Jovem açoriana reproduz receita tradicional para “que o bolo lêvedo seja conhecido no Continente”

Depois do seu trabalho das “9 às 5”, no qual é chefe de serviço de um Contact Center numa clínica privada em Lisboa, a rotina de Diana Matos é quase diariamente marcada pela confecção das dezenas de bolos lêvedos que compõem as encomendas que são posteriormente distribuídas por aqueles que desejam provar pela primeira vez, ou não, esta iguaria açoriana.  Depois de pelo menos três horas a trabalhar em cada encomenda, respeitando o tempo e o carinho que cada bolo lêvedo merece, esta açoriana, natural da ilha do Faial, conta com o apoio do namorado, Mário, para cozer os bolos por intermédio de duas chapas rectangulares, sendo este também o responsável pelas distribuições “dos lêvedos”, como os chama carinhosamente,  em Oeiras, Cascais, Sintra, Lisboa e na Margem Sul.
O seu objectivo, conta, passa por “fazer com que o bolo lêvedo seja conhecido no continente”, uma vez que – embora cada vez mais portugueses conheçam esta iguaria típica dos Açores –, o mais frequente é pensarem que esta é idêntica ao bolo do caco, típico do arquipélago da Madeira, e vincado pelos sabores amanteigados e ligeiramente salgados. Porém, realça, sempre que o bolo lêvedo é provado pela primeira vez não desilude, uma vez que daí originam, por norma, mais encomendas. Há, inclusive, famílias que pedem bolos todas as semanas, ou de duas em duas semanas, e há crianças que afirmam sem receios que este bolo açoriano é “melhor que Bollycao”.
Neste sentido, a maior parte dos clientes da Very Important Lêvedo (@veryimportantlevedo no Instagram), são sobretudo continentais em busca de novos sabores e residentes na área de Lisboa que visitaram a ilha de São Miguel, que “adoraram o bolo lêvedo mas que não encontram igual” mas que, através das mãos desta jovem com 27 anos de idade, conseguem matar as saudades de uma pequena parte da gastronomia açoriana.
Este é ainda um mercado por explorar em Portugal continental, considera a açoriana, tendo em conta que o bolo lêvedo não tem, de momento, o merecido lugar de destaque na restauração lisboeta, por exemplo, ao contrário do que acontece no arquipélago de onde é típico, que reconhece o seu potencial para acompanhar carnes, por exemplo. Tendo isto em conta, adianta que, a médio ou longo prazo, gostaria de abrir um espaço próprio, dedicado tanto ao bolo lêvedo como aos Açores de uma forma geral. “Temos que dar um passo de cada vez, mas o meu objectivo seria abrir um espaço onde pudesse mostrar a versatilidade do bolo lêvedo, porque é tão versátil como o bolo do caco ou mais, e as pessoas ainda não o conhecem muito, ou as que o conhecem são quem lá vai de viagem. Por isso, considero que ainda seja um mercado para explorar”, diz Diana Matos, realçando o quando “adorava” dedicar-se a este negócio a tempo inteiro.
“Adorava dedicar-me a isto a tempo inteiro. Desde o início que está nos nossos planos. Até agora temos aperfeiçoado a receita, temos dado a conhecer o lêvedo, mas o feedback tem sido tão bom que tenho a certeza que se houvesse um espaço onde existisse este bolo que as pessoas iriam aderir muito bem. (…) Olhando para trás, nós apenas começámos isto há seis meses, em Julho. Se até agora temos conseguido atingir este número de pessoas, que tem sido fantástico, acho que o caminho a fazer é para a frente”, diz ainda.
A par do bolo lêvedo, Diana Matos tem também procurado reservar algum tempo para fazer testes com a confecção das queijadas Dona Amélia, típicas da ilha Terceira, e, também, para aperfeiçoar a receita de família da massa sovada, que aprendeu a fazer com o avô paterno, nos Verões passados no Faial.
Ao longo dos últimos meses, esta jovem açoriana foi já por duas vezes apresentar o seu projecto a dois programas de televisão nacionais, em Outubro e neste mês de Janeiro, aspecto que considera importante “para que as pessoas tenham noção do carinho, da dedicação e do empenho que está em cada bolo, um bolo que demora horas a fazer”, e que tem também funcionado como uma forma de aguçar a curiosidade de potenciais novos clientes.
O início da Very Important Lêvedo deu-se em 2017, mesmo que numa fase inicial não fosse essa a real intenção de Diana Matos, que apenas queria que a sua casa “cheirasse bem”, à semelhança da cozinha dos avós, na ilha do Faial, e que a confecção dos bolos lêvedos lhe permitisse matar as saudades que tinha dos Açores e da família na ilha do Faial.
“Comecei a vendê-los a amigos e as pessoas começaram a gostar. No ano passado, já com a Covid-19, decidi ter uma vertente mais séria para o que estava a fazer. A receita já a tinha, foi sendo aperfeiçoada, e quando chegou o mês de Julho pensei que não tinha nada a perder e criei a minha página, a minha própria marca e o meu próprio nome, fiz uma página de Instagram e de Facebook, e começou a correr muito bem. Tive uma entrevista na NIT e foi a partir daí que as pessoas começaram a conhecer mesmo e a repetir, e o feedback que temos tido tem sido muito bom”, conta.
Na realidade, a vontade de “meter as mãos na massa” parece correr no sangue da metade açoriana da família de Diana Matos, com quem aprendeu a relevância da pastelaria tradicional açoriana e demais tradições e costumes que ainda hoje valoriza, depois de vários Verões passados a absorver a forma como a vida é vivida no Grupo Central, em concreto na ilha do Faial.
“Nós íamos lá sempre no Verão mas os meus avós tinham sempre trabalho para nos darem sopas do Espírito Santo, apesar de não ser tempo disso. Desde sempre que conheço o que é a tradição e agora até tem sido engraçado porque quando os meus tios vêm cá também as fazemos em Lisboa, e isso é outra coisa que eu adoraria, mostrar a Lisboa o que são as sopas do Espírito Santo, mas essas são outras ideias”, conta a jovem.
Estas tradições familiares permanecem ainda hoje, já que sempre que visita a ilha do Faial há também “um dia quase sagrado” no qual há uma refeição em família na adega do avô com a presença do habitual pão de milho feito pela sua mão, uma receita que esta neta tem também trabalhado para manter na família.
“O meu avô ainda tem muita força e energia e faz massa sovada como eu nunca vi, ele demora uns três dias a fazer massa sovada, porque faz o seu próprio fermento durante uma noite inteira, a massa é toda mexida à mão, e eu transporto isso para os meus lêvedos, porque nos meus lêvedos a única coisa que misturo à máquina são os ovos e o açúcar para que não se note o açúcar, de resto é tudo feito à mão e é isso que eu adoro continuar aqui em Lisboa”, diz ainda, referindo que conseguir transportar estas tradições gastronómicas para o continente é “uma vitória”.
Porém, lamenta que nos Açores, sobretudo na ilha do Faial, realidade que conhece com mais profundidade, existam já poucas pessoas dispostas a fazer massa sovada em casa sem ser pela altura do Espírito Santo, já que a maior parte das famílias tem vindo a optar por comprar as versões mais industrializadas desta iguaria.


Joana Medeiros

 

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