Casa do Bacalhau quer tornar o jantar da consoada mais digno para algumas famílias

“Este ano vou ajudar algumas pessoas que não têm mesmo nada”, garante Carlos Almeida

“Foi o pior ano de sempre tive mais trabalho e facturei menos, mas vou tirar de mim para ajudar algumas pessoas e é assim que se faz caridade, não é ter muito e ajudar. Vou fazer isso e sei que algumas famílias não vão ter essa possibilidade, mas quero tornar a noite de véspera de Natal mais feliz para algumas. É muito importante termos esta missão de ajudar os outros, porque senão fizer isto, também não me engrandeço e vou ajudar algumas pessoas que não têm mesmo nada”, validou.

Quem é quem?

Carlos Almeida, de 47 anos de idade é o proprietário da Casa do Bacalhau, espaço de referência da cidade de Ponta Delgada, situado na Rua do Castilho, 57. Já começa a ser, um pouco, como aquele anúncio publicitário: “A fama que vem de longe”.
Carlos Almeida nasceu em São Vicente Ferreira e com 19 anos foi para a Marinha Portuguesa, tendo nela estado durante cinco anos. Na Marinha especializou-se na cozinha, onde tirou o primeiro e o segundo cursos, classificando-se em segundo lugar e ganhando com isto o direito de ingressar no Museu de Marinha, nos Jerónimos.
A Casa do Bacalhau, que comercializa o verdadeiro bacalhau, iniciou a sua actividade há cerca de oito anos atrás. O conceito surgiu quando o nosso entrevistado andava em Lisboa, ao serviço da Marinha Portuguesa. Já nos Açores, Carlos Almeida lembrou-se de juntar o útil ao agradável, surgindo assim as “Noites de Fado” na Casa do Bacalhau, que tem a particularidade de só ser servido o bacalhau, experiência única, muita apreciada por todos, em especial pelos estrangeiros.
Mais ainda, a Casa do Bacalhau é única no país, surgindo à entrada uma mercearia, onde para além do bacalhau, que faz parte da gastronomia portuguesa pelo menos desde o Século XIV, destaque ainda para a presença de alguns produtos gourmet e bons vinhos.

“Noites de Fado”
já com reservas para 2022

Às “Noites de Fado”, que Carlos Almeida preferente antes designar de noites culturais, a adesão do público tem sido cada vez maior, sendo já uma referência não só nacional, mas até internacional. “No continente, quem gosta de fado já conhece a Casa do Bacalhau”, mas a realidade é que no estrangeiro o espaço também já é conhecido. “Às vezes não se consegue explicar bem, mas o que é uma realidade é que temos já muitas reservas para 2022, de pessoas dos Estados Unidos da América, de França, Alemanha e de outros países. As viagens são inclusivamente planeadas com reservas nos nossos eventos”.
De momento não se realizam as noites de Tapas e Vinho às Quartas-feiras, mas as “Noites de Fado” com jantar de bacalhau continuam e sairão reforçadas no próximo ano. “Vamos investir muito mais nos eventos, porque é aquilo que nos está a dar nome e é aquilo, que temos tido enorme procura. Desde modo vamos fazer mais “Noites de Fado”, sempre com o jantar de bacalhau e vamos criar aqui uma dinâmica diferente daquilo que tem acontecido nestes últimos anos”, revelou.

Dono, gerente, chefe de cozinha…

E para que se note, é também Carlos Almeida quem confecciona o bacalhau. Este chefe de cozinha passa despercebido, porque quando o jantar está prestes a terminar, faz sempre as honras da casa e pergunta se está tudo bem e se estão a gostar. Normalmente, os convidados enderecem felicitações à cozinha, não sabendo que ele próprio é quem confecciona os pratos.
Para além de Carlos Almeida, a equipa da Casa do Bacalhau funciona com mais um colaborador permanente, o João, mas tem outros dois, nomeadamente a Dina e o Eduardo, que ali estão em tempo parcial, nas “Noites de Fado”.
Para além destes, há ainda músicos permanentes, nomeadamente Ricardo Melo, na viola, e Luís Ramos, guitarrista.

O bom bacalhau vai acabar

Carlos Almeida desmistificou ainda quem anda a apregoar que o bacalhau vai acabar. “O bacalhau nunca vai acabar, mas o bom bacalhau é que já está a acabar. Neste momento já tenho muito pouco bacalhau para satisfazer os meus clientes”. Esta realidade justifica a forte afluência que a Casa do Bacalhau tem vindo a ter, porque os clientes já foram informados que o bom bacalhau vai acabar. E porquê? Carlos Almeida explica, que “os fornecedores sabem que o bacalhau tem de ser comprado nos primeiros meses do ano, porque têm nove, 10 ou mais meses de cura, e no ano passado, em pleno ano de pandemia, a pesca foi menor, o que encareceu o bacalhau e quase ninguém investiu, o que levou à sua escassez”. A Casa do Bacalhau ainda tem um bom lote de bacalhau, mas por exemplo, em relação ao ano passado, não tem.

Este ano, a Casa do Bacalhau apostou muito no bacalhau da Islândia, ao contrário do ano passado, que apostou mais na espécie da Noruega. Em termos de preço, “o bacalhau este ano está mais caro e subiu na ordem dos 20 por cento”.
“Hoje já não sei o preço, a semana passada sabia, mas hoje já não sei, porque o preço do bacalhau sobe todos os dias. Às vezes faço cabazes e faço um orçamento hoje, mas tenho que dar com a validade de um dia, porque basta subir 1 euro por quilo, que em 1000Kg são 1.000 euros e faz muita diferença”, relevou, para frisar que “isto não é especulação é a realidade”.
Mais disse, que “o bacalhau que é escalado em Fevereiro, Março ou Abril e salgado para ser vendido agora, este vai acabar. Já o bacalhau que foi pescado há três meses, este haverá sempre e nunca vai acabar, até com as devidas promoções”.
Não esquecer que o nosso bacalhau tem, no mínimo, nove meses de cura, e significa isto, que pode ser mais caro, mas depois de demolhado cresce, através do processo de hidratação.
Infinitas formas de se cozinhar bacalhau

E porque fala quem sabe, Carlos Almeida aborda as diferentes formas de cozinhar bacalhau. “Já nem falo em 1001 formas de cozinhar bacalhau, prefiro antes abordar as infinitas maneiras de se poder confeccionar bacalhau. Falo por mim, quando digo que consigo confeccionar bacalhau de muitas maneiras sem ter uma receita. No entanto, nas Noites de Fado tenho uma receita típica do evento, nomeadamente as migas do bacalhau, que criei na cozinha”.
O nosso interlocutor não tem dúvidas ainda, que “na noite de Natal tem de haver bacalhau, porque depois de uma boa demolha e confecção, mesmo quem não goste passa a gostar. As boas recordações do Natal vêm da nossa infância e da noite da consoada, onde o bacalhau marca sempre presença. Hoje em dia, o Natal começa a ser cada vez mais supérfluo, onde as pessoas só ligam às ofertas, às boas roupas e tudo o resto, mas a essência da quadra natalícia está a ficar esquecida, esquece-se inclusivamente, que se comemora também o nascimento do Menino Jesus. Para além disso, as nossas tradições estão a desaparecer, nada cheira a Natal como dantes, onde até as árvores são de plástico”.
Carlos Almeida insiste hoje em dia em comprar uma árvore de Natal natural, embrulha as ofertas como dantes e continua a ir à Missa do Galo, porque teima “manter as verdadeiras tradições natalícias.”

Bem demolhar o bacalhau

Bem demolhar o bacalhau. “Deve-se passar o bacalhau por água para tirar o excesso de sal. Colocar o bacalhau com a pele virada para cima às postas num recipiente com água, no frigorífico. Durante cinco dias fazer apenas uma muda de água por dia. O bacalhau no frigorífico não deixa cheiro absolutamente nenhum, porque cá fora ao segundo dia já começa a cheirar mal, a indiciar que está estragado e é preciso as pessoas perceberem isto. O bacalhau é um peixe desidratado com o sal e devemos voltar a hidratá-lo com uma muda de água por dia. Dessalgar e hidratar o bacalhau para depois cozinhá-lo, pouco, são regras a ter em conta”.
 

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