano de exercício físico se o salário não chega.  Pedro de Medeiros aponta soluções. Em primeiro lugar, “jejum todos os dias. Não há gasto de dinheiro e há poupança”. Explicando melhor. “O jejum é a melhor terapia que existe à face da terra para uma melhor saúde. Chama-se Autofagia. Quanto mais tempo uma pessoa levar sem comer mais o corpo vai reutilizar células, disfuncionais, como forma de alimento. As principais células que vai utilizar são as do sistema imunitário”. O que significa isso? “Significa quando se faz a primeira refeição diária, após um período de jejum prolongado, produz-se novas células do sistema imunitário”.
Em segundo lugar, sem dinheiro a componente do exercício físico é muito fácil. “Há uma natureza tão linda nos Açores. Podemos correr, saltar (…) e há espaços em que se pode fazer treino de força e até há muitos espaços disponibilizadas pelas câmaras para o exercício físico”. Para isso, o também preparador físico e formador diz que aproveitando a natureza “o único trabalho que dá (é que não é um comprimido que se tome para ficar melhor) é a necessidade de levantar do sofá, de vestir, de sair de casa, de transpirar, cansar, de voltar para casa, de tomar duche (...). Isso dá trabalho e as pessoas não gostam muito”.
Em terceiro lugar, e completamente de graça, “apanhar sol de forma moderada todos os dias, sem protector solar, que considero ser um veneno para o corpo humano, porque, em muitos casos,  há passagem de químicos para o sangue que sai pela urina. Infelizmente, nós somos ignorantes e usamos tudo em excesso. O sol é para ser aproveitado com moderação para termos vitamina D”.
No meio destas soluções genéricas, aponta que o cerne da questão está na alimentação, mas acima de tudo na qualidade dos alimentos, e sempre que se saiba não se deve comprar produtos geneticamente modificados nem com químicos, “porque são altamente prejudiciais à saúde”, evitando também, sempre que possível, “comer carnes de animais que não sejam criados ao ar livre e alimentados sem ração”.
Pedro de Medeiros não é contra o uso de medicamentos mas sim contra o uso excessivo de remédios quando em muitos casos as doenças melhoram apenas com a alimentação. E dá como exemplo o que se passou consigo. “Eu tinha alergias de Primavera, asma, sinusite, duas gripes por ano, acordava sempre cansado (...)A a partir do momento em que mudei a minha alimentação e estilo de vida, além de perder peso, que não era intenção, não tive mais estas doenças”. Questionado se alimentação cura, responde assim: “Há um médico cá, de que ninguém fala, João Soares [ex-Director Regional da Saúde], que escreveu um livro “Dieta Cetogénica - a cura para todo o tipo de doenças”, que não é publicitado, o que não percebo. É um bom livro, pois a alimentação é a base para a saúde. O pré-requisito para surgir uma doença, independentemente de ser do foro psicológico ou físico, deve-se à inflamação do corpo, a qual surge a partir de uma alimentação com químicos e quando comemos todos os dias essa inflamação deixa de ser aguda para ser crónica”. No fundo, o que Pedro de Medeiros defende é o consumo de alimentos apanhados no quintal. “Se for do quintal excelente porque controla-se o que se come a 90%, com excepção da poluição do ar. Acima de tudo defendo alimentos anti-inflamação na alimentação diária”, regista Pedro de Medeiros.
A mudança no pensamento no que toca ao exercício associado à alimentação surgiu na vida do entrevistado passado cerca de 10 anos de trabalho. Embora tivesse sucesso porque as pessoas com quem trabalha perdiam peso, que era o objectivo, verificou que elas não tinham mais energia, e supostamente deviam ter. Com esta noção “isso fez-me formatar tudo o que eu aprendi na faculdade e começar de novo. Assim, percebi que para haver sucesso em termos de saúde, o profissional tem de aconselhar em todas áreas, que passa também pelo sono, e comecei a fazer investigação durante esses anos e quando apliquei tive bons resultados. Nos últimos anos, trabalhei com pacientes oncológicos e com hérnias discais e os resultados foram bons. No caso das hérnias discais, o corpo acaba por as absorver.
No meu entender o importante não foi o aconselhamento ao nível do exercício físico, mas sim a alimentação. Assim, fiquei orgulhoso, porque eu próprio mudei porque entendo que todos os factores a interagir entre si são fenomenais em termos de saúde”.

Açores na cauda da Europa
“parece impossível”
 Nós vivemos num dos melhores arquipélagos do mundo, garante Pedro de Medeiros, mas diz não perceber como é possível os Açores serem a região de Portugal com o maior grau de obesidade, com o maior número de diabéticos, com o maior número de pessoas com cancro, com o menor nível de escolarização e logo menor grau académico. Em termos de saúde estamos na cauda do país. Isso acontece por “ignorância do povo. Os açorianos eu divido em três níveis, uma percentagem pequena que são geniais e que conseguem destacar-se em todos os lugares por onde passam no exterior, depois há uma percentagem de cidadãos que são normais e se destacam em várias áreas mas depois há uma grande percentagem de pessoas que têm um conhecimento muito baixo em relação a tudo”.
Os Açores têm feito uma grande aposta na educação mas há uma baixa literacia na saúde, e segundo Pedro Medeiros “isso só se consegue ultrapassar a longo prazo insistindo e investindo, através da leitura, de palestras. Eu dei uma palestra há cerca de 3 anos no hipermercado Solmar e falei sobre alimentação orgânica. Foi a primeira vez que fui convidado para falar directamente para a população micaelense. Temos de pensar que a forma como a educação está estruturada não é para as pessoas terem grande conhecimento, é sim para as pessoas agirem sem questionar. E nessa educação não interessa os melhores hábitos saudáveis da população, interessa é que a população gaste dinheiro. A saúde não dá dinheiro mas a doença sim. Temos uma sociedade muito manipulada, e isso não é a teoria da conspiração, mas sim o que se passa. Mas isso também tem a ver com o facto de a população mais pobre ser uma população que não quer saber. Vão à escola e não prestam atenção, não têm objectivos”, sustenta.
                            

 

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