A Matemática é difícil, requer treino e tem de ser ensinada de forma lúdica e com boa comunicação, defende o professor Carlos Marinho

Correio dos Açores: No âmbito do 20º aniversário da Escola Secundária da Lagoa, vai proferir três palestras sobre Matemática, com uma abordagem diferente da Matemática que se conhece já que fala de uma Matemática divertida e com magia. A sua abordagem matemática e a maneira como a apresenta em que difere da tradicional?
Carlos Marinho: Em primeiro lugar  quero dar os parabéns à Escola Secundária da Lagoa pelos seus 20 anos a ensinar de forma construtiva os seus alunos. Na realidade, a Matemática que trago é uma Matemática lúdica e divertida, ontem para os professores e esta Quinta-feira, dia 25, para os alunos.
É uma Matemática divertida porque vou fazer uma abordagem muito interactiva. Vou chamar algumas pessoas que estiverem próximas de mim no local e criar algumas ilusões e truques. Na prática, vou chamar um aluno ou professor, e, depois de duas ou três perguntas, adivinhar o ano em que ele nasceu, adivinhar o número em que ele está a pensar naquele momento. Vou pegar em objectos e, desafiando as leis da Física, fazer com que eles encaixem no ar um no outro. Na realidade é uma Matemática divertida, que nem os professores nem os alunos tão cedo vão esquecer. Ou seja, estas palestras servem exactamente para desmistificar aquela ideia de que a Matemática é uma coisa muito difícil, muito séria e só para alguns, quando na realidade pode ser para todos.

É um professor de Matemática-mágico?
De facto, faço alguma magia, mas não sou mágico. Agora, usando algumas ferramentas matemáticas, como trigonometria básica, cálculo decimal, entre outras, consigo adivinhar alguns movimentos, alguns pensamentos e algumas situações que levam as pessoas a ficar espantadas. Não sendo mágico, vou fazer um truque com cartas, usando apenas aplicações matemáticas, e chegado ao fim consigo adivinhar as cartas que as pessoas tiraram. O objectivo é criar uma dinâmica em que as pessoas não entendem bem à primeira vista o que estou a fazer, mas depois verificam que a Matemática está envolvida e está em tudo o que fazemos nas nossas vidas, desde a ida ao multibanco e temos a segurança de que podemos levantar dinheiro, sem problemas. A base de toda a economia assenta na Matemática. Em qualquer país do mundo, [mas falando da Europa] não encontramos uma moeda de três euros, porque o que precisamos na nossa economia é dos divisores e dos múltiplos do número 10. Vivemos num sistema decimal, contamos pelos dedos mãos, usamos os divisores 1, 2, 5 e 10, daí que só encontremos moedas de 1, 2, 5 e 10 cêntimos, 1 euro, 5 euros, 10 euros, ou seja tudo o que seja divisores e múltiplos do dez.

O que quer dizer é que a Matemática é necessária até para a economia doméstica?
Todos os dias usamos a Matemática, até para ver as horas e mesmo quando fazemos um telefonema estamos a usar números. Aquilo que faço nas conferências é usar também algumas ferramentas da física, que usa muito a Matemática, para explicar as leis de Newton através dos objectos. Fazendo pequenos números com professores e alunos uso essa “mão-de-obra” para explicar à restante plateia que estou a usar Matemática com a pessoa que chamei. Num dos truques chamo três pessoas para escrever números, cada qual escreve o seu, e consigo logo somar as parcelas e adivinhar a parcela final, isso só com a primeira pessoa a escrever o número, sem saber o que os outros vão escrever. Claro, isso traz alguma ilusão aos presentes.

Esta Matemática divertida e fácil, como chama, contraria um pouco a ideia que se tem da Matemática como disciplina difícil e que a maioria dos alunos não gosta.
O que temos de fazer hoje nas escolas é em primeiro lugar combater a cultura que temos dos avós e dos pais que não gostavam de Matemática. Cada vez mais temos mais alunos que gostam de Matemática.

Mas esse gostar de Matemática de que fala não se reflecte nem se espelha nos números dos exames nacionais, em que a disciplina apresenta ainda uma média baixa.
Tem razão nesta observação. O que eu estava a dizer é que nós temos nos últimos anos mais alunos que gostam e temos um conjunto de alunos (cerca de 10%) que adoram Matemática. Esses alunos vão para aos cursos de Matemática, fazem a licenciatura e o mestrado. Enquanto antes havia alunos que tiravam o curso para irem dar aulas, hoje em dia tiram o curso para ingressarem nos bancos e nas grandes empresas nacionais.

Em seu entender, os currículos estão desfasados? Tem de haver uma melhor comunicação?
A comunicação é fundamental para que os alunos gostem de Matemática, que não é uma disciplina fácil. Por exemplo, no meio de uma palestra pego em três bolas e faço malabarismo. A comparação que faço é que é tão difícil aprender a fazer malabarismo como aprender Matemática, mas depois de aprender, com treino diário, é muito fácil. Hoje nas escolas temos a dificuldade de transmitir que a Matemática pode ser interessante, que pode ser dada de uma forma lúdica, mas na realidade os currículos são muitos extensos e os professores têm dificuldade em ministrá-los.

Tem de haver uma revisão dos conteúdos?
Nós temos de mexer em muita coisa para termos melhores professores e alunos cada vez mais interessados. Nas escolas, não conseguimos ensinar se não tivermos alunos com vontade de aprender, com bom comportamento e com uma boa atitude em relação a qualquer disciplina, mas em particular Matemática, pois se não tivermos alunos interessados é a disciplina que sofre mais.

Porquê?
Porque é a disciplina mais difícil numa fase inicial da aprendizagem. Um aluno que não consegue aprender Matemática no primeiro ciclo, mais tarde perde o comboio e nunca mais consegue recuperar, o que em outras disciplinas não acontece.

Não consegue aprender porque lhe faltam as bases?
A base da Matemática é fundamental, assim como é essencial aprender a tabuada. Nas minhas palestras explicoom os dedos das mãos a tabuada dos nove. O aluno nunca mais esquece a tabuada dos dedos e só olhando para os dedos das suas mãos. Isso é importante porque arranjamos uma estratégia.

Hoje em dia, cada vez mais se trabalha a Matemática a nível mental, enquanto em tempos idos, mas recentes, a Matemática tinha muito para se decorar, assim como a tabuada tinha de ser decorada…
Na minha opinião, a Matemática tem duas vertentes a ter em conta. Tem muito raciocínio, muito pensamento, mas também tem de se decorar muita coisa. No primeiro ciclo o aluno deve saber a tabuada de cor e salteado, como sabíamos antigamente. Por exemplo, quando um aluno está a fazer uma equação simples, se souber a tabuada vai resolver o problema muito mais rapidamente do que se não souber. Aliás, se souber a tabuada vai adaptar-se muito melhor à disciplina. Posso lembrar que a escola russa não permite que a máquina de calcular entre na sala de aula em nenhum estádio de desenvolvimento. Os alunos fazem o cálculo todo mental, mas com recurso a papel e caneta, obviamente.

Está a defender uma estratégia diferente do que se pratica na actualidade no ensino em Portugal. Há uma divisão de posições no país em relação a esta matéria?
Eu não sei se há uma divisão, agora o que eu acho, e o que aprendi, é que a Matemática só se consegue compreender trabalhando muito. É preferível estar duas horas com um determinado problema do que fazer em duas horas dez problemas. Isso porque, muitas vezes, evolui-se mais fazendo o mesmo problema e conseguindo percebê-lo até à exaustão, do que passar para outro problema sem se perceber o que se está a fazer. Isto é, mecanizar um determinado exercício pode ser positivo para a realização de um teste, mas o aluno não está a aprender no sentido da palavra. Nesse contexto, acho que a mecanização pode não ser positiva. Se o aluno já percebeu o exercício e para que serve, mecanizar [decorar], é importante. Quanto mais exercícios fizer melhor preparado estará para a disciplina.

Está ligado à Sociedade Portuguesa de Doenças do Movimento. Em que medida a Matemática ajuda?
Na realidade, fui coordenador do Núcleo de Matemática da Sociedade Portuguesa de Matemática durante 11 anos e este ano fiz uma transferência para a Sociedade Portuguesa de Doenças do Movimento, que trabalha com pessoas que têm Parkinson, Huntington, entre outras, e temos, através do trabalho que estou a desenvolver, falado um pouco nas escolas das doenças do movimento. É uma área muito interessante para levar às escolas, porque muitos dos nossos alunos têm pais, avós e outros familiares que têm estas patologias associadas. Levamos esse conhecimento através da Matemática, que pode ajudar as famílias.

A Matemática lúdica pode ajudar as pessoas que sofrem destas patologias?
Sim, não tenho dúvidas. Já tive a experiências em centros de dia e em lares de idosos. Levei essa Matemática, a que trouxe aos Açores, que é divertida, feita com truques e as pessoas gostam. A pessoa mais idosa com que já trabalhei tinha 90 anos e foi uma actividade muito interessante e divertida.
         

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