Elaborado pela primeira vez na Região

Plano Estratégico para a Floricultura defende a criação de linhas de apoio financeiro para os produtores que iniciem actividade

O Governo Regional dos Açores já disponibilizou para consulta pública, o Plano Estratégico para a Floricultura na região, o primeiro deste género a ser elaborado. Num documento de mais de 70 páginas, coordenado por António Barreiros Domingues, são apontados seis grandes objectivos estratégicos e “um plano de acção para que, no enquadramento deste Plano Estratégico e num horizonte de seis anos, seja possível levar a cabo acções que permitam colmatar as principais necessidades identificadas no sector florícola”. Para além deste objectivo inicial, o Plano permitiu igualmente que se realizasse um levantamento real deste sector nos Açores.   

Análise SWOT à situação actual
da floricultura
Nesta análise, são descritas algumas das vantagens e desvantagens deste sector na região, bem como algumas das oportunidades que devem ser tidas em conta.
Começando pelos denominados “pontos fracos”, é destacado à cabeça “os eventos meteorológicos tempestuosos, por vezes devastadores, que condicionam algumas culturas”. Também a falta de mão-de-obra; o insuficiente apoio técnico prestado aos floricultores; o preço de transporte elevado e falta de capacidade de transporte (exportação e expedição) de flores por via aérea; a dificuldade com disponibilidade de transporte (aéreo e marítimo) para aceder a mercados directos; a falta de algumas infra-estruturas e equipamentos nas cooperativas para processamento e embalamento de flores ou a “elevada taxa de mortalidade nos plantios de próteas, originando custos de produção elevados”, são algumas das debilidades apontadas.
Em sentido contrário e para além da existência de uma forte tradição florícola na Região, destacam-se a existência de jardins “com elevado interesse botânico em várias ilhas, sendo repositório de muitas espécies florícolas e ornamentais e demonstrativos da adaptabilidade destas espécies à região”; de “solos ricos e férteis” que permitem um bom desenvolvimento e grandes produtividades; a existência de duas cooperativas para apoio à produção, concentração e exportação de flores de corte (proteáceas); o facto da produção e exportação de proteáceas nos Açores encontrar-se “em contra ciclo aos países com maior produção mundial (localizados no Hemisfério Sul) conseguindo uma boa posição no mercado de exportação”; o reconhecimento, por parte do mercado de exportação, “da qualidade das flores de proteáceas produzidas” ou a facto de ser possível explorar e valorizar financeiramente a flora “instalada em zona de domínio público”, como por exemplo as hortênsias.

Objectivos e plano de acção para
o sector
Como primeiro objectivo, é proposto desde logo, “promover e incrementar o acompanhamento técnico aos produtores florícolas, com maior realce na fitossanidade, de modo a aumentar a qualidade dos produtos florícolas e reduzir as perdas na produção e pós-colheita”. Para que tal seja possível são delineados alguns objectivos operacionais a ser implementados a curto e a médio prazo. Começando por aqueles a mais curto prazo, a proposta vai no sentido de dotar “os Serviços de Desenvolvimento Agrário (SDA’s) de condições e equipamentos para análise expedita e resposta imediata para diagnóstico dos principais problemas fitossanitários em floricultura” e de “potenciar a cooperação técnica com entidades externas à Região que se encontrem a trabalhar em floricultura, em temáticas do interesse da região”. Para fomentar o aumento da capacidade produtiva e olhando ainda para um horizonte a curto prazo, este Plano defende a manutenção e o incentivo do “associativismo como regulador do sector florícola nos Açores, permitindo o ganho de dimensão tendo em vista a exportação”. Tendo em vista o incremento da exportação, para o qual são necessários mais floricultores, são apontadas a criação de linhas de apoio financeiro para os produtores que “iniciam actividade na cultura de próteas” como forma de colmatar “a inexistência de rendimento financeiro durante o período de carência (2 a 3 anos) até à entrada de produção”. A discriminação positiva dos projectos que tenham estruturas de protecção para culturas florícolas; a criação de medidas de incentivo com o intuito de permitir a majoração da remuneração de operacionais para trabalho em floricultura; a sensibilização para a aquisição de equipamentos de captação e armazenamento de águas nas explorações; a inclusão da floricultura nos apoios comunitários “destinados à conversão e manutenção a práticas e métodos de agricultura biológica (ex: PRORURAL+)” ou a promoção da “actividade apícola como complemento à floricultura” são algumas das acções a desenvolver a curto prazo.
Olhando para um horizonte a médio prazo, este Plano propõe a criação de “um Serviço de Extensão Rural com técnicos do Serviço Regional ADR com conhecimentos da área da floricultura para apoio à produção”, bem como de uma rede de apoio técnico em floricultura, “para apoio às ilhas de menor dimensão” e a elaboração de “manuais técnicos para apoio de campo na fitossanidade em floricultura”. No campo da experimentação e cooperação técnica e científica, defende-se que esta deve incluir, desde logo, “as diferentes entidades que trabalham no sector” ou a instalação de “campos experimentais nos SDA’s das ilhas onde a floricultura tem maior actividade”. A promoção da “experimentação de produtos florícolas com aptidão e viabilidade económica, além dos já existentes” e a “realização de estudos científicos e de mercado para a avaliação de interesse comercial de espécies consideradas invasoras”, são outras das acções a desenvolver a médio prazo. Para além disso e tendo em visto o crescimento da capacidade produtiva, o Plano considera que deve ser criada legislação e que se deve igualmente “regulamentar a colheita de flores e folhagens (ex: hortênsias e ramagem de criptoméria) em espaços do domínio público” ou promover “a produção de plantio de hortênsias para exportação com uma imagem de marca promocional associada à identidade dos Açores”.
Outro dos grandes objectivos estratégicos passa por “fomentar e promover a produção regional para o mercado local dos principais produtos florícolas consumidos na região”. Para que tal seja possível, defende-se a diferenciação “dos produtos florícolas regionais com a Marca Açores” e, a médio prazo, o incentivo da “experimentação de produtos florícolas com interesse para produção e mercados locais”. Também para um horizonte a médio prazo, este Plano defende que deve ser realizada uma promoção do “mercado de produtos florícolas açorianos, como mercado em potencial crescimento, junto das entidades competentes em matéria de comércio e de turismo”. Precisamente nesta vertente da exportação, outro dos grandes objectivos presentes no documento, aconselha a “prospecção de novos mercados externos, através de exportação directa, com vista a aumentar o valor acrescentado dos produtos e subprodutos florícolas”. Para isso, é necessário melhorar, a médio prazo, “a eficiência das cadeias de frio nos actuais circuitos de transporte na exportação” e “testar a resistência pós-colheita e de transporte de novos produtos florícolas de forma a garantir a sua qualidade aquando da exportação para mercados externos”.
Numa região onde o turismo é um dos principais sectores económicos, o Plano Estratégico para a Floricultura, aponta para a promoção, “junto das entidades públicas com domínio na gestão das vias públicas e espaços adjacentes, assim como parques e arruamentos, o aumento da diversidade de espécies florícolas além das já existentes”, para a “plantação de espécies florícolas nas explorações agrícolas aumentando a diversidade da flora e a melhoria da paisagem floristíca e dos agroecossistemas, valorizando a paisagem e os recursos apícolas” ou ainda “potenciar roteiros (ex:’’Rota das Flores’’) de visita turística a explorações, jardins, entre outros, em que a floricultura e o mundo das plantas se apresenta como uma atractividade”.

Panorama geral do sector nos Açores
Num mercado dominado pelos Países Baixos que produzem 52% do total mundial das flores de corte, Portugal tem registado uma evolução na produção de flores e encontra-se actualmente “no oitavo lugar no ranking de países produtores de flores com 601,05 milhões de euros de flores produzidas e com uma taxa de crescimento anual, desde 2014, de 6,2%”, destaca-se.    
De acordo com o Plano Estratégico da Floricultura para a região e tendo como base dados do Ministério da Agricultura referentes a 2018, “o sector das plantas e flores gerou uma receita de cerca de 600 milhões de euros, o que corresponde a 7,6% da produção agrícola nacional, com uma taxa de crescimento médio anual de 6,3% do valor da produção. As exportações têm acompanhado esta evolução. A sua taxa de crescimento médio anual é de 10% e confirma o reconhecimento internacional da produção portuguesa. Em 2018 o valor das exportações nesta área era da ordem dos 73 milhões de euros. Um ano depois, em 2019, já chegava aos 89 milhões”, refere o documento.
Falando concretamente da realidade regional, este Plano realça que as explorações variam na sua dimensão, “sendo normalmente entre 1.000 m2 e os 50.000 m2”. Quanto à mão de obra, esta “é maioritariamente familiar, tendo as explorações de maior dimensão mão-de-obra contratada à razão mínima de um trabalhador permanente por hectare. Nos períodos de colheita e também para apoiar algumas tarefas de maneio da cultura é contratada mão-de-obra sazonal, dependendo das necessidades da exploração”.
Segundo um inquérito de 2017 do Serviço Regional de Estatística dos Açores existiam na Região 86 explorações com culturas florícolas, que ocupavam uma área base de 93 hectares (ha), “dos quais 75 ha com flores de corte, 4 ha com folhagens de corte e complementos de flor e 14 ha com plantas ornamentais. A dimensão média das explorações era de 1,1 ha de área base. A área de estufas ocupava 5 ha de superfície florícola e 17 as áreas ao ar livre eram claramente predominantes, ocupando 88 ha. As próteas são as flores de corte mais representativas na Região, ocupando 73% da superfície produtiva das flores de corte, seguidas pelas hortênsias que ocupam respectivamente 14% da área de produção”.
Numa região onde o “desenvolvimento da floricultura difere muito entre as ilhas”, são apontadas três ilhas (São Miguel, Terceira e Faial) onde “a floricultura se destaca pelo seu desenvolvimento e crescimento nos últimos anos”. No contexto açoriano, a produção de próteas para exportação, “é a actividade florícola que mais de destaca”, salientando-se também a existência de “um grande produção de flores de corte em estufa, principalmente na ilha de São Miguel, maioritariamente destinada ao mercado local e para expedição para as outras ilhas do arquipélago”.
Segundo dados de 2020, relativos à produção de próteas, a ilha Terceira possuía 48,22 hectares de área florícola (exactamente a mesma do que no ano anterior). Já no Faial, 14,19 hectares são dedicados à produção de próteas, sendo que as explorações de flores e plantas ornamentais ao ar livre representam praticamente o dobro desta área (31,56 hectares). Na ilha de São Miguel, tal como sucede na Terceira, as próteas dominam o sector, registando uma área de produção de 19,08 hectares enquanto as flores e plantas ornamentais ao ar livre estão presentes em apenas 9,41 hectares.
              
 Reacção ao Plano
O Correio dos Açores contactou o Presidente da FRUTER, Cooperativa responsável pela exportação de grande parte das próteas na região. Paulo Rocha começa por afirmar que, no documento, “a importância da FRUTER na exportação de flores a nível regional está um pouco omissa”. O Presidente desta Cooperativa considera que “o Plano fala em muitas temáticas mas é um pouco vago”, admitindo que este é um sector “complicado tanto para a produção como para a exportação e sabemos isso por experiência própria”.
Sobre a campanha deste ano, “que se iniciou no segundo semestre”, Paulo Rocha faz para já um balanço positivo e avança que “já mandamos três vezes mais flores do que no ano passado”. O Presidente da FRUTER afirma também que o ano passado, “por incrível que pareça”, foi um dos melhores dos últimos tempos.
“Isso aconteceu porque houve vários factores que contribuíram a nosso favor. As Canárias, um dos nossos concorrentes, foram impedidas de exportar flores porque não tinham voos devido à pandemia. A África do Sul também teve problemas”, explica.
Com uma facturação que ronda os 1,3 milhões de euros e com 25 produtores florícolas associados, a FRUTER destaca que “só durante esta semana, enviamos cerca de 400 caixas de flores via área e a partir de Janeiro, chegamos a mandar 3 contentores de 40 pés semanalmente. O mercado nacional não conseguia absorver esta produção”, afirma o seu Presidente.           
                                                    

Luís Lobão  

 

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima