Músico defende uma maior comunicação entre as várias salas de espectáculos existentes na Região

Professor do Conservatório e pianista defende a criação de um circuito cultural para promover a música original açoriana em todas as ilhas

No âmbito do PDLJazz - Festival Internacional de Jazz de Ponta Delgada, iniciativa promovida pelo Teatro Micaelense com o patrocínio da Associação Montepio e apoio da Câmara Municipal de Ponta Delgada, Cristóvão Ferreira apresentou o seu concerto “Insular”.
Na Sexta-feira ao serão, o pianista subiu ao palco, acompanhado por Mike Ross, no contrabaixo, Lázaro Raposo, na bateria, e convidados. Foi um concerto original, com peças compostas pelo artista, assim como foram executadas temas do seu mais recente trabalho para o vídeojogo “Pecaminosa”. O espectáculo contou, ainda, com interpretações de temas de autores açorianos.
Cristóvão Ferreira, sempre com o apoio da família, embora só tenha um músico profissional na família, o primo Rafael Fraga, começou a descobrir as notas musicais ainda em tenra idade. No Conservatório começou por aprender violoncelo, por não haver vagas disponíveis para piano, mas sabia que a sua vida estava naquele instrumento, e assim que foi possível, trocou as cordas pelas teclas. Hoje é um jovem talento. Com 27 anos, já tem bom percurso no mundo musical, não só na Região como no exterior.
Nos Açores, entende que no que às actividades artísticas, e concretamente à música diz respeito, “há um longo trabalho a percorrer para que se consiga ter profissionais a tempo inteiro. Quanto mais ouvirmos o que está fora dos Açores mais cresceremos cá dentro. Pensar que a nossa música é do melhor que existe é uma fase que já passou. Temos de começar a fazer a internacionalização, tanto a nível de gosto musical, assim como de cultura musical”. Mas afinal o que é a música açoriana? Para o pianista, que é também professor, há várias fases. Primeiro associamos muito ao folclore e às bandas filarmónicas, as quais tiveram “uma importância social muito grande na nossa terra e permitiram a integração. Era o ponto de encontro de uma comunidade, principalmente no meio rural e que hoje em dia, nestes mesmos locais, quase ninguém se conhece”. Segundo, “associamos a música açoriana ao Luís Alberto Bettencourt, ao Zeca Medeiros e ao Aníbal Raposo”. Mas hoje há muito mais protagonistas. “A actividade cultural destaca-se quanto mais original é o trabalho dos artistas. O que tem valor, para mim, são aqueles que se predispõem a arriscar e mostrar o que fazem, seja no rock, no blues, no jazz”. Pode não ser perfeito, “mas é o caminho da pessoa, agora tocar música dos outros só tem lugar se for num bar, onde sempre gostamos de ouvir Sting, Pink Floyd (…), fora isso já não faz sentido”. O que faz sentido é que tenhamos nos Açores “cada vez mais trabalhos originais”, que as pessoas se apresentem ao escrutínio dos ouvintes, “cabendo depois ao público decidir se gosta, ou não”, sustenta Cristóvão Ferreira.

Política cultural tem de ser diferente
O problema maior que se verifica no arquipélago tem a ver com a circulação. “Fiz o espectáculo no Teatro Micaelense. Foi bom. Agora o que se segue? Posso gravar as músicas novas que estou a apresentar em estúdio, posso fazer a edição de um CD ou vinil, conforme me apetecer. É um passo, mas que outro passo posso fazer, questiona e responde, com interrogações. “Tocar no Coliseu Micaelense a uns quilómetros de distância. Que sentido faz? O público vai ser praticamente o mesmo. O que falta é rotatividade”. Para levar o espectáculo a outras ilhas há toda uma logística, “com custos elevados, que passam pelas passagens, alojamento e transporte de material”. Mas como se pode ultrapassar esses handicaps e fomentar a coesão musical numa região arquipelágica? “O que falta na nossa Direcção Regional da Cultura é uma política cultural diferente. Isto é, devia introduzir um circuito cultural. Há alguma semanas decorreu na Terceira o Angra Jazz. As pessoas que lá tocam não actuam em São Miguel, mas têm muitos originais. Eu toquei no Teatro um original de uma artista da Terceira, Antonella Barletta, professora de piano no Conservatório de Angra. Os artistas têm trabalho, mas não conseguem fazê-lo sair da ilha. Mas conseguissem chegar ao Teatro ou ao Coliseu teriam público, assim como se eu conseguisse ir à Terceira o teria”. Aqui o problema é financeiro, porque a mobilidade aérea e marítima existe. “O maior patrocínio devia ser do Governo Regional, através da Direcção Regional da Cultura, para criar um circuito cultural regional”. Fala-se muito em criar a coesão e a identidade cultural açoriana “mas falta a parte mais importante que “é fazer circular na própria Região os agentes da cultura”, opina.
Até junto dos agentes culturais quando se fala em levar os espectáculos às restantes ilhas, lembra o pianista, a resposta é sempre a de que “é complicado”, só que nem sequer há comunicação entre responsáveis das salas de espectáculos. “Podia haver um projecto que contemplasse esse circuito, e até por concurso, com um júri competente na matéria. Assim, haveria projectos a tocar em várias ilhas, os quais podiam ter uma programação mensal. Era também a oportunidade de dar a conhecer o que se faz cá dentro, porque as pessoas têm originais para mostrar e divulgar”, sublinha o nosso entrevistado.
Felizmente, diz, “existem as redes sociais, as quais vieram contribuir muito para que os músicos tenham uma maior visibilidade do seu trabalho, porque se assim não fosse a minha música morria aqui [São Miguel]”.
Nos Açores no que respeita à arte, não há facilidades. “Não se pode viver só da performance, digamos assim. No meu caso, tenho a actividade de docência no Conservatório Regional de Ponta Delgada na classe de piano. Durante a pandemia, um período difícil para os artistas, Cristóvão Ferreira ficou responsável pela área das expressões na tele-escola. “Fazia os conteúdos e levava a música à casa das pessoas, através da televisão”. Mas a sua vida, para além do trabalho a tempo inteiro, é muito agitada. “Trabalho na área dos projectos da produção de espectáculos, que é a minha formação de base na licenciatura. Sou director técnico do Azores Burning Summer, festival do Porto Formoso. Tenho uma empresa na qual desenvolvo soluções electrocústicas e acústicas nos auditórios e salas de espectáculos. Recentemente desenvolvi o projecto acústico do auditório da Escola Domingos Rebelo e tenho alguns projectos para o Governo Regional nesta área”. Ou melhor, explica, “desenvolvo toda a  produção associada à música e, em particular, salas de espectáculo, sistemas de som, produção de eventos”. Paralelamente aparece a docência, que é o seu sustento, e lhe ocupa oito horas de trabalho diário. “Divido o meu trabalho numa área mais técnica associada a uma área artística, onde componho e faço espectáculos, mas também a docência”.

Da Engenharia à Música

Recuando no tempo, explica como optou pela música, embora com muitas variáveis.  “É curioso que fiz o Secundário na área das Ciências e Tecnologias. Sempre tive a Engenharia como foco e entrei no curso de Engenharia e ao mesmo tempo no Curso de Escola Superior do Porto. Durante algum tempo estive nos dois cursos, mas acabei por optar por fazer o curso superior de Produção e Tecnologias da Música. Depois de acabar esta licenciatura regressei aos Açores e inscrevi-me nos preparatórios de Engenharia na Universidade dos Açores, mas como estava a trabalhar no Teatro Micaelense e o trabalho era tanto, decidi fazer uma paragem. O curso está em stand by”. Mas mesmo assim não parou. “Como estava a dar aulas, decidi que devia fazer a profissionalização. Ingressei no mestrado em piano na Universidade de Viseu”. Com tantas vertentes o dia-a-dia é trabalhoso. “Não vou dizer que tem sido fácil, mas desde que estou cá tenho conseguido viver da música. Se pudesse só tocar era melhor, mas não posso fazer isso. Contudo, como tenho a minha base de sustento, através da docência, é mais fácil arriscar em outras áreas de trabalho”, diz, acrescentando que nos Açores “só não triunfa quem não quer. Viver só da música é praticamente impossível, mas consegue-se viver com outros trabalhos. Nos Açores houve quem já arriscasse viver só da música, mas isso é uma situação muito precária, como verificamos durante a pandemia”, recorda o pianista.

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