21 de novembro de 2021

Opinião - Ponto crítico

O povo não dorme

 Há pouco mais de um ano, o iniciado e inquietante partido Chega, de direita extrema, ansiava por ser política e socialmente reconhecido em todo o território nacional. A proximidade de qualquer poder político consistente de direita seria fundamental, sobretudo se se revelasse  relevante para o exercício da governação. Uma espécie de alavanca eleitoral. O PCP tinha essa experiência, já no passado, usara os sindicatos para o efeito e com êxito. Hoje é um partido sindical.
Na Região Autónoma dos Açores acabavam de se realizar eleições e o Chega elegera 2 deputados. O PSD/A que subira na preferência do eleitorado insular apesar da inovadora eleição de pequenas representações parlamentares, CDS (3), PPM (2), BE (2),IL(1),PAN(1)deteria a maioria do parlamento regional se associasse os deputados do Chega (2) aos ideologicamente naturais do CDS, PPM, PAN e IL. Era a primeira grande oportunidade do Chega de demonstrar ao território continental eleitoral que podia ser politicamente importante. Aproveitou-a com inteligência.
Num quadro parlamentar como o que sugeria a composição do parlamento insular e prometia a neófita maioria à dita direita, a estrutura regional do Chega assumiu nos Açores o compromisso escrito de manter o apoio parlamentar ao PSD/A pelo período da legislatura, precisamente em matérias como “(…) moções de confiança, moções de censura e orçamentos regionais”.
A esquerda portuguesa zurziu o PSD nacional por acolher ou permitir o acordo celebrado na Região autónoma com tão extremista força política. Esquecidos todos de que já não há colónias em Portugal há mais de 4 décadas e de que o tempo não volta para trás. Para além disso que já é muito, os Açores têm autonomia política.
O PSD/A constituiu com o CDS, o mais votado dos pequenos, um governo de coligação. Contando com o apoio parlamentar do partido IL, PAN, PPM e Chega constituiu governo e fez passar na Assembleia Legislativa Regional o respetivo programa de governo.
Já no fim do corrente ano, foi dissolvida a Assembleia da República porque se desconjuntou a vulnerável “geringonça política” de esquerda que encostando-se oportunisticamente à direita parlamentar contribuíra para reprovar o orçamento do Estado beneficiando da decisão singular do Presidente da República, apressado como é.
A oportunidade proporcionada nacionalmente e em modo de copy-paste, as formações políticas regionais representadas na Assembleia Legislativa orientadas pelas respetivas cúpulas nacionais em uníssono, mas não simultaneamente, declararam que não aprovariam o orçamento regional para 2022 com uma argumentação apropriada a uma moção de censura, mas não à reprovação de um orçamento. O mesmo tipo de fundamentação adotara já o Bloco de Esquerda no caso do chumbo do Orçamento do Estado para o mesmo ano.
O mais acutilante e único dirigente político nacional que interveio publicamente, pontificando como sempre, foi o presidente do partido Chega representado por dois deputados no parlamento regional ( 57 deputados) com um deles já enrixado e pronto para processo disciplinar partidário. Com solenidade ensaiada, tendo por palco a Assembleia da República, politicamente enxofrado com a determinação de Rui Rio de que não governará caso tenha de se entender com o Chega, o presidente deste partido declarou que o presidente do PSD “não merece a consideração do Chega” e que “o (seu) partido não merece qualquer apoio”, motivo pelo qual terá dado indicações ou aconselhado José Pacheco – o deputado do Chega na Assembleia Regional dos Açores - para reprovar o orçamento regional.
Putrefata forma de procedimento político. Se no território continental de Portugal o PSD não quer o partido Chega para parceiro do governo nacional, então castigue-se os Açores, o elo mais frágil, mesmo sem culpa nenhuma, assim falou o presidente do Chega. Há que ferir de morte alguém da família, para que o chefe ceda, como se tratasse duma novela policial ao estilo americano, interpreto eu.
A autonomia regional político-administrativa pela qual sucessivas gerações de açorianos durante quinhentos anos lutaram e que a democracia em 1976 reconheceu constitucionalmente tem provas dadas de respeitar a unidade nacional. Não se compadece com esse tipo de ingerência política autoritária, centralista e ignorante porque visando destruí-la fere a coesão nacional.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Categorias: Opinião

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