Mercadinho de Natal da Açor Arte tem artesãos a trabalhar ao vivo para recuperar da pandemia

Jacinta Teixeira vem de uma família de artesãs de São Jorge que encontraram na tecelagem um modo de vida “quando ainda se fazia troca directa” de produtos. Tudo começou com uma tia, Maria de Nascimento Teixeira (conhecida por tia Teixeira), nascida na Fajã dos Vimes, que passou à mãe de Jacinta a arte de cardar, fiar e tingir. Da Fajã dos Vimes levavam peixe para ir trocar aos Rosais por lã para fazerem as colchas nos teares. “Quando terminavam, a minha mãe e a minha tia, iam levar as colchas novamente para os Rosais, e trocavam-nas por milho, roupas da América e artigos que eram essenciais para a alimentação”, refere.Entretanto a mãe de Jacinta acaba por iniciar o seu negócio “mas nunca trabalhou no tear”, embora desse emprego a muitas raparigas para trabalhar nos teares. “Eu cresci no meio de tudo isso, e dei continuidade à empresa com outras empregadas”, explica Jacinta Teixeira que começou a tecer aos 11 anos.
Entretanto, na década de 80, começou a vir às Feiras que se realizam na altura das festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres que, acredita, foram grandes impulsionadoras dos trabalhos artesanais dos Açores. Era para essas feiras que traziam as colchas e outros materiais realizados durante o ano, que vendiam, e recolhiam depois as encomendas que traziam no ano seguinte “e assim sucessivamente”, conta Jacinta Teixeira que entretanto casou e mudou-se para São Miguel mas continuou com a tecelagem.
Ainda trabalhou alguns anos numa retrosaria, onde lidava também com toda esta arte ligada ao artesanato, e foi sempre tirando várias formações em várias áreas artesanais. Há quatro anos criou a Açor Arte, no Livramento, que além de ser uma loja que comercializa tudo o que é necessário para as várias vertentes de artesanato - seja mais tradicional seja mais inovador – é também local de formação. “Temos workshops de costura, de costura criativa, de patchwork, registos do Senhor Santo Cristo, presépios e outros objectos em lapinha, flores de escamas de peixe, pintura em tecido e outros workshops que são temáticos”, conta a artesã.
Com a pandemia, e com as dificuldades inerentes ao confinamento, passou a vender também tecidos “que tiveram grande procura para fazer máscaras, e resolvi manter”. E foi, aliás, devido às dificuldades que os artesãos têm sentido devido à pandemia – “porque trabalham muito com o turismo” – que a resolveu apostar num Mercadinho de Natal para divulgar o artesanato regional e os próprios artesãos. No exterior da loja Açor Arte é possível encontrar artes decorativas, presépios de lapinha, registos do Senhor Santo Cristo, costura criativa, patchwork, mas também artigos biológicos, desde têxteis às compotas.
Aos fins-de-semana, das 14horas às 18horas, até 10 de Dezembro, é possível visitar o Mercadinho de Natal Açor Arte e adquirir alguns presentes mais personalizados, ajudando também os próprios artesãos que estarão no local a trabalhar ao vivo. “Há sempre diversidade, porque os artesãos vão rodando e vamos tendo diferentes áreas de artesanato” a ser feitas ao vivo, seja a fazer pintura em tecido, artesã decorativas, ou costura criativa ou mesmo tecelagem. “É também uma janela aberta para os artesãos venderem o que produzem”, explica a artesã.

Imagem negativa da tecelagem

Tendo vivido toda a sua vida rodeada de teares, Jacinta Teixeira admite que ainda há “uma imagem muito negativa em relação à tecelagem”, porque a maioria das pessoas ainda se lembra dos grandes teares das avós ou de algum familiar mais antigo. Isto numa altura em que tinha de se “bater o tear”, que faz parte da imagem de antigamente dos antigos teares, para fazer as colchas, mantas de retalho, ou as toalhas de mesa que “tinha de se bater muito para ficar mais consistente”. Mas para se fazer uma echarpe ou outra peça de vestuário no tear, “se batermos com muita força, a peça vai ficar muito dura” e não fica confortável.
Além disso, há já uma nova geração de teares, como os da marca Ashford que também podem ser adquiridos na Açor Arte, que “são muito mais fáceis de trabalhar. É um tear portátil, pode-se levar para qualquer parte da casa para trabalhar e ter outro conforto”, explica.
Revela que tem notado um aumento de interesse das gerações mais jovens em aprender mais sobre tecelagem e por isso acredita que “estamos no bom caminho, já há mais pessoas a gostar de tecelagem porque é uma arte muito versátil. Podem-se fazer ponchos, echarpes, almofadas, tapetes, colchas. Tudo o que é da área têxtil. E a inovação que vemos nos têxteis, tudo surge do artesanato”, reforça a artesã.
Além da inovação na forma de tecer, há também inovação nas matérias-primas. “Antigamente só havia linho, algodão e seda. Actualmente existem matérias-primas de cana de bambu, de cana de açúcar, de cana de milho, o linho já vem trabalhado e em várias cores”, refere enquanto acrescenta que ainda há quem trabalhe muito com material acrílico mas quando se trata de realizar peças mais pessoais, Jacinta Teixeira aconselha que “se deverá sempre utilizar matérias-primas mais nobres. Se vai ter o trabalho de fazer, mais vale fazer com matérias-primas mais nobres”.
E os açorianos dão valor a esses materiais? “Quando eu vivia em São Jorge davam muito valor. Compravam-se muitas colchas de São Jorge. Mas, actualmente, talvez os açorianos não tenham tanto poder de compra para investir numa peça mais personalizada. Há alguma procura mas é pouca”, realça. Agora são os europeus – da Alemanha, França e Inglaterra – que mais valorizam estes trabalhos artesanais feitos com matérias-primas nobres e naturais. “Como a lã de merino, que é muito conhecida no estrangeiro, que eles conhecem bem e gostam. Enquanto aqui se valoriza ainda muito o acrílico”, salienta.
É por isso que no próximo ano, a Açor Arte vai passar a direccionar-se mais para este público mais europeu, sempre tendo em conta a evolução favorável da pandemia.  

Matérias-primas

A inovação na tecelagem aplica-se, como já referiu Jacinta Teixeira, nas próprias matérias-primas que têm de ser todas importadas. “Antigamente precisava-se de montar uma teia, a teia tinha de ser num quadro específico rigorosamente de algodão. Actualmente, essa teia poderá ser montada com o fio de acrílico ou de cana de açúcar, o que faz com que seja logo uma peça diferente. Poderá ficar uma peça 100% feita em fios de cana de açúcar ou de cana de milho (popcorn)”, explica.
“São matérias-primas da actualidade e são muito apreciadas. É pena não serem tão apreciadas pelos açorianos”, refere a artesã que alerta que quando se adquire uma peça de artesanato é importante “ver o que se está a comprar”. E dá o exemplo, que “se forem fios de acrílico, que tem origem no petróleo, é uma peça muito diferente de ter uma peça feita com matéria-prima que é natural”.
E por ser tudo importado, reconhece que já sente alguma dificuldade em encontrar “essas e outras matérias-primas” nos fornecedores habituais que também já sentem dificuldades em adquirir alguns artigos.
Apesar das dificuldades, diz que não se arrepende de abrir a sua própria empresa vocacionada para o artesanato. “Ter uma empresa nem sempre é fácil”, mas o gosto pela área do comércio, pela tecelagem e por aprender outras áreas de artesanato, fazem com que tudo valha a pena. É por isso que disponibiliza até dia 10 de Dezembro esta oportunidade para os artesãos se mostrarem a trabalhar ao vivo e poderem comercializar as suas peças, a tempo do Natal.
 

 

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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