Pedro Tavares, Presidente do Conselho de Administração da Unileite

“A Unileite está a trabalhar para aumentar o preço do leite pago à produção em São Miguel”

Actualmente quantos produtores estão associados à Unileite?  
(Pedro Tavares) Temos à volta de 600 produtores.

Que quantidade de leite recebem?
Recebemos anualmente perto de 200 milhões de litros de leite. Mensalmente esse número situa-se entre os 13 e os 16 milhões de litros, portanto a média diária, ronda os 400 mil litros.

Dessa quantidade, quanta é destinada à produção de queijo?
Isso tem sempre a ver com o mercado. A estratégia desta administração, desde que tomamos posse, passa por valorizar o leite, mantendo a casa sustentável para que possamos valorizar a nossa matéria-prima. Como estamos num mercado excedentário, que nos últimos anos tem estado em crise, a nossa gestão tem ido no sentido de controlarmos a nossa produção de forma a valorizarmos o produto e termos o stock controlado. Quando não temos o stock controlado, não temos também hipótese de valorizar.

Não existe uma percentagem fixa?
Não. Temos vindo a aumentar os produtos de valor acrescentado mas sempre de forma a não aumentar os stocks. Estamos no final de 2021 e já temos o primeiro semestre do próximo ano praticamente fechado ao nível de encomendas, de previsões de vendas e canalizamos a nossa matéria-prima tendo isso em conta. Só fazemos esse balanço no final do ano e portanto, só aí percebemos quanto transformamos em UHT, em manteiga ou em queijo.

Do leite recebido, quanto vai para a Prolacto?
Em anos anteriores era uma quantidade significativa mas desde que a Nestlé vendeu a Prolacto, foi interesse da nova gestão reduzir essa dependência da Unileite. Em 2021 vamos fechar, muito provavelmente, nos 40 milhões de litros.

A Unileite tem capacidade de laborar todo o leite que recebe?
Em anos anteriores não tínhamos porque existiam grandes quantidades. Como a Prolacto demonstrou a sua intenção de ficar com menos dependência, arregaçamos a mangas e organizamo-nos no sentido de transformarmos o nosso produto. Neste momento isso já não nos preocupa e é possível que, dentro de um ou dois anos, possamos transformar toda a nossa matéria-prima sem grandes preocupações.

A relação com a distribuição tem sido boa?
Sempre tivemos, desde o inicio, uma boa relação com a grande distribuição. Cada um defendendo os seus interesses e muitas vezes não percebemos as reticências que eles apresentam em aumentar preços. As relações têm sido boas tanto a nível nacional como regional e, neste ultimo caso, a proximidade torna tudo mais fácil. Já conseguimos, desde o inicio de 2021, incrementar preço e somos a indústria que se encontra na linha da frente para aumentar os preços perante a grande distribuição, sensibilizando-os e explicando o que se está a passar com a produção. Já foi possível levar a cabo alguma valorização mas ainda não é suficiente.  
  É conhecido o desagrado dos produtores em relação ao preço do leite. A Unileite tem condições para aumentar o preço do leite nos próximos tempos?
Estamos a trabalhar para isso e ainda recentemente (dia 1 de Outubro) aumentamos o preço. Trabalhamos diariamente com essa intenção mas não lhe posso garantir quando teremos condições. Uma coisa é certa, encontramo-nos no meio da cadeia e as indústrias não têm tido resultados no sentido de poderem valorizar a matéria-prima. Sempre que é possível valorizamos e temos sensibilizado o poder político regional e nacional, que também tem um papel muito importante nessa vertente junto da grande distribuição. Não tenho dúvidas de que eles vão ter aceitar os aumentos de preço porque, se isso não acontecer, será muito mau para a produção e para a indústria.

O Presidente da Associação Agrícola estabeleceu como prazo o final do ano. Vão aumentar o preço do leite até essa data?
Não posso confirmar, ainda estamos a um mês e pouco dessa data, mas posso garantir que estamos a trabalhar para isso. Temos estado em constante contacto com a grande distribuição nesse sentido, mas eles têm mostrado algumas reticências e ainda não temos uma resposta positiva da parte deles. O aumento não está posto de parte mas ainda não temos confirmação.

Os produtores defendem um aumento de 8 cêntimos mas os últimos aumentos registados têm sido de 1 cêntimo. Como é que vocês vêm a actual situação dos lavradores?
Também somos lavradores e sentimos isto na pele. Certamente que o aumento devia ser à volta desses valores mas já deveria ter ocorrido há uns anos atrás. Os factores de produção estão a aumentar muito mas infelizmente isso não está ligado directamente com o preço do leite. A nossa intenção é sempre valorizar e subir o preço porque os produtos lácteos estão com preços muito baixos mas, não acredito que a curto/médio prazo seja possível aumentar o preço do leite em 6 ou 8 cêntimos. Para além dos custos de produção estarem a subir para os produtores também têm subido para as indústrias que encontram cada vez mais consumidores exigentes e que não estão preparados para pagar mais (…) Não lhe posso precisar em quanto vai subir, porque uma coisa é aquilo que era necessário outra é aquilo que será possível. Mas não tenho qualquer dúvida em afirmar que temos de ir buscar esse valor à distribuição e ao consumidor.

No fundo, os produtores queixam-se de que os aumentos dos custos de produção nunca são acompanhados pela subida do preço do leite…
Em São Miguel existem duas indústrias fundamentais para a sustentabilidade da produção; a dos concentrados e a dos lacticínios. A dos lacticínios gostava de vender o leite a melhor preço para poder valorizar a matéria-prima mas isso não é possível. Como produtor também estou insatisfeito, porque tudo tem subido bastante e o leite não acompanha mas isso é algo que nos ultrapassa…

Qual é actualmente o passivo da Unileite?
Desde a nossa entrada conseguimos reduzir o passivo. Quando chegamos o passivo situava-se nos 24 milhões de euros e, neste momento, devemos fechar o ano com um passivo entre os 19 e os 20 milhões. Tem sido um processo normal mas, obviamente, que se não tivéssemos esse passivo estávamos mais à vontade. A situação está controlada, vamos manter a nossa gestão da mesma forma e, tal como já referi antes, o nosso objectivo passa por valorizar a matéria-prima mas sempre de maneira sustentável. Os pagamentos aos fornecedores, aos colaboradores e aos produtores estão todos em dia.

O ano passado a Unileite apresentou lucros de meio milhão de euros. Há perspectivas de lucro este ano?
Estamos a trabalhar para que esse valor ronde o montante do ano passado mas 2021 ainda não está fechado. Encontramo-nos a meio do último trimestre mas, numa empresa desta dimensão, um mês pode ter muita influência.

Como é que analisam a estratégia delineada para diminuir a produção de leite?
Toda esta cadeia tem a ver com os custos de produção do produtor, custos de transformação da indústria e com o poder de valorização. O que nos interessa essencialmente é a rentabilidade do produtor. Se for por via da redução que vamos aumentar e criar um modelo que seja sustentável para toda a cadeia, não vemos isso com preocupação e, se houver redução, a nossa indústria vai-se adaptar. Estas medidas têm de ser transversais porque se for apenas a Unileite e os Açores a baixarem a sua produção, mas a nível nacional e europeu se caminhar em sentido contrário, o problema não se resolve.

Como analisa o papel do Centro do Leite e Lacticínios?
Na minha opinião está muito aquém daquilo que seria necessário. Precisávamos de um modelo de produção. Fala-se e reivindica-se muito por um preço justo mas ainda não ouvi ninguém dizer qual é esse preço porque não temos economia de produção e as explorações são todas diferentes. Para um produtor pode ser necessário um aumento de 8 cêntimos e para outro isso não será suficiente. O Centro de Leite e Lacticínios tem uma grande importância nesse sentido e para além disso, não tem havido muita discussão entre representantes de produtores, industria e governo. Não é que não esteja a fazer o seu papel, penso apenas que não tem sido o suficiente e tem de fazer mais.

Mas já não era tempo desse modelo de produção estar delineado passados tantos anos?
Claro que sim e volto a reforçar que o Centro do Leite e Lacticínios que já deveria saber que em São Miguel, o custo de produção ronda x e o preço justo deveria ser y para podermos trabalhar nesse sentido. Fala-se disso há muitos anos, o foco tem estado sempre na indústria mas o problema não está apenas na indústria.

Como vê o futuro do sector nos próximos anos?
Os sinais não são bons mas não tenho dúvidas de que este sector vai continuar. Temos de trabalhar todos em conjunto e com o mesmo foco, tentando não o desviar para a industria, para a produção ou para a grande distribuição. Se os factores de produção continuarem a subir da forma que tem acontecido, não tenho quaisquer dúvidas de que existirá uma redução bastante acentuada na produção de leite. Deixe-me dizer também que, como consumidores, temos de defender os nossos produtos regionais e infelizmente, os açorianos não são os melhores nessa vertente. Todos gostamos de falar em novos mercados e em valor acrescentado, mas todos os outros mercados defendem os seus produtos e com tudo o que se passou durante o último ano e meio com a pandemia, eles ainda estão mais retraídos o que nos dificulta a entrada. Temos esse problema e é necessário realizar campanhas de sensibilização junto dos nossos consumidores.                                                      
                                                    

Luís Lobão

 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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