Face a Face...! com o médico Dionísio Faria e Maia

“Sou apologista da estabilidade governativa, do respeito pelo voto popular e não tenho nada contra alternâncias e alianças”

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Dionísio Faria e Maia - Sou povoacense, açoriano autonomista, português assumido no meu Cartão de Cidadão e  europeísta.

Fale-nos do seu processo de vida no campo académico, profissional e social.
Fiz os meus estudos secundários no Liceu Antero de Quental e a licenciatura em Medicina na Faculdade de Medicina de Lisboa.
No pós 25 de Abril, viviam-se tempos de mudança e os jovens médicos sentiam necessidade quase imperativa de participar nesta mudança. Foi o tempo da descentralização e, se quisermos, até do início duma regionalização em termos de assistência médica.
Iniciavam-se os primeiros estágios em hospitais mais periféricos e a era dos chamados médicos à periferia, de que também fiz parte.
Nos tempos de hoje há quem faça já a história das aventuras destes jovens médicos feitos “João Semana” e do impacto positivo que tiveram na saúde pública das nossas populações.
Vim em 1979 para o então Hospital de S. José - Hospital de Ponta Delgada, unidade hospitalar já sob tutela do jovem Serviço Regional de Saúde, onde, com um grupo muito pequeno  de jovens médicos, iniciamos a nossa actividade clínica e ao mesmo tempo formativa,  convivendo com  médicos experientes, já  referências locais.
Rapidamente fomos aceites e integrados numa tarefa difícil, que foi responder às necessidades assistenciais em todas as áreas hoje distribuídas por especialidades médicas e cirúrgicas mas que na altura não existiam naquele hospital, nem na Região Autónoma dos Açores.
Fiz a minha especialização em Medicina Interna e depois também em Medicina Intensiva, e terminei a minha carreira hospitalar como Director do Serviço de Medicina Intensiva do HDES.
Existe um percurso complexo e longo que seria fastidioso enunciar sobre a minha participação e evolução das áreas e serviços por onde passei, sendo somente de referir que o tentei fazer com espírito de missão e de participação no constante ambiente de mudança que caracterizou a evolução do nosso SRS.
Pelo caminho participei na criação e direção de outras áreas de gestão clínica e organizacional, formativa, cultural, em várias Comissões Hospitalares.
Por fim, a minha participação activa na política, faz-se de 2016 a 2020 como deputado na Assembleia Legislativa Regional.

Quais as suas responsabilidades?
Recentemente, voltei a assumir a Presidência da Fundação Pia Diocesana do Bom Jesus, e mantenho a função de Director Clínico da Clínica do Bom Jesus, assim como a minha actividade clínica em regime liberal, como médico especialista em Medicina Interna.

 Qual a sua opinião sobre a evolução da família nos Açores?
A minha descrição da família de hoje, é a de que temos que estar preparados para outros paradigmas, novas normalidades, sem perdermos a noção de núcleo aglomerador e identitário.
Existe um core a partir do qual cada família se organiza e um modelo social em que orbitam. Muitas vezes focamo-nos nas disfunções deste núcleo sem olharmos aos desvios de rota que as variáveis sociais impõem.

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
Sou muito céptico na inferência do efeito comparativo sobre o que é a família de hoje versus uma família tradicional, porque é a dinâmica social que define um tempo e um modo de coexistência, seja a familiar seja a de outro grupo social.
Para mim, a família tradicional foi a de ontem; a de hoje é a que vai transmitir valores para a de amanhã, logo um modelo conceptual dinâmico em que tradição não significa transição sem adaptação.

A relação entre pais e filhos é um foco de tensões. Em sua opinião que abordagens devem ser feitas?
Aqui voltamos à questão da influência das variáveis sociais sobre as relações parentais. Há quem defenda que se devem inventar novos pais, precisamente porque há um hiato relacional que se pensa ter originado fraco exercício desta parentalidade. Muitos advogam falta de autoridade como causa destas dificuldades, outros advogam que é o exercício de uma autoridade desproporcional que o provoca. Pelo meio fica uma geração consumista, facilitadora e, no extremo, laxista. Retiraram-se competências disciplinadoras a toda uma cadeia de educadores e a escola perdeu protagonismo e dominância sobre toda a outra formação e informação www.
Não será o denominado modelo tradicional que pode ser adoptado, mas sim um modelo participativo em que em cada área educativa e a própria família interfere e parametriza a formação e informação disponível.

Como e quando se deve interferir nas amizades dos adolescentes?
A amizade não pode ser limitada. Tratam-se de sentimentos recíprocos, que uma vez estabelecidos tem um emissor e um receptor e estabelecem laços de solidariedade e protecção. As companhias sim. Há que controlar frequências e ambientes em que as companhias não se baseiam na amizade, mas em interesses desviantes para comportamentos antissociais ou de autodestruição.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
Existe uma inevitabilidade evolutiva nas sociedades. O mundo não para, avança; e a sociedade é este motor gerador de mudança, mesmo que por vezes em sobressalto. Nada melhor do que a educação, genérico de todas as áreas formativas para uma cidadania activa, para cimentar este entendimento dos valores humanos e ecológicos a preservar.

Que importância têm os amigos?
Os amigos têm um papel muito singular na vida das pessoas. Primeiro estão sujeitos a categorização. Temos amigos do peito, os bons amigos, os amigos do costume e, por fim, os que se dizem amigos.
Sobre a verdadeira amizade, sei e eles sabem que não precisamos de geografias para estarmos mentalmente juntos e presentes.

Que actividades lúdicas gosta de desenvolver no seu dia a dia?
Não posso estar parado. Tenho funções médicas e executivas que ocupam parte do meu tempo, mas, ainda me resta muito tempo para a família: esposa, filhos e netos, e para a intervenção social e o laser.

Que sonhos alimentou em criança?
Sonhei com tudo o que uma criança do meu tempo podia sonhar, com uma certeza que me transmitiram. O sonho comanda a vida, mas a vida nunca será um sonho, mas uma realidade construída.

O que mais o incomoda nos outros?
É um cliché reportarmo-nos à imbecilidade ou à ignorância como formas incómodas de convivência. Para os pobres de espírito sempre a minha condescendência. O que não tolero são os falsos profetas, os pseudo- cientistas e os intriguistas que falam de tudo, sem saberem ou quererem saber de nada.

Que características mais admira no sexo oposto?
Outro cliché, agora que, a sexo oposto já nem sabemos a que nos referimos. Não faço oposição nem ao sexo nem ao género, como agora se fala. Todos humanos, todos iguais, logo que a inteligência, a sensibilidade e o bom senso prevaleçam. Obviamente que quanto aos géneros, existem características diferenciadoras que fazem das uniões eventos efémeros ou para toda a vida.

Gosta de ler?  
O gosto pela leitura leva-nos a escolhas ao longo da nossa vida. Obrigado à leitura de livros e publicações técnicas e vivenciando as nuances das vulnerabilidades da natureza humana, deixei o romance e a ficção romanceada e leio cada vez mais estudos filosóficos e de análise social. Entretanto, não resisto à poesia, forma tão intimista de comunicar o ser e o estar num mundo de afectos, de referências e de lugares, transportando-nos tanto para a realidade como para a utopia.
Gosto ou não gosto do que leio e passo adiante. Mas releio sempre o que gosto, num prazer de reencontros.

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
Não frequento as redes sociais. Mas considero-as um fenómeno com impacto positivo no que à liberdade de expressão e de comunicação se refere, mas obviamente potencialmente desviante das normas desta própria liberdade, quando estiver em causa atentados à dignidade e privacidade dos indivíduos.

Conseguia viver sem telemóvel e internet? Quer explicar?
É possível viver sem telemóvel nem internet, basta-nos ver a capacidade de adaptação e sobrevivência dos humanos; mas claro que em pleno século XXI nunca seria a mesma coisa, porque habituamo-nos a depender deles.

Costuma ler jornais?
Leio regularmente todos os jornais a que tenho acesso, agora mais no formato digital, embora mantenha o prazer de os folhear; e não resisto a participar neles, mesmo que esporadicamente; opinando sobre factos e temas que me suscitam reflexão ou tomada de posição; e aqui deixo o meu agradecimento ao Correio dos Açores pela generosidade de os publicar.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Não existem milagres para se poder comunicar amanhã uma notícia que rompa com este ciclo de más notícias. Prefiro acordar e saber que os jornais continuam vivos e que nos transmitam imperativos de mudança para um futuro melhor.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Viajar é um prazer e uma necessidade, agora ainda condicionado pela pandemia.  A este propósito, cito o nosso Álamo Oliveira quando afirmou que amava os aviões sobretudo e os Açores sobre todas as coisas. Isto define bem a necessidade que um ilhéu tem de sair, para depois saborear o prazer do regresso. Guardo boas memórias de algumas viagens que fiz; elegendo Rio de Janeiro e Iguaçu como inesquecíveis.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E que qual o seu prato preferido?
Como para viver, não vivo para comer, mas aprecio dieta mediterrânica.

Qual a máxima que o inspira?
Não me inspiro em máximas nem axiomas, e aceito todos os princípios, mesmo sabendo que a melhor maneira de fazer inimigos é tentar alterar alguma coisa.

Em que época histórica gostaria de ter vivido?
Adoro viver hoje e neste século XXI, por tudo o que a ciência e a tecnologia nos permite ter e pelo admirável mundo novo que ainda está para acontecer.

O que pensa da política?
O que é a política? Talvez fosse importante estudá-la para poder exercê-la. Hoje o maior paradoxo encontra-se nesta ignorância. Temos praticantes sem habilitações. Obviamente que temos também políticos com grande conhecimento das nossas realidades, e não esquecer que em democracia, porque se vota ou deixa de votar, todos somos responsáveis pelos governantes que temos.
A dicotomia direita-esquerda, agora salpicada por partidos não ideológicos, mas pragmáticos para as causas que defendem, sofre de um conservadorismo assustador. Ninguém é capaz de implementar reformas necessárias em sistemas tão dinâmicos como a saúde, a segurança social, a justiça, a fiscalidade e, no nosso caso, na própria essência e competência autonómica.

Que análise faz da política regional?
Não será difícil perceber quão frágil e potencialmente disfuncional é a situação política nos Açores. Não se pode falar de estabilidade quando tudo está por um fio. Não se pode confiar em parcerias que, como disse, não têm base ideológica, mas sim pragmática e como se viu até chantagista.

Enquanto cidadão, acredita na perenidade do actual Governo dos Açores resultante da aliança PSD/CDSPP/PPM com acordos parlamentares com a Iniciativa Liberal e o Chega? É um Governo para durar? E o PSD já estará a “engolir” alguns elefantes?
Quando se quer manter um Governo de Coligação a troco de um prato de lentilhas, como foram as exigências feitas pelas várias representações parlamentares como condição para aprovação do Plano e Orçamento para o próximo ano, está tudo dito.
Creio que o actual Presidente do Governo Regional sempre soube que as boas intenções acabariam em falsas promessas, logo que a sede de poder destes pequenos aliados, aumentasse na razão directa do protagonismo concedido, e nesta realidade o PSD preparou-se para a “morte súbita”. Não o sendo desta vez, será certamente para a próxima.
Sou apologista da estabilidade governativa; do respeito pelo voto popular; e não tenho nada contra alternâncias e alianças; mas no nosso contexto político, eleitoral e representativo, não creio ser possível estabilidade sem maiorias absolutas.

Um Governo Regional frágil nos Açores leva a que aumente o ímpeto centralista dos governos da República? Quer explicar?
A nossa autonomia está cheia de fragilidades, desde logo a nossa incapacidade, ou inaptidão para a reforçar do ponto de vista legislativo e organizacional. Os mecanismos que possam levar a uma revisão constitucional e ao reforço do nosso estatuto político e financeiro estão nas competências da Assembleia da República. Haverá órgão de poder mais centralista do que este, onde a nossa representação é tão pequena e tão hostil que de pouco nos serve?

Em sua opinião, como é que a Região está a passar pela pandemia da Covid-19?
Esta pandemia e o modo como nos Açores se enfrentaram as sucessivas vagas, serve muito bem para complementar o que disse acima. Como foi possível que uma região que é responsável pela sua saúde pública não fosse autonomamente responsável pela segurança das suas fronteiras sanitárias? Ninguém estava preparado, mas o Governo PS da altura tomou as medidas possíveis para esta contenção. Posteriormente, com o advento da vacinação, houve uma adesão significativa da nossa população e tudo ficou mais fácil. Mas o essencial mantém-se. Temos fragilidades que só se resolvem com o reforço da autonomia e reformas de fundo na Saúde e, porque não, também na Justiça.

 Qual o estado da Saúde nos Açores?
Sou defensor de um Serviço Regional de Saúde em que a equidade, a eficiência e a qualidade sejam a marca dominante. Não posso, nem devo criticar um sistema socialmente generoso e bom, que em 40 anos evoluiu muito. Não há soluções mágicas para resolução de problemas transversais a todos os sistemas de saúde, mas o que não podemos é estar em modo de gestão corrente. Urge definir novas formas de financiamento e dotar o Serviço Regional de Saúde com as verbas necessárias à sua sobrevivência.

Enquanto médico, quais os impactos para as clínicas privadas da Região do Hospital Privado dos Açores?
A medicina privada é uma actividade económica e social muito importante, quer pelos serviços que oferecem, quer pela captação de impostos que origina. Sabemos que muitas subsistem pelos serviços que também prestam ao Serviço Regional de Saúde, mas o que importa implementar são mecanismos de controlo não só da qualidade, mas também das vias de acesso e de referenciação de modo a que todos tenham as mesmas condições neste mercado.
É urgente redefinir estatutos dos prestadores e limites a prescrições que só o deveriam ser feitas por determinadas especialidades, é urgente resolver conflitos de interesses deletérios para o Serviço Regional de Saúde.

Uma melhor saúde terá sempre de passar pela ação das clínicas privadas existentes na Região. Quer explicar?
Discordo em absoluto. Senão vejamos; os hospitais privados e as clínicas praticamente não têm corpo clínico próprio, nem muito menos formado e acreditado por estas entidades. Raríssimas excepções. Logo, os médicos, os enfermeiros e outros técnicos de saúde, ou vieram dos SNS ou do SRS ou prestam neles serviço.
Por isso é preciso não confundir medicina de qualidade com acesso. O grande problema, agravado pela saída de técnicos para o sector privado é de acesso e não de qualidade.
É urgente reformar e redefinir estatutos e bases contratuais para a saúde, assim como investir mais e mais no Serviço Regional de Saúde, dotando-o do financiamento adequado.

As estatísticas mostram que o combate à pobreza nos Açores não tem alcançado o êxito desejado. Em sua opinião, que estratégia deve ser seguida para diminuir a pobreza?
Não sou especialista nesta matéria, embora seja leitor atento do que se passa nos Açores, em Portugal e na Europa. Quando se constata que na Bélgica, em 2021, uma em cada cinco crianças é pobre e na Alemanha desde 2020 uma em cada 5 crianças está em risco de pobreza, sem irmos a outros países, mas recuando à crise económica 2013-2015, verificamos que nos países com sistemas sociais mais fracos, a imposição de medidas drásticas de redução orçamental, teve impacto muito negativo também em Portugal e nos Açores, não digo na solução, mas na redução da prevalência deste problema. Por outro lado, fala-se de pobreza sem exaustiva caracterização. Este problema só pode e deve ser enfrentado, conhecendo-o e estratificando-o e com um contrato inter-geracional robusto e reformista.

Que reflexão faz sobre o desenvolvimento harmónico da Região. Em que momento deixa de ser possível para passar a ser utópico?
Isto é conversa para políticos. Não concordo com adjetivos sem substância. No dia em que conseguirem demonstrar a que corresponde esta harmonia, render-me-ei.
Gosto mais da ideia de desenvolvimento sustentado ou sustentável, a que cada ilha pode e deve aceder.

Tem algo mais que considere interessante e importante abordar no âmbito desta entrevista?
Esta entrevista já vai longa e só me resta mais uma vez agradecer ao CA esta oportunidade e deferência.                         

 

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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